impaciente, eu?

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Ser impaciente para muitos é um defeito. Mas se você pensar bem, bem mesmo, a impaciência em si é mais decorrência do que defeito.

Decorrência da urgência da nossa vida.

Não, não falo de pressa. Falo de urgência mesmo.

A vida é muito curta. Você nasce e quando menos espera já está andando e falando e já estão te cobrando coisas como andar sem cair, não correr, não falar muito nem falar bobagem.

Dali a um pouquinho mais você sai da escola e urge arranjar emprego. Sobreviver. Acumular. Prover. Se sobrar algum, dividir. Você nem sabe direito ainda do que precisa e já tem um monte de gente no cangote dando ordens e prazos. Tem que fazer isso pra ontem, tem que ser assim e assado, olhe a cabeça na lua…

Um poucochinho mais e você se aposenta – se não aconteceu nenhum acidente de percurso que tenha te feito ir desta para alguma outra que nem sei o que é, quanto mais se será melhor- e aí você pensa: é agora!! Agora vou fazer tudo aquilo que não deu tempo, que não pude, que nem experimentei!

Daí você, se tiver alguma condição financeira, tenta.

Mas são tantas coisas…por onde começar?

Você passa noites sem dormir pensando nas tais prioridades, na urgência da vida, nos quefazeres que ainda sobraram, no condomínio, no plano de saúde, no custo de vida e na droga de governo e aí, quando quase chegou a alguma conclusão….

Tudo dói. Respirar dói. Músculos que você não sabia que existiam e muito menos onde ficavam, doem. As coisas fazem crecs e crocs e não, você não acha graça nenhuma quando falam que você é gostosa e crocante.

Aí você percebe que se não tem chefe no cangote tem a senhora aquela da foice. E urge.

E urge. E urge.

E daí vem algum babaca qualquer que te diz pra ser zen, pra levar a vida devagar, pra não ter pressa.

Eu não tenho pressa. Tenho urgências.

Eu não sou impaciente. A vida é que é curta.

 

 

reino animal

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Cansei de ser chamada de espírito de porco.

Não sabia – e não sei – de onde teria vindo isso. Sabia, isso sim, que era ofensivo e ofendida eu ficava, mas minha mãe não parecia se importar com isso. Ou, pensando bem, talvez fosse isso mesmo que ela quisesse.

Enfim, mistérios que morreram com ela.

Porco pra mim é um bicho gostoso. Morto, esquartejado e assado.

Há umas décadas atrás – meu deus, já conto o tempo por décadas e não sei nem mesmo precisar quantas! – conheci o sítio dos pais de um amigo. Eram portugueses e criavam porcos, entre outras coisas. Eu, que relacionava porcos com a ideia antiga de que fossem sujos e comessem restos de qualquer coisa, acabei com todos meus preconceitos na hora. Tomavam banho todo dia, comiam ração toda balanceada, eram enormes, rosados e…simpáticos!

Também já fui chamada de corujinha, pelo meu pai, mas acho que se deve mais à minha dificuldade de enxergar do que à minha capacidade de virar o pescoço pra todo lado, embora ela exista até hoje. Tá bom, hoje o pescoço parece ter vidro moído cada vez que eu viro mas ainda viro. Yeees!!!

Meu marido muito raramente me chama de gatinha. Pelas minhas garras afiadas, suponho, mais que pelos miados manhosos.

No trânsito já me chamaram de vaca, mas isso não vale. Quem não?

Também já disseram da minha língua bifurcada, como as coleguinhas do reino animal. Hoje estou mais mansa, porém. Cobra velha só toma sol.

Já fui sapo de fora sem poder chiar em reuniões, já fui formiga em cobertura de bolo de aniversário e até hoje continuo sendo rato de livraria.

Peixe fora dágua sou sempre que me vejo em lugares muito sofisticados e pinto no lixo em restaurantes populares.

Fico uma fera quando mexem nas minhas coisas e embora disfarce, urro por dentro ao tomar injeção.

Mas espírito de porco, ainda não entendi. Será que é gostoso como o resto do bicho??