biscoito e escada rolante

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Se alguém tem ou teve, como eu, uma mãe que nunca- eu disse nunca – subiu em uma escada rolante, saberá do que estou falando.

Tá certo que não existiam tantas escadas rolantes naquela época.. Ainda não existiam os shoppings e na loja mais próxima disso na época, o Mappin, a gente ia de um andar ao outro por elevador, com aqueles incríveis ascensoristas recitando tudo que havia em cada andar, sem hesitação e sem – tenho certeza disso- ganhar a mais pela performance.

Mas ela não subia na rolante. Pra mim, no auge da minha infância, aos seis, sete anos, isso era uma tortura. Porque no começo ela também não me deixava subir. Sabe com qual argumento? Se eu não descesse em tempo, a escada rolante ia me achatar, igual biscoito de forno. Eu morria de medo disso.

Aos poucos, porém, ela acabou por me deixar usar a rolante e aí era assim: quando saíamos juntas, ela ia de escada comum e eu subia sozinha na rolante, morrendo de vergonha alheia.

Hoje eu faço como ela. Subo sempre pela escada comum.

Medo de virar biscoito?

Não. Pra gastar calorias e exercitar as pernocas sempre.

Na realidade, por medo de virar pão de queijo, aqueles roliços…

pequenas coisas ridículas

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Vivemos tempos bicudos. Em todos os sentidos.

Em tempos bicudos, há que se buscar segurança.

Tudo bem, dinheiro dá segurança, ou compra; comida e despensa cheia também, como diziam meu pai e minha mãe, contemporâneos de guerras; família para uns, religião para outros, sei lá, um monte de coisas pode dar segurança para um monte de pessoas.

Eu tenho umas coisas estranhas para me dar segurança. Marido e filhos, alguns amigos, casa própria e despensa cheia, que eu sou bem filha dos meus pais, mas existem outras coisas pequenas, dessas que passam despercebidas pela vida e que quando vão embora a gente se sente assim, meio sem chão.

Minha cachorra medrosa, que morreu ano passado. Cheia de medo, mas eu podia ter certeza que quando ela me olhava nos olhos – o que ela fazia sempre – e me percebia mal, viria e se sentaria ao meu lado. Quanta segurança nesse simples ato!

Comer pipoca doce, daquelas cor de rosa. Custa um real. Ou três, agora com a inflação. Um pacotinho daqueles que existem em qualquer boteco, por pior ou mais longe que seja, me alivia.

Não como sempre. Nem todos os dias. Mas só saber que, se eu quiser ele não vai me faltar, me dá um alívio imenso. E será sempre igual, crocante e doce, quase um abraço apertado.

Meu velho robe de sair da cama. Só lembro dele no frio. Tem cheiro de banho, de talco, é peludo, quentinho. Fica me esperando atrás da porta. Fiel.

Cheiro de padaria. Em qualquer lugar do mundo, é sempre igual. Convidativo, repousante como uma velha trilha conhecida.

São coisas pequenas, vejo agora. Baratas. Coisas materiais, menos o olhar da minha cachorra, imaterial e triste. Mas todas passam carinho.

Em tempos bicudos, há que se armar de portos, aqui e ali, mas ir andando, lutando aqui, quebrando o pau ali, pulando obstáculos mas sabendo que a cada tanto pode-se ter um ponto de apoio.

Fala-se muito em coisas espirituais, em ajuda psicológica, em grupos de apoio. São bons. Mas eu gosto de pensar nas minhas pequenas coisas ridículas, que me seguram a cada tanto.  Um pacote de pipoca, um robe, um cheiro.

As pequenas coisas ridículas me fazem a existência menos.

Ridícula.

Em tempos bicudos.

as que vieram antes

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Eles eram bem pobres. Não pobres o suficiente pra passarem fome, mas pobres o suficiente pra não terem sapatos pra ir a escola. Pelo visto não eram os únicos naquela escola, mas ela tinha vergonha e escondia os pés debaixo da saia longa. No recreio não brincava. Ficava ali, escondendo os pés.

Isso até o primário. Depois disso o pai disse : lugar de menina é ajudando a mãe na cozinha. Chega de estudar. A mãe era bastante doente, um câncer indo e vindo. Por sorte, acabou indo e ela morreu bem mais velha, de outra coisa. Mas isso é outra história.

Ela saiu da escola contrafeita. Gostava de estudar.

Logo depois, o pai morre. A mãe, aquela com o câncer indo e voltando, teve que cuidar de tudo. A irmã mais velha foi trabalhar, a menor ainda era bem pequena e os dois do meio se viraram. Ela ficou com a mãe, na cozinha.

Aprendeu a cozinhar bem. Casou cedo. Teve quatro filhos. Uma morreu bem pequena, os outros “vingaram”.

A mais nova, nunca deixou chegar nem perto da cozinha. Filha minha tem que estudar. Pra trabalhar e pagar empregada, se quiser.

Quando o namoradinho da filha entrou na casa pela primeira vez, um longo discurso o esperava.

Nem pense em  casar se ela não acabar de estudar.

Ela estudou. E quando casou, não sabia fazer nem mesmo um cafezinho.

Tudo bem. Café se aprende a fazer. Mas a estudar e ter independência, foi com ela que aprendi a importância.

Minha mãe e minha avó. As que lutaram antes de mim.