fantasmas da noite

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A primeira vez em que vi uma foi em Montevidéu.

Quando entendi para o que servia, adorei. Eu mesma sabia o que era fazer uma reforma e acumular detritos na calçada até chegar um caminhão pra levar tudo embora sabe-se lá para onde.

Falo das caçambas. Havia a promessa, quando apareceram por aqui, de serviço limpo, regulamentado, o lixo no lixo, enfim!

Algumas acho que são. Eu mesma, quando já precisei usar, procurava as que tinham identificação porque acreditava que com isso haveria um mínimo de controle. Sou otimista, sempre.

Mas hoje, além de otimista, sou idosa. Terceira idade. Ou última, depende do grau da depressão.

Então o sono fica leve e não o peso. Esse mundo é injusto.

Então, agora que moro em apartamento, rodeada de prédios por todos os lados, sou rodeada também por caçambas por todos os lados. Num quarteirão só de prédios altos, não passa uma semana sem haver uma ou mais caçambas estacionadas.

Tá certo. As pessoas reformam, consertam.

Então à noite, mas bem noite mesmo, tipo duas ou três da manhã, o lugar aqui fica parecendo as noites do fantasma de Canterville. Um profundo arrastar de correntes, imprecações, rangidos e estrondos.

E eu ali, de olho esbugalhado, esperando a última caçamba ser trocada e/ou retirada ou esperando o amanhecer, o que vier primeiro, pra poder dormir.

Eu bem que preferia o fantasma.

auto-ajuda

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Não gosto de livro de auto-ajuda. Até aí, eu e muita gente estamos juntos. 

Um dos motivos é que geralmente trata-se de um monte de clichês, de receitas de bolo, de frases panacéia para tudo, como se a vida fosse fácil de entender. 

No entanto, tentando pensar com isenção, eu mesma tenho um monte de frases que marcaram e marcam minha vida. 

Acho que nenhuma veio de livro, porém. E olhe que eu leio muito, desde sempre. 

Uma grande parte delas veio de minha avó. Talvez por eu ficar muito tempo com ela – que desde que eu nasci já morava conosco- e ela gostar de contar histórias. As histórias delas sempre vinham com moral, no bom sentido. 

Fui gostando das tais frases. Ao ponto de, lá pelos meus dez anos, começar uma coleção de provérbios. Quando cheguei aos mil, parei. Preenchi livros e livros contábeis velhos que meu pai me cedia, para anotar as frases. Depois devo ter jogado fora. Sou colecionista mas não acumuladora. 

Então por que não gosto de livro de auto-ajuda? 

Poderia ser por estar tirando o mercado da minha categoria, a psicologia, mas eu raramente me lembro da “categoria”. Mecanismo de defesa, provavelmente. 

Poderia ser pelo evidente mercantilismo de quem se dedica a tais livros. Mas posso estar sendo preconceituosa. 

No fundo, no fundo, acho que é porque os tais ensinamentos derivam de livros e não de seres humanos. 

O papel aceita tudo, é mais uma frase. Sim, aceita. Já minha avó, a tal das frases e provérbios, tinha no resto da família seu contraditório. 

Ela vinha com um “sê como o sândalo, que perfuma o machado que o fere”e meu pai revidava com um “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. 

Minha mãe apregoava que “deve-se dar a outra face”e meu irmão apregoava que a “vingança é um prato que se come frio” e por aí afora. 

Pra cada frase, provérbio ou máxima, numa família que gostava de frases, havia sempre o contraditório. 

Isso nos fazia rir, tornava-se um jogo, no meu caso tornou-se uma coleção. 

E esses malditos livros de auto-ajuda só fazem dar a ilusão a quem os lê que tudo vai melhorar, bastando seguir certos preceitos. E comprar o livro, claro. 

Não, não gosto deles. Gostava era da minha avó futucando a memória pra achar alguma frase e o resto da família fazendo a mesma coisa pra achar outra que dissesse o contrário. 

Aprendi muito com isso. 

Aprendi o riso em família, as brincadeiras com palavras, o gosto por histórias. 

E também que ajuda quem não atrapalha…

material escolar

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Janeiro era mês de férias. Em janeiro eu ficava em casa, brincando sozinha do que conseguisse inventar. Esperando ansiosamente o começo das aulas.

Primeiro, por encontrar finalmente amigos. E depois, pelo novo material escolar.

Nada que se compare aos de hoje. Cadernos, lápis de qualquer tipo e tamanho, caneta idem, a cartilha. Mala de couro e pra quem pudesse, lancheira igual.

A minha era vagabunda. O couro. Por mais que eu cuidasse, engraxasse e não arrastasse no chão ou batesse em colegas com ela (coisas que os meninos faziam com frequência), o couro ressecava e ia se abrindo. Durou os quatro anos do primário, mas num estado lamentável.

Os lápis eu ganhava de um tio. Ele sempre andava com os bolsos cheios de lápis, o que lhe angariava um séquito de crianças correndo atrás dele pela Cerro Corá, onde ele morava. Grande tio Nicola!

As canetas eu pegava de uma gaveta do meu pai, em casa. Havia um montão delas. Sem meu pai perceber, eu usava as canetas parker 51, as Sheafer, as compactors e ia quebrando todas, de tanto apertar a pena junto ao papel. As penas se abriam. Ele ou não percebia ou não ligava. Nunca brigou comigo. Em qualquer circunstância.

Os cadernos eram brochuras, porque as professoras perceberam que a criançada ia tirando as páginas dos cadernos em espiral e logo os cadernos de 100 páginas ficavam fininhos. Elas adotaram as brochuras. Mas também havia técnicas para arrancar páginas: era só pegar as do meio. Maridão conta que chegou ao cúmulo de costurar cadernos, depois de tanto arrancar páginas.

Eu gostava de escrever só de um lado da página. Porque apertava tanto o lápis e a caneta para escrever que o outro lado ficava em alto relevo. Eu ia até o fim e depois, como não podia ter outro caderno, voltava, escrevendo do outro lado, aborrecida.

E como não tinha grana para comprar plástico para encapar os cadernos, fazia isso com papel de padaria ou, lembro um certo ano, com sobras de uma cortina de plástico do banheiro. Era a única da classe com cadernos encapados com peixinhos!!

Lápis de cor eram poucos. Aqueles de apenas uma dúzia. Eu ficava louca da vida porque nessa dúzia ainda tinham a pachorra de botar um branco, que não servia para nada..Nunca tive o de 36 cores. Acho que um dia desses vou comprar, só pra ficar olhando. Se é que ainda existem!

E esse era todo o material. A cartilha era o livro sagrado, que não podia estragar nunca. Eu morava em uma casa cheia de livros, a cartilha não me motivava pra nada. O compasso era um lápis no qual a gente amarrava um barbante. Funcionava perfeitamente. As borrachas eram duras e mais sujavam o papel do que apagavam. Pelo menos as minhas.

E nada disso teve a menor importância . Fui ótima aluna no primário (péssima no ginásio e bastante razoável na faculdade) e me virei bem com o material escolar.

Só sobrou mesmo hoje essa vontade de ter um estojo de 36 cores e um globo terrestre.

E uma vaga saudade daquela lancheira de couro com um sanduíche de goiabada.

Era ruim, mas como era bom!!