espírito de porco

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Fui muito chamada disso. Não sei a origem mas sabia que não era coisa boa.

Entendia que era porque eu tendia a fazer o contrário do que me pediam. Mas aí, devo esclarecer, não era exatamente o que me pediam. Era o que mandavam fazer, sempre começando com uma avaliação crítica sobre a minha pessoa, tipo: “já que você é tão vagabunda, agora vai varrer toda a calçada a semana inteira”, ou “pra quem foi tão mal na escola, não pode reclamar, vai comer feijão, sim”e por aí afora. Hoje me pergunto se eram pedidos ou punições, mas hoje, como há sessenta anos atrás, se vierem me pedir alguma coisa começando desse jeito eu não faço. Com o maior prazer.

Assim, quando leio nas redes sociais avaliações políticas e/ou comentários geralmente sobre política começando desse jeito: “pra vocês, coxinhas, que pediram, agora engulam”e coisas tão gentis assim, me pergunto se a real intenção de quem faz semelhantes comentários é trazer para o seu lado opiniões divergentes, politizar ou conscientizar. Sei não. Me faz lembrar de mim mesma, sendo chamada de espírito de porco.

O ser humano gosta de elogios. Sinceros ou não. E desgosta de críticas. Justas ou não.

Até aí chegamos todos, certo? E, se for levar a sério as intenções de “politização” nas redes, de todos os lados (pois todos parecem querer convencer, de todas as maneiras, o outro lado) como começar nossos embates dessa forma?

Minha mãe, quando mais calma, argumentava com o cansaço dela fazendo tudo, de ninguém ajudando, etc, etc. Aí eu tendia a fazer alguma coisa. Não muito, que não estou aqui pra tirar o meu da reta, que eu era bem folgada, sim, mas fazia. Percebia que era real o que ela dizia.

Nunca, porém, ao ser tratada como espírito de porco. Aí eu assumia a “suinidade” seja lá o que isso for.

Não defendo os falsos elogios nem a falta de críticas. Ao contrário. Só gostaria de não ver tanta gente sendo xingada quando o que se quer é ganhar pessoas para uma idéia. Não na base do “eu não disse?”comemorativo das desgraças alheias. A desgraça nunca é para um grupo só. Queiramos ou não, estamos no mesmo barco.

Afundando.