cidade

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Dois braços, duas pernas, um nariz, pulmões e rins não fazem um ser humano. Pode somar todos os pedacinhos que temos que ainda assim não teremos um ser humano.

Por que? Porque o ser humano é muito mais do que a simples soma de seus pedaços. Conforme o estado desses pedaços, conforme o alimento que nutre esses pedaços, conforme o ar que respiram estes pedaços, conforme a personalidade que habita o ser que detém esses pedaços, enfim, conforme o que somos e tudo que nos cerca, podemos então ser chamados de seres humanos.

Uma cidade não é muito diferente. Diz-se que uma cidade está doente se o ar que as pessoas respiram nela está contaminado. Diz-se que uma cidade está mal se as pessoas que nela habitam não têm qualidade de vida decente. Diz-se que uma cidade não é hospitaleira se as pessoas que chegam nela não encontram abrigo, emprego, condições de viver com dignidade.

Minha cidade pinta as unhas. Minha cidade canta alto. Mas não consegue mais esconder seus tumores e febres, cada vez mais constantes, suas perebas cada vez mais recorrentes.

Quando você vai ao médico, ela não pergunta o que está bem. Pergunta o que vai mal. Porque é isso que precisa ser cuidado.

Se eu estou com micose nas unhas, não quero manicure que as pinte nem verdugo que decepe meus dedos.

Por que um prefeito teria que ser diferente?

Tenho medo das respostas.

cidades mortas

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Não é de hoje que acho cemitérios lugares calmos. Quando era pequena e acompanhava minha mãe ao túmulo da família, onde ela ia com regularidade limpar, polir, trocar toalhas e fotos ( minha mãe tinha mania de limpeza no mundo dos vivos e no dos mortos), eu ficava brincando por ali. Olhando as estátuas, abrindo portinholas de túmulos, metendo o nariz em toda parte. No nosso túmulo, eu cansava de chamar por uma irmã que tive mas morreu muito antes de eu nascer. Fez-me muita falta, uma irmã.

Bem mais tarde, quando tive filhos, às vezes ia passear e ler no cemitério que havia perto de casa. Um grande jardim, sossegado, cheio de flores e nenhuma estátua.

Depois deixei de me interessar. Não sou religiosa e a ligação que tenho com mortos é a do meu afeto. Sinto muita falta de uns, humanos ou animais, de outros nem lembro. Quando minha mãe morreu, deixei ao encargo de uma prima os cuidados com o túmulo. Eu desejo ser cremada, então não preciso ter onde cair morta. Uma assopradela e voilá! Minhas cinzas se juntarão às infinitas cinzas e dejetos desta cidade.

Mas desde que encontrei uma máquina fotográfica que me acolhe e à minha miopia sem brigas, os cemitérios voltaram a me interessar.

São exemplos de estatuária muito bons. A maioria é tosca e comercial, mas alguns nos revelam muito mais do que o nome do morto. Vê-se que a estátua foi escolhida pra refletir um sentimento, às vezes pra refletir uma condição social, às vezes até mesmo a menção do que possa ter sido a vida do morto em questão.

Mais uma vez, você é capaz de aprender sobre a vida olhando os mortos. Ou melhor, o que os vivos que ficaram sentem em relação à morte. Eu sempre gostei de observar gentes. Passei a gostar de observar as cidades de gentes mortas, também.

Algumas fotos:

 

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