breve história

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A marca era Brasil. Como nunca ouvi qualquer menção a essa marca, suponho que fosse vagabundo. O piano, que é disso que estou falando. O piano lá de casa.

Não era de cauda, não, era daqueles altos. Tampouco era de apartamento, era grande demais.

Ficava do lado direito de quem entrava na sala. Pensando bem, do lado esquerdo. Às vezes direito, às vezes esquerdo. Minha mãe, como eu, gostava de mudar as coisas de lugar. A sala era retangular, mas as opções para o piano ficar não podiam incluir a frente da janela nem no arco que dividia a sala de estar da de jantar. Então minha mãe ficava mudando ele de lugar, da direita pra esquerda, a cada seis meses, mais ou menos. A sala tinha ranhuras profundas no taco, encobertas por um tapete.

Lembro do fascínio que senti quando descobri que a tampa de cima abria e lá dentro – pasmei- um monte de teclas tortinhas de feltros que faziam som! Eu brincava de tocar ali direto. E usava pra esconder coisas dentro dele.

A cada tanto, vinha lá em casa o afinador. Um velho alemão, que mal ouvia.

Nunca contei que gostava de tocar “de dentro para fora”.

Um dia a situação financeira apertou bastante. Ele  foi vendido. Bem barato, me lembro.

Doeu muito.

curso de ética

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Matriculei-me num curso de ética.

Eu achava que era uma pessoa ética. Tinha – e tenho – lá meus valores, certas regras que sempre me fizeram viver em sociedade de maneira que – pelo menos eu achava- era civilizada, racional e ética.

Hoje, aos 69 anos, já não sei.

Leio por aí sobre a ética do PCC, a ética dos ladrões de colarinho branco, a ética dos partidos e até a ética do narcotráfico. Ora, se todos esses agrupamentos, vamos chamar assim, possuem ética, então ela é só um instrumento de convívio em grupo, seja ele qual grupo for. Algo assim como um uniforme que se põe, um crachá pendurado no pescoço, um código de barras a ser lido por quem quiser.

Eu achava que era mais que isso. Achava que moral, que ética, que hombridade, essas coisas, indicavam sempre um caminho de melhora para a humanidade, um caminho de crescimento, um caminho civilizatório.

Parece que não.

Então vamos lá, vamos tentar reciclar ideias. Talvez o mundo tenha mudado e eu percebo pouco deste atual. Enfim… tenho tentado bastante coisa para entender.

Porque entender o mundo que me cerca é importante. Sou bastante emocional mas prezo a ação conduzida pela razão. Pra isso estudei, pra isso sempre leio quanto posso, pra isso procuro pensar antes de falar.

Mas ultimamente anda puxado. Há uns tempos atrás eu podia pensar – e escrever- em até 180 caracteres. Depois nem isso. Eu sou lerda. Com a idade venho ficando mais lerda ainda. Meu queixo tem caído um bocado com as notícias que leio.

Então, voltar pra escola pra estudar chega a ser, também, uma questão odontológica. E ética, segundo meu síndico, pode ser também não entrar com guarda-chuva molhado no elevador.

Tá difícil.

Semana que vem começam as aulas.