tudo junto e misturado

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Somos o que aconteceu com a gente nesse tempo todo que estamos por aqui, mais um bocadinho de carga genética.

Quanto à carga genética não há muito o que fazer. Ela veio junto no pacote, numa idade em que a gente nem sabia o que era carga e muito menos genética. Mas o que aconteceu tem o nosso dedo. Tá bom, tem o dedo de muita gente mais, mas o nosso não dá pra tirar da reta. O dedo, que é do que falo.

Não gosto nem um pouco do povo que olha pra trás e se põe a elogiar tudo. Olha uma foto e sai falando que a gente era mais elegante, que a cidade era mais limpa, essas coisas.

Acho que viveram em outro lugar, muito diferente de onde vivi.

Na minha rua não tinha asfalto nem esgoto. Dia de temporal nem tinha como ir à escola, que na rua da escola também não tinha asfalto nem esgoto.

Quando era dia de ir “`a cidade” que era como se dizia pra se referir ao centro, era também dia de por as melhores roupas. O que não necessariamente tem a ver com as mais confortáveis nem condizentes com clima tropical. O pai ia de terno completo, geralmente escuro, fizesse o sol que fizesse, fosse o domingo que fosse. A mãe, de salto e bolsa, tudo combinadinho, mesmo que o sapato apertasse e a bolsa, pesadona, não tivesse nada dentro. E eu…ah, que horror! Criança tinha que ficar limpa, segundo minha mãe, e para isso não podia comer nada, nem correr, nem brincar com cachorros, nem comer sorvete. Limpa, de vestido de organdi engomado que picava por dentro e por fora, de meia e sapatos brancos. Que tinham que ficar  brancos, sob pena de…deixa pra lá. Uma tortura.

Elegância? Ou sofrência, como se diz por aí?

Tá bom, difícil achar elegante quem faz de si mesmo caderninho de rabiscos e se enche de tatuagens definitivamente feias, quem usa roupa rasgada passando frio com meia calça por baixo pra segurar a onda, quem usa salto alto em ruas de paralelepípedo e que tais, enfim, difícil buscar elegância em roupas inapropriadas. Mas como já disse, somos em boa parte responsáveis por aquilo que nos põe bem ou mal. E ninguém venha falar de luta de classes e política, de exploração do homem pelo homem, que pelo menos aqui não é disso que falo. Falo do que a gente decide todo dia fazer e quando faz, faz mal a si próprio.

Comer mal, vestir mal, passar apertos ou calores sem necessidade, essas coisas.

Não estou falando de comer pouco, de passar dificuldade, de não poder decidir.

Estou falando do que a gente pode sim, decidir.

Voto, por exemplo.

Tênis, por exemplo.

Democracia, por exemplo.

Xiii..acho que misturei as bolas de novo…

impressões de viagem – 3

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Acabou esta viagem. Espero que não seja a última. Quero voltar pra França sempre – Paris nem tanto – quero voltar pra Alemanha talvez. Mas viagem pra mim é qualquer lugar que me tire da rotina, que me traga coisas novas, cheiros novos, verdes novos, cantos e becos não percorridos.

Pode ser em Paris mas também pode ser na Freguesia do Ó. Pode ser em Embu ou em Amsterdã.

Pode ser, como já fizemos certa vez, tomar um trem e ir até o Grajaú, só pra ver como é que é. Ou até o ponto final do Vila Iório, ônibus que tomo com frequência mas não tinha idéia onde terminava a linha.

Viajar é o novo, esse novo que me assusta tanto, que me dá dor de barriga de medo, que me obriga muitas vezes a voar por horas e horas, pedindo a todos os santos um pouco de apoio – literalmente . Eu que sou atéia.

Ou o novo que me faz evitar, como hoje, domingo, a passagem subterrânea pra se alcançar o arco do Triunfo. Passagem a pé que tem só a largura da rua, mas que tinha tanta gente que eu voltei correndo, apavorada. Não sou antissocial, pelo contrário, gosto muito de gente. Mas a uma certa distância e em pequena quantidade. Dois ou três de cada vez já está bom.

Viajar é terminar uma e já dormir pensando na próxima.

Tá legal, terei amanhã um monte de horas de voo de novo, mas horas de voo dão milhagem e milhagem dá o que? Mais viagens. É a teoria do copo meio cheio ou meio vazio que funciona. Ou, dito de outra maneira, Polyana rides again!

Praga e Paris, nesta última parte da viagem foram muito boas. Praga é lindíssima em seu aspecto sério e digno. Ampla. O que mata, pelo menos pra mim, é não haver tradução para alguma língua minimamente conhecida. Um inglês, um espanhol, um francês básico. Eu não conseguia nem mesmo pronunciar os nomes, que dirá entende-los!

Paris é Paris. Não acho que seja uma  festa. Pelo menos não mais. Paris está muito cheia, muito subdividida. A cada pedaço um gueto de imigrantes deste ou daquele lugar. Além do gueto da pobreza, o gueto da língua. O francês falado numa esquina pode não ter nada a ver com o francês falado noutra. É divertido ver as francesas padrão esquálidas ao lado de negras bundudas e alegres. Homens franceses pequenos e discretos ao lado de negros altos, cheios de ginga, de olhar penetrante. Há também os muçulmanos e suas roupas escandalosamente quentes e escuras e os indianos de variados tons verde-acinzentados, com olhos febris de tanto brilho.

Não consigo administrar Paris em seu tamanho e diversidade. Talvez por isso sempre prefira as cidades menores, mais aconchegantes do interior. E, no quesito comida, a coisa piorou muito. Não gostei nem um pouco de ver parisienses comendo hambúrguer e batata frita com Coca. Tá certo que comem sanduíche no prato, de garfo e faca. Mas muito do charme e da boa comida se perdeu.

Enfim…mais uma viagem termina e foi boa, muito boa.

Estou pensando no leste europeu ou no Canadá com escala em Cuba pra próxima…