piano e graffiti

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graffiti

Havia um piano na sala. Daqueles brilhantes. Fiquei fascinada quando percebi que dentro dele, na barriga, eu podia obter som do mesmo jeito que ao apertar as teclas. Passei a tocar semi-deitada em cima dele, com a tampa aberta, movendo com as mãos as teclas (acho que não se chama assim) de feltro de lá de dentro. Tá certo, devo ter detonado a afinação que já não era lá essas coisas.

Mas depois de pesquisar aquele piano e suas possibilidades, quis deixar uma marca minha. Uma coisa que durasse mais do que minhas brincadeiras. Com a ponta seca do compasso, escrevi meu nome.

Choro e ranger de dentes. A família quando descobriu deu a maior bronca. Mas nunca descobriram a minha forma peculiar de “tocar piano”. Ou seja, ataques à propriedade em sua forma era proibido. Minha mãe passava lustra-móveis toda semana naquele piano, mas era incapaz de tocar um oh suzana pra perceber o que eu fazia com a afinação dele. O piano era um adorno na sala. E como tal devia ser tratado.

Parece que aquele sujeito que hoje é o prefeito desta cidade deve pensar algo assim. Embora nem de longe eu queira comparar meus garranchos de criança com certos trabalhos grafitados nos muros desta cidade. Tem gente que expõe em galerias. Quem pode, por variados motivos, dentre os quais a qualidade é só um deles e, em muitas  galerias, nem mesmo o principal deles.

Outros, com muita qualidade, só têm os muros pra se expressar. E, de quebra, enfeitar uma cidade desumana, poluída e suja. Fazem poesias gráficas, às vezes poesias em palavras mesmo, trabalham com moldes, a mão livre, com spray ou com tintas. Houve um, absolutamente original, que fez arte limpando com paninhos a sujeira de um túnel. Ficou lindo! Foi preso. E não adiantou explicar que ele não estava pintando, mas limpando…

Existem outros bem feios. Mas, como toda expressão artística, tem sempre quem goste. Não deve existir um padrão para as artes. Já basta a gente ter que aguentar padrões de comportamento, estéticos, legalistas, de moda, de nutrição, do diabo a quatro. Padrão não é ruim em si, mas se for em tudo acaba por matar a maior riqueza humana: a diversidade de pensamentos, que é o que nos faz avançar.

Existem uns que ficaram sujos demais, pixados demais, de tal forma que a intenção inicial não dá mais pra se entender. Pintar pra limpar e achar quem refaça é a coisa mais fácil. Porque graffiti é uma forma de arte que não tem idade. Nem gênero. Nem raça.

Não cubram os graffitis! Não tapem a expressão de tanta gente! Sujou? Limpa e pede pra fazer outro. Sem limitar espaços. Porque seria como dizer para os passarinhos só cantarem em certas áreas, por mais que o canto deles incomode certas pessoas. Graffiti é arte de rua. Não é no meu muro, no seu muro, no piano da sua casa, a não ser que você queira.

Minha mãe, por exemplo, não queria rabiscos no nosso piano. Mas estava se lixando para o que eu fazia com a afinação. Certos prefeitos não querem arte na rua, mas estão se lixando para a miséria social, o desemprego, a baixa escolaridade, a saúde. As ruas devem estar limpas. Com lustra-móveis, limpam seu piano toda semana. Nunca tocam. Não sabem que piano serve pra fazer música. Não sabem que rua serve pra andar e sorrir, não pra passar de carro e poluir.