sonhos de ano novo

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Cópia de Casa de troncos 001

Sabe aquela história de “de perto ninguém é normal?” Pois é, às vezes eu fico assustada. Começo a ser notada mais ao longe…

Eu já devo ter contado aqui que nas minhas noites de insônia eu fico me imaginando construindo uma cabana numa ilha deserta. Daquelas de toras de madeira, que dão um trabalhão pra construir, ainda mais que eu sou ruim de serra elétrica, na tal ilha nem tem eletricidade e no manejo do serrote eu deixo muito a desejar…bom, mas dá tanto trabalho construir sozinha a tal cabana que muito antes do fim eu já dormi. Nem a insônia resiste a isso.

Também gosto muito de decoração embora não seja daquelas que muda a casa a cada temporada. Não sou nem mesmo como a minha mãe, que na falta de grana e no muito que queria mudar a decoração da casa, trocava os móveis todos de lugar a cada tanto. Devo a essa mania as cicatrizes nas canelas que guardo até hoje. As coisas, principalmente à noite, nunca estavam onde deviam estar.

Mas gosto de mudar. Nesses inícios de ano fico olhando ao longe, perdida no que posso alterar. Roupa vario bastante. Compro sempre em brechós, então não me dói no bolso nem na alma me desfazer das coisas e colocar novas – pelo menos para mim – no lugar.

Natal a gente ganha presentes. Meu aniversário é colado, então eu ganho mais. Alguns eu peço, outros são surpresa, mas na minha idade sou difícil de ser surpreendida. Meu quarto hoje já ostenta um lindo ventilador de teto que ganhei. Prova de amor do maridão friorento que, apesar do ar condicionado, acedeu às minhas súplicas e deu o ventilador. Ele se cobre até as orelhas e eu fico lá, felizona debaixo do vento…

Mas o que eu queria mudar, mesmo, é a paisagem deste país. Menos miséria, menos discrepância, menos intolerância, menos ignorância.

Porque às vezes me pego sonhando acordada com a tal cabana na ilha deserta. E não é para tentar dormir, não.

 

quem será Marília Mendonça?

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Hoje a FSP publicou um caderno sobre música muito interessante. Com uma listagem das mais tocadas.

Não conheço nenhuma de ouvir. Uns dois ou três conheço o nome e olhe lá.

No entanto, sou uma pessoa que gosta muito de música. Em minha casa todos gostavam. A gente era de classe média baixa, o que nunca nos impediu de ter em casa piano, violino, acordeão, violão. Meus irmãos estudaram música, um por gosto e outro por mandonismo paterno. Mas gostavam muito.

Minha avó cantarolava sem parar Tito Schipa, e canções napolitanas em geral. Meu pai se acabava de assobiar os clássicos do cinema e minha mãe..bom, minha mãe entrava muda e saía calada no quesito música, mas nunca reclamou.

De adulta, já casada e com filhos, fui estudar percussão. Chegamos, eu e meu marido, a tocar alguns anos em grupos de teatro popular, sempre na percussão, mas a gente dança quase tudo e ouve mais ainda. Já então podíamos ser chamados de classe média média, mas gastamos sempre o que tivemos e o que teríamos em discos, CDs, vinis, o que tocasse, até caixinhas de música, das quais tenho uma coleção.

Aposentada, voltei a estudar na USP, sempre fazendo cursos de música.

Tenho uma biblioteca considerável de música, incluindo biografias, ensaios, estudos etc  sobre o tema.

Mas essa lista da FSP sei não… Não conheço ninguém, nunca ouvi aquelas músicas, não tenho nenhum CD que seja de ninguém que está lá.

Em algum momento desta minha caminhada devo ter perdido alguma coisa.

E, afinal, quem será Marília Mendonça???

 

espírito de porco

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Fui muito chamada disso. Não sei a origem mas sabia que não era coisa boa.

Entendia que era porque eu tendia a fazer o contrário do que me pediam. Mas aí, devo esclarecer, não era exatamente o que me pediam. Era o que mandavam fazer, sempre começando com uma avaliação crítica sobre a minha pessoa, tipo: “já que você é tão vagabunda, agora vai varrer toda a calçada a semana inteira”, ou “pra quem foi tão mal na escola, não pode reclamar, vai comer feijão, sim”e por aí afora. Hoje me pergunto se eram pedidos ou punições, mas hoje, como há sessenta anos atrás, se vierem me pedir alguma coisa começando desse jeito eu não faço. Com o maior prazer.

Assim, quando leio nas redes sociais avaliações políticas e/ou comentários geralmente sobre política começando desse jeito: “pra vocês, coxinhas, que pediram, agora engulam”e coisas tão gentis assim, me pergunto se a real intenção de quem faz semelhantes comentários é trazer para o seu lado opiniões divergentes, politizar ou conscientizar. Sei não. Me faz lembrar de mim mesma, sendo chamada de espírito de porco.

O ser humano gosta de elogios. Sinceros ou não. E desgosta de críticas. Justas ou não.

Até aí chegamos todos, certo? E, se for levar a sério as intenções de “politização” nas redes, de todos os lados (pois todos parecem querer convencer, de todas as maneiras, o outro lado) como começar nossos embates dessa forma?

Minha mãe, quando mais calma, argumentava com o cansaço dela fazendo tudo, de ninguém ajudando, etc, etc. Aí eu tendia a fazer alguma coisa. Não muito, que não estou aqui pra tirar o meu da reta, que eu era bem folgada, sim, mas fazia. Percebia que era real o que ela dizia.

Nunca, porém, ao ser tratada como espírito de porco. Aí eu assumia a “suinidade” seja lá o que isso for.

Não defendo os falsos elogios nem a falta de críticas. Ao contrário. Só gostaria de não ver tanta gente sendo xingada quando o que se quer é ganhar pessoas para uma idéia. Não na base do “eu não disse?”comemorativo das desgraças alheias. A desgraça nunca é para um grupo só. Queiramos ou não, estamos no mesmo barco.

Afundando.