parece que foi ontem

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Foi quando eu conheci batida de amendoim.

Foi lá, mais ou menos em 70 ou 69. Enfim, outro século.

Estou falando do Cu do padre, aquele boteco atrás da igreja de Pinheiros. Acreditem, ele existe há muito tempo. Eu também, mas isso não vem ao caso.

Lá, no cu do padre, eram dois irmãos que tocavam o boteco. Faziam umas batidas de tomar de joelhos, de coco, de amendoim, de maracujá, de limão. E traziam uns queijinhos regados a algum molho escuro e desconhecido – e bom – que a gente também comia lambendo os beiços.

A gente era estudante da USP e um monte de gente que lotava o boteco também. E todos podiam pagar pelo que comiam e bebiam, mesmo os moradores do CRUSP mais sem grana.

Lembro de ter ido lá com meu namorado, hoje marido, com amigos, até com a Raquel Moreno, pra fazer um esquenta antes de uma passeata no centro da cidade. Lembra, Raquel?

Os irmãos tinham sempre cara enfezada, mas eram boas pessoas. A gente nunca sabia o que punham nas batidas, por mais que olhasse, porque as coisas vinham em garrafas não identificadas e eram despejadas nos copos. O lugar era bem sujo e isso não é gracinha, como a maioria dos sujinhos de hoje. Lá era sujo-raiz, desses de passar guardanapo nos copos antes de beber, vai que…

Mas era bom. A gente olhava aqueles queijos provolones e parmesãos pendurados do teto, cheios de picumã, de pó, de cagada de moscas e insetos outros e não ligava. Pedia as porções e adorava.

A gente tinha sonhos, tinha pouca idade, nada doía a não ser as dores de amores e as dores sociais. A gente era feliz, apesar de tudo. Porque a gente acreditava.

Voltei lá ontem. Com o maridão, das poucas coisas que não mudaram desde aquela época.

Meus cabelos embranqueceram, a situação política escureceu, os sonhos ainda existem mas bem mais realistas, o tempo urge e os prazos de validade se aproximam.

Os irmãos não estão mais lá. Acho que morreram, pois eram bem mais velhos que a gente e a gente já está meio que com o pé na cova…A batida de amendoim não dá mais vontade de tomar ajoelhado. O queijo veio sem molho nenhum. A sujeira continua lá, mas agora é só sujeira. Não é mais tradição.

E o preço: mano do céu!!

As coisas mudam bastante de um século pra outro, é só o que posso concluir.

Nem todas, porém.  Os milicos no poder agora lá estão pelo voto, mesmo que de carona. E a situação continua escurecendo.

A distância entre o sonhos de outrora e o pesadelo de hoje é curta.

Parece que foi ontem mas é hoje.P1020070