risco de vida

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Tenho muita dificuldade em entregar minha vida nas mãos de outros. Mas nem sempre posso evitar.

Existem os casos de operações com anestesia geral, essas coisas. Daí não tem jeito. Busca-se algum cirurgião de confiança e pronto. O que não tem remédio, remediado está.

Mas existem situações em que a gente entrega e não pode fazer nada. Sem anestesia.

Outro dia estava num ônibus, sentada no primeiro banco, aquele dos velhinhos, que é o que sou, mesmo que não goste. Portanto, logo atrás do motorista.

E ele se põe a falar no celular. Primeiro dilema: aviso o cara que isso é proibido e ele fica irritado e começa a guiar de mau humor, que é a pior forma de guiar ou não? Não avisei. Até porque eu acho possível guiar e falar ao celular, menos em curvas fechadas, mas…

O diabo é que ele estava discutindo a relação com namoradx ou companheirx  ou seja lá o que for. E estava ficando cada vez mais enfático e irritado. E eu ali, torcendo pra dar tudo certo, torcendo pelo motorista, quer ele tivesse ou não razão, torcendo de ouvinte passiva só pra evitar que ele ficasse nervoso e descontasse na direção.

Desci antes do desenlace, qualquer que tenha sido ele.

Mas e no avião? E numa mesa de cirurgia? E o que passa na cabeça do anestesista? Bem naquela hora em que a mão não pode tremer? Será que ele lembra daquela resposta malcriada de algum filho, daquele patrão mau encarado que está para despedi-lo, daquela esposx com a qual vive às turras? Daquela conta a pagar e o banco pressionando?

Eu só posso torcer. Da maneira mais egoísta possível, torcer pelo bem da humanidade, pelo menos essa humanidade que por horas ou minutos controla totalmente minha vida.

E ficar lembrando das vezes em que uma certa professora de inglês que tive pedia pra alguém buscar um guaraná e ele vinha cuspido, que ninguém gostava dela. Eu nunca fiz isso. Não que não tivesse vontade, mas ela só pedia pras melhores alunas, como se isso fosse algum tipo de prêmio.

Ou das vezes em que eu mesma, por algum motivo, fiquei nervosa e bati portas até cair a maçaneta, joguei brinquedos na parede, queimei a comida, essas pequenas baixarias do dia a dia.

E é lembrando disso que eu torço pela felicidade de todos os cirurgiões, dentistas, anestesistas, motoristas de ônibus, taxis e aviões, até mesmo pelos jardineiros com aquelas tesouras enormes nas mãos ou eletricistas e mecânicos. Certas pessoas devem ser equilibradas.

Já presidentes e membros do STF… nem minha torcida adianta. Aí, só deus.

Mas eu sou atéia.

 

bicho carpinteiro II

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Há muitos nos atrás eu contei que um dos apelidos que a família gostava de me dar era o de bicho carpinteiro. Também me chamavam de rainha da preguiça. Família incoerente.

Mas bicho carpinteiro era porque eu não parava quieta.

Criança nenhuma para. Se o fizer, é bom ficar de olho, porque alguma coisa está fora da ordem mundial.

Enfim, eu falava muito, fazia muitas coisas ao mesmo tempo, andava daqui pra lá e já que eu tinha chegado lá, voltava correndo pra cá, essas coisas.

Continuo um pouco assim. Gosto de passar roupa. Eu sei, é uma doença e eu devia procurar terapia. Mas gosto. Demorou muito pra desenvolver esse gosto, assim como o gosto por cabernet sauvignon, mas com a idade ele acabou por aparecer. Ambos os gostos. Mas é impossível só passar roupa. Tem que ter a televisão ligada e num programa bem agitado. Se for musical melhor ainda. Dá pra passar roupa e dançar, por exemplo.

Gosto de andar. Muito. Mas nos nossos 10 km por dia tem que haver alguma coisa pra ver. Bichos, vitrines, gente esquisita (é o que mais há), casas de arquitetura duvidosa, desafios de subidas e descidas. Consigo tudo isso em perdizes. Não dá pra só andar com vida interior, refletindo com botões. Ou minha vida interior é pobre demais ou uso botões de menos, mas não consigo.

Dormir. Durmo bem. Mas existe todo um ritual. Tenho que me imaginar construindo cabanas em ilhas desertas com toda a dificuldade de achar material pra isso em ilhas desertas mais o fato de que nunca fiz isso na vida, então o know-how é quase nulo. Isso dá tanto trabalho que durmo logo depois dos alicerces. Melhor assim, a cabana desabando poderia me acordar…

Escrever por aqui. Faço isso na cozinha, de manhã, com o almoço em curso. Dependendo do entusiasmo, o almoço de sopa vira churrasco. Mas é legal ter um olho no monitor e outro no fogão.

Enfim, bicho carpinteiro continuo sendo.

Mas, quer saber? Com a idade isso vem dando uma canseira que vou te contar…