memórias de uma viciada, sqn.

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Meu primeiro contato com as drogas deu-se através de uma vizinha, nos meus cinco anos, na Lapa. Ela era viciada em comer açúcar branco, puro, em xícaras. Quis me introduzir ao vício mas resisti. Nunca gostei muito de açúcar branco.

Um pouco mais tarde, quando era chegada em brincar de casinha sozinha em casa, descobri o armário de miniaturas de bebidas do meu pai. Experimentei algumas. Comecei pela azul, a mais bonita. Acho que era Curaçao, horrorosa. Passei por outras e a única que acabei e gostei foi o vermute. Não cheguei a ficar bêbada porque ia aos poucos, minha mãe podia notar as garrafinhas esvaziando. Não me deixaram exatamente viciada, embora até hoje goste de vermute. Mas quando descobri o vinho (minha avó me dava, com água e açúcar, nas festas), fiquei nele. E conhaque, nos tempos em que podia beber coisas mais fortes. Curaçao nunca mais.

Cigarros também vieram dessa época. Meu pai fumava muito. Um dia experimentei. Mistura Fina, sem filtro. Gostei, mas fui viciar mesmo lá pelos doze anos. Hollywood, com filtro. Levei 40 anos pra conseguir sair do vício.

Só de adulta fui apresentada, ou, melhor dizendo, convidada pra um baseado. Eu passei pelos anos todos de escola e faculdade sem nunca ver um. Ou eu era muito distraída ou o povo fumava menos. Mas, quando fui convidada a um cigarrinho desses, com cheiro ótimo, eu recém tinha acabado de sair do vício do cigarro convencional. Achei melhor não começar outro. Hoje quase fumo maconha por tabela, passeando a pé pelas redondezas do centro. Continuo a achar o cheiro ótimo.

Em compras nunca me viciei. Mas em olhar vitrines sim. Aprendi com minha cunhada. A gente não tinha dinheiro pra comprar mas olhar sempre foi de graça. E se era de graça, a gente fazia a coisa em grande estilo. Olhava direto lojas de ouro e brilhantes, a tal ponto que eu sabia, ainda menina, cotar preço de anéis e pulseiras. Ainda gosto. Só de olhar. Compras de verdade faço mesmo em brechós.

Vício em jogos de cartas já tive. Eu e minha avó nos trancávamos na garagem e ficávamos jogando bisca e escopa, jogos italianos que ela gostava. Se minha mãe visse as duas levavam broncas pesadas.

Nos domingos de família jogava-se pôquer, a feijão. Eu roubava descaradamente, fingindo que ia ao banheiro e passando na cozinha pra pegar mais grãos, achando que ninguém ia notar…

Na praia, namorando, jogávamos também. Mas só nos dias de chuva.

Hoje jogo no computador. Mahjong.

E são e foram essas minhas drogas. Eu podia estar roubando, estar matando, mas nunca fiz nada disso.

Talvez mereça o céu, por ser menina boazinha.

Mas não acredito em céu.

 

ameaças

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Se você continuar assim, te mando para o colégio interno!

Tremenda ameaça. Repetia-se com uma certa constância. Eu ainda não havia lido o Ateneu, do Raul Pompéia, que na época era dado nas primeiras séries do fundamental e não no vestibular, mas já havia lido muito Dickens. Colégio interno era – quase- minha especialidade.

Refugiei-me no banheiro dos fundos. Não por qualquer necessidade fisiológica, embora, sob certo aspecto, minha necessidade de privacidade sempre tivesse sido assim, meio fisiológica. Mas lá dava pra pensar.

Colégio interno significava não sofrer mais com o alcoolismo do pai, não ver, cotidianamente, as reclamações da mãe, embora hoje eu saiba que ela estava coberta de razão, mas o coração tem razões que a própria razão desconhece e eu, na época, ficava de saco cheio delas.

Colégio interno significava não ter que acordar cedíssimo pra tomar ônibus lotado e chegar na escola às sete da matina. Afinal, no colégio interno, eu moraria na escola. Isso era o que eu achava.

Colégio interno também significava estar o dia inteiro com amigas que eu tinha certeza que faria, outras na mesma situação que eu (ingênua, na época, eu não sabia que a necessidade não traz, necessariamente, solidariedade) e, portanto, poder brincar. Em casa eu nunca tive autorização pra ir na casa das amigas. Resultado, muitas das aulas que eu matava eram só pra fazer social, ou seja, estar mais tempo com amigas.

Enfim….voltei do meu retiro no banheiro e disse à mãe: pode mandar. Eu vou pro colégio interno!

Ela não cumpriu. Não havia dinheiro nem vontade real, suponho, de cumprir.

Mas também nunca mais repetiu a ameaça.

Tem coisas que são assim, aprendi: perdem o sentido quando a gente analisa e olha de perto.