o enxoval

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Há muitos e muitos anos atrás – que é como começavam as histórias antigamente – havia a tradição das mães prepararem o enxoval das filhas. Só das meninas.

O que era enxoval? Uma certa porção de lençóis, toalhas de mesa e de banho, camisolas e robes. A quantidade e a qualidade variavam de acordo com as posses da família.

Posto isso e agora que todos se espantaram e/ou maravilharam com semelhante possibilidade, vamos ao meu enxoval porque sim, ele existiu.

Eu não sabia da existência dele porque nunca estranhei pacotes de lençóis ou toalhas entrarem em casa. Meu pai trabalhou anos na Gal. Carneiro, era comum comprar essas coisas lá para nós ou para algum parente que encomendasse. Também nunca estranhei minha avó ficar fazendo toalhas e toalhinhas em crochet, porque era isso que ela fazia 90% do tempo em que ficava acordada.

Comecei a estranhar, porém, quando a mãe da minha cunhada veio visitar o Brasil – ela era uruguaia – e ficou todo o tempo de férias fazendo variados pontos em lençóis de percal, peças que meu pai tinha comprado inteiras. Um primor. Isso eu acho hoje, que sei a trabalheira que dá, na época eu só achava esquisito gastar férias assim.

Depois, já adolescente, certo dia fui fuçar numa cômoda enorme que havia em casa e achei! O enxoval! Quando perguntei pra minha mãe de quem eram aquelas coisas todas novas em folha foi isso que ela me disse: O ENXOVAL ! Assim, com um puta destaque! De quem, mãe?

Seu, ué?!

E daí o que fiz?

Fiquei puta de raiva. Esperneei, esbravejei, só não xinguei porque nunca fui disso, mas demonstrei o quanto podia minha revolta. Como assim, enxoval? E eu lá sou mulher de enxoval? De rendinhas, de florzinhas, de alguém que compre e decida coisas por mim sem me consultar, sem saber do meu gosto?

Não adiantou nada, a não ser minha mãe e minha avó mais uma vez suspirarem desoladas. Eu provocava ventanias de suspiros em casa, sempre.

Com o tempo esqueci o fato. Desisti de reclamar. Pensei, não vale a pena brigar. Eu faço uma doação para alguém se eu algum dia casar. Sim, porque casar não estava em meus planos. Eu queria ganhar um prêmio nobel qualquer e me tornar uma literata famosa. Casar não era o caso.

Como a vida sempre se divertiu comigo, casei sim. Bem cedo, por sinal.

O enxoval?

Gente, foi uma mão na roda…não tínhamos dinheiro para nada, nem móveis nem muito menos pra enxoval. Maridão providenciou mesa, bancos, cama e sofá ele mesmo fazendo, eu pintei casa e móveis de solteira pra dar outra cara e fizemos a festa com o enxoval. Pequeno, que a minha família tinha dificuldades, mas que durou bem uns dez anos!

Elaiá!! Adorei meu enxoval, cheio de florzinhas, de crochês e de ponto ajour…

memória

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Salvador-Dali-2

Memória é uma coisa complicada. A gente nem liga muito até começar a perder. Daí a gente começa a pensar no assunto e ver que a coisa é, de fato, interessante.

Eu sabia da memória olfativa. Tenho bastante. Dessa memória me veio o gosto por cheiro de álcool (o de limpeza, não o que a gente toma, que aí a memória é gustativa), o gosto por cheiro de caramelo (chamo isso de memória antecipativa: depois desse cheiro costumava vir o pudim), o cheiro de dama da noite, que sinaliza o verão pra mim.

Tem a memória de nomes e caras, nos quais, sei lá porquê, só sou boa nos nomes. Fácil de lembrar nome e sobrenome de pessoas, raramente consigo dizer se o fulano tem cabelo ou não, se usa óculos ou não, se é loiro ou moreno.

Tem a memória espacial, que eu não tenho nenhuma. Entro por uma porta vinda de uma direção e vou sair por outra, geralmente contrária. Parece boutade, mas quando me mudei para este apartamento, queria ir pro quarto e ia pra cozinha e vice-versa. Conseguia me perder em menos de 90 metros quadrados. Levou um tempo pra decorar a disposição dos cômodos.

Tem também a memória sonora. Aquela que nos faz lembrar de músicas, que nos faz cantarolar mesmo sem saber a letra das músicas.

Essa memória, pra mim, também está muito ligada ao afeto. Negrinho do pastoreio é, para mim, música de ninar. Meu irmão cantava e eu dormia.

O apito do amolador de facas. Me lembra infância apesar dele existir ainda hoje. Realejo: me lembra Anhangabaú. Os pontos de ônibus eram lá e havia o homem do realejo e seu periquito, que puxava uma “sorte” cor de rosa, verde ou azul de umas gavetinhas e dava pra gente.

O pio da coruja. Lembra noite e sítio. E dá um aconchego muito grande.

E sirene de bombeiro e resgate. Confrange o coração pois sinaliza dor e sofrimento. Não sei o porquê, mas ambulância não dá a mesma sensação: ambulância parece que o sofrimento vai terminar chegando num hospital, lembra atendimento possível, acho. Mas sirene dá uma tristeza danada.

Memória faz falta, quando se perde. E bem que eu queria perder quando a lembrança dói, mas aí ela fica, como visgo nojento que você não consegue se livrar. Acho que chamam a isso de rancor, que é aquela memória que só volta pra te fazer sentir raiva de novo. Tenho muita.

Atualmente ando perdendo a memória de bobagens. Esqueço compromissos, esqueço de tomar algum remédio, esqueço pessoas, mas por enquanto, as que eu esqueço e depois lembro – ou me lembram – ainda são coisas das quais não gosto muito. Freud explicaria, mas acho que esqueci também a explicação dele.

Em todo caso, ando reativando aqueles caderninhos de papel, tipo agenda.

Quando eu lembro onde os botei, tornam a coisa toda bem mais fácil…