impressões de viagem 2

Standard

Fazer um roteiro de viagem é quase uma arte. Mesmo com as facilidades da internet, você sabe que aquelas fotos lindas do flickr ou congêneres são o melhor que cada um pode fazer. Não refletem, necessariamente, a cidade em seu todo.

Por exemplo, em nosso roteiro, Aachen, na Alemanha, foi um erro de projeto. Não é cidade medieval como gostamos nem tem qualquer especialidade, uma vez que também não gostamos de cerveja. Mas tem uma catedral impressionante, do período carolíngio. Resultado, a gente se fartou de fotografá-la. Quanto ao resto, tudo são parques. Ainda bem, que eu gosto muito. Em viagens anteriores me dedico a gatos. Nesta, meus mascotes têm sido os patos. Gato vi muito pouco e os cachorros que vi pareciam sempre estar estranhamente cansados. São adestrados demais. Sinto falta dos vira-latas que se enroscam nas minhas pernas. Estes só faltam pedir por favor pra passar ao meu lado, de cabeça baixa.

Antuérpia é linda. Estará para sempre no meu ranking pessoal das cidades mais lindas que já conheci, junto com Edimburgo, Catânia, Veneza, Londres e Paris, não nessa ordem, talvez.

Frankfurt é grande. Não gostei mas, como sabiamente dizia o Flávio Rangel (não a respeito de Frankfurt, claro), “tem quem goste”.

Agora chegamos em Bamberg. Lindinha, pequena, um belo rio.

Tudo estaria bem no melhor dos mundos não fora minha recém adquirida infecção urinária.

Deve ser o que se chama por aí de “cum grano salis”.

Não será isso o que irá me atrapalhar, porém.

Não só o nordestino é um forte.

As lapeanas também.

Amsterdã

Standard

Amsterdã. Holanda.

Antes de conhecer imaginava Van Gogh e seu maravilhoso cabelo vermelho- fetiche particular meu – imaginava moinhos de vento e tamancos de madeira. E bicicletas, é claro, mas sem muito destaque.

Conheci finalmente. Decidi não ir ao museu Van Gogh. Muito menos à casa de Anne Frank. Já li o livro e já vi o filme e chorei nos dois. Não gosto de chorar.

Tamanco não vi nenhum. Ao contrário, fiquei contrafeita com os souvenires das lojas: um monte de pênis enormes das mais diversas formas, por conta do sexo considerado livre e disponível mais um monte de canabis, também das mais diversas formas. Achei bem triste um país ter isso como souvenir, mas aí lembrei das borboletas de asas cintilantes dos pratos do Rio de Janeiro e das nossas baianas estilizadas e me conformei. Triste mesmo é a cabeça de quem bola semelhantes souvenires e de quem os compra, alimentando essa indústria rentável e idiota.

E as bikes às quais não dava muita importância, me rendi, apavorada. Logo eu que tenho bike, que gosto delas, que acho uma maravilha em termos de transporte saudável e não poluidor, enfim, rendi-me às bicicletas daqui. As infinitas ciclovias – baita inveja- se enchem de bikes. Mas não só. Nelas podem andar motos, vespas, bikes de todo tipo, cadeirantes e velhinhos em seus andadores motorizados. No pau. Quando quase fui atropelada por um carrinho de bebê decidi manter toda a distância possível das ciclovias. É mais fácil atravessar ruas do que ciclovias em Amsterdã. Um stress danado!

Gente, não aguento mais tanta bike.

Mas existem os parques e lagos. Eu tive um professor de geografia no cursinho, holandês, que exemplificava a situação da Holanda com a nata leve do leite. Assim: a Holanda só está à tona por conta da tensão superficial. Se você apertar de um lado, sobe do outro. Em baixo, só água. Em cima, hoje, só bicicletas. Por aí…

Mas os parques, lagos e canais de Amsterdã valem ter vindo aqui. Um monte de aves, de paz, de flores. Limpos, cheios de gente transparente de tão branca e sardenta tentando desesperadamente pegar uma corzinha e de quebra fazendo pic-nic com a família. Dá gosto ver.

Amanhã indo para a Bélgica.

Quem sabe eu encontre o Tim-Tim por lá…

ode aos pés

Standard

P1010293

 

Não dá pra lembrar a primeira vez em que me dei conta deles. Sim, porque são dois.

Mas lembro de quando costumava botá-los na boca, sempre a pedidos.

Na realidade, punha apenas a ponta, mas punha. E quem pedia geralmente queria rir às minhas custas ou só me sacanear mesmo. Coisas de irmão.

Em todo caso, eu obedecia. Punha-os em minha boca com toda facilidade.

Depois, na adolescência, eles sofreram. Como sofrem na adolescência!

Havia a falta de grana crônica na família. E havia a reciclagem. Naquela época em que reciclagem era só mesmo o que famílias pobres faziam com roupas e sapatos, passando dos maiores para os menores, dos irmãos para os irmãos, dos primos para os primos.

Em minha casa, única filha mulher, passaram de cunhada pra mim. Cunhada delicada, de bom gosto, mas com pés muito menores que os meus. Sim, porque é deles que estou falando: meus pés.

Eles sofriam, mas o que eu não era capaz de fazer por um bonito sapato…

Meus calos datam daí.

Depois a fase dos saltos. Durou só até eu cair de um ônibus, com risco de ficar sob as rodas. Os malditos saltos enroscavam em tudo: escadas rolantes, bueiros, chão de ônibus. Fora o barulho do metal dos saltos.

Depois disso diminuí saltos. E os alarguei.

E agora, de uma década pra cá, a fase dos tênis. Que maravilha! Viciei. O que mata são os preços, mas descobri que tênis não é muito diferente de escova de dentes: trocando com certa frequência, pode ser barato. A diferença de qualidade é muito menor do que a diferença de preço entre um bom e um medíocre.

E os pezinhos, não tão pezinhos assim, tamanho 39 bem medidos ou no caso de tênis 40, se refestelam.

Quanto a por meus pezinhos na boca já tentei. Nunca mais.

Nunca mais também meu irmão pra me arreliar.

Só isso dói. Os pés nunca mais doeram.