bicharada

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Eu já tinha uns sete anos quando fui pela primeira vez ao cinema. Um filme do Disney, mas não era animação. Era com bichos de verdade.

Eu já conhecia um monte de bichos, mas aqueles me pareceram mais lindos, mais brilhantes, mais atraentes. O fascínio do cinema.

Hoje me pergunto quais bichos as crianças vão conhecer. Os brilhantes e atraentes do cinema, da TV, alguns enormes do Zoo, acho eu.

Eu conhecia galinhas. De angola e as comuns. E galos. E via minha avó matá-las, as galinhas, dando um tranco certeiro no pescoço. Depois disso era tirar as tripas, as penas e ser feliz, com galinha assada, recheada no forno ou em canja ou refogada ou frita.

Eu nem ligava mais para os sapos que havia em casa. Sabia onde eles ficavam, conhecia pelo tamanho e pela cor.

Ratos e ratazanas entravam dos charcos vizinhos. Entenda-se charcos por terrenos baldios onde a meninada ia caçar girinos e rãs. Ratos minha mãe matava. Com nojo mas perícia. Já meu irmão do meio foi pego em flagrante delito alimentando um rato que encontrou com o parmesão da macarronada. Olhar feio da família inteira.

Escorpiões minha avó tinha uma teoria que fazia com que ela rodeasse o bicho com álcool, depois acendia o fogo e esperava o bicho “suicidar-se”. Pelo menos era a teoria dela. Poética, mas ridícula. E vários se “suicidaram”assim lá em casa.

Lagartixas ninguém nunca matou. Dá azar.

Pernilongos a gente perseguia com panos. Por causa dos charcos e da proximidade do rio Pinheiros, a casa vivia cheia. Espiral não dava conta e o Flit da época também não. Havia campeonatos de caça a pernilongos.

Minhoca eu preservava ao máximo. Eram a nossa – minha e do meu pai – isca para pescar aos domingos na represa.

Aranhas me apavoravam. Até hoje. Sejam do tamanho que forem.

Barata tiro de letra. Sou boa em matar baratas. Não grito, não subo em mesas nem peço ajuda. Como um anjo exterminador não deixo uma viva. Em casa, na rua eu perdôo.

Formiga não gosto mas é pequena demais pra eu ligar.

Tínhamos tudo isso em casa, mais uma tartaruga chamada Raquel que eu nunca fui com a cara, até que ela fugiu. Juro que é verdade.

Esses foram meus bichos. Aquilo que hoje se chamam Pets só fui ter depois de mãe.

E hoje, em apartamento dedetizado, não tenho nada. Uma traça ou outra que veio de mudança com os livros e olhe lá.

E dois humanos.

Que pobreza biológica!