eu e meus botões

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A água da represa é muito suja. Marrom, cheia de galhinhos e outras coisas não identificáveis. E, uma vez mergulhando, de olhos abertos, leva um montão de tempo pra emergir. Vendo todo esse amarelo sujo cheio de galhinhos no caminho de volta.

Apesar disso, eu gostava.

Porque lá, nada me prendia ao chão. Por incrível que pareça, nadar é quase como voar. Nada te liga ao chão.

Mas eu tenho medo. De voar e de nadar. De voar, pela falta que o chão me faz. De nadar pelo cansaço que me impede de continuar.

Então, o jeito é nadar em águas rasas.

Mas voar?

Se fossem minhas as asas, algum controle poderia haver.

Mas não são. E quem controla essas asas é toda uma tecnologia que eu não domino, é um piloto e copiloto que eu não conheço, é um clima sobre o qual eu pouco sei.

A questão então é: falta de controle. Falta de domínio sobre a situação.

Estou só. Na represa e no ar. Embora rodeada de um monte de gente, mais num lugar do que noutro, estou só.

Na vida, porém, não estou só. Mesmo adorando estar só, raramente estou só.

E isso é ótimo. Porque existem outros seres descontrolados que pensam e vivem situações muito semelhantes. Se eu errar numa decisão, pode ser que eles não errem. Muitas cabeças pensando, aquela coisa toda…

Existe sempre uma chance.

A não ser, é claro, que você opte por saídas autoritárias, aquelas que creem controlar tudo e não controlam nada.

Aí, é fundo de represa. É lama, é amarelão, é água que não acaba mais e pode ser que você não emerja mais.

Paradoxos da vida. Ter controle não é controlar. Ter força não é atacar. Viver não é matar.

soluções drásticas

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Não sei o porquê, mas hoje, nas grandes capitais do mundo, reina soberana uma enorme roda-gigante. Em algumas da Itália e França colocam, nas principais praças, um carrossel digno do saudoso Joãozinho Trinta.

Não se trata de parques infantis centrais nem mesmo qualquer tentativa de agradar às crianças, pois que criança é o que menos se vê nesses brinquedos. Realmente, não sei o motivo disso.

Nunca fui. Em carrossel já, lembro do meu pai e minha mãe me esperando e eu ali, dando voltas, meio mareada. Nem sei onde era. Nunca mais repeti a experiência.

Roda-gigante é um problemão, do tamanho dela. Não se trata de problemas com girar. Lembro que uma brincadeira que fazia muito com amigas era rodopiar até cair. Uma droga rápida, fácil, gratuita e que dava o mesmo barato de tantas outras sem nenhuma contraindicação, acho.

Mas roda-gigante não dá. Acho que fui umas duas vezes. A última com meu namorado, na praia. Envergonhada, pedi para sair e vomitei ali mesmo, ao descer. Um vexame.

Quando meus filhos eram pequenos, o encarregado de ir na montanha russa e coisas do tipo que se mexem freneticamente sempre foi meu marido. Eu tentei uma vez ir com minha filha nas xícaras voadoras. Uma náusea.

Acho que isso de rodar me afeta. Rodar no ar mais ainda.

Ultimamente até saber que o mundo gira me afeta. Melhor seria se ele parasse e todo mundo fosse jogado dele ao espaço, que, se não me engano, é o que aconteceria.

E aí, começar tudo de novo, como numa nova rodada da roda-gigante.

Sei lá, tanta solução louca aparece que essa pode ser uma…