as mãos de Mariana

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Minha avó tinha artrite.

Ou artrose. Enfim, aquilo que lhe deformava as mãos, que as deixava com dedos juntos e esticados, como se fosse pegar alguma coisa em pinça.

Aquilo me chamava a atenção. Quando era muito pequena eu lhe segurava as mãos e tentava endireitar. De vez em quando ela chiava, com dor, provavelmente. Ela chiava muito pouco com minhas artes.

No entanto, é das mãos dela que eu mais me lembro. Só com esforço tenho que lembrar que ela era corcunda também e tinha os cabelos brancos que passavam da cintura, arrumado numa trança que dava voltas e se tornava um coque na nuca.

As mãos dela sempre me fizeram massagem nas costas. Como nunca ninguém mais.

As mãos dela faziam comida muito boa, até minha mãe decidir que era também muito gordurosa e tirá-la da cozinha. Ela entrava às escondidas e me fazia tomar todo dia uma colher de azeite de oliva.

As mãos dela faziam crochê constantemente. Perfeito e delicado como nunca eu fui capaz de fazer. Com a menor agulha que já vi e que guardo até hoje.

As mãos dela benziam. Cada vez que eu saía de casa de ônibus e voltava estourando de dor de cabeça (e hoje sei que era por causa do diesel dos ônibus com motor dentro que me faziam também vomitar) ela dizia que era olho gordo e me benzia. Passava. Carinho de vó passa muita coisa.

Ela também benzia erisipela e dava chás para tudo.

Hoje me assusto quando percebo que ela morreu com 72 anos e que, portanto, estas minhas lembranças são de quando ela teria, provavelmente, a idade que tenho hoje.

Minhas mãos também fazem crochê, mais grosseiro, de barbante. Não benzem nada nem ninguém, descrente que sou. Fazem massagem mal, segundo massageados (poucos). E vão se tornando duras, com a idade e com artrose. Ou artrite, sei lá.

Ainda cozinho, nada de gordura, e não tomo mais azeite de oliva de colherada. Talvez devesse. Os médicos vão e vêm nesses ditames.

Ainda não sou avó.

E não pretendo morrer com 72 anos.

Mas isso ela também não pretendia.