feliz ano novo!

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festa

Ano novo tem o dom de renovar esperanças. Só porque a gente quer, entretanto. Porque calendário, assim como várias outras coisas, pra não dizer quase tudo, é uma invenção humana.

A matemática é uma invenção humana. A filosofia é uma invenção humana. A religião é uma invenção humana.

A superstição também. E o mesmo homem que inventou a matemática, a filosofia e a religião é o homem que gostosamente inventa e acredita em superstição. Em magia. Em elementos que não pode explicar e não obstante crê. E, provavelmente, muitos ainda ficam indignados com isso que acabo de escrever.

Aqui entre nós, o que a cor de uma calcinha feminina tem que poderá mudar o rumo dos acontecimentos e fará você, que ficou desempregado, de repente, tornar-se rico no próximo ano de 2017? Heim? Heim?

E, é claro, por que as coisas sempre são assim: “tornar-se rico”, nunca remediado ou tendo o necessário pra pagar as contas básicas?

Ora, porque se é pra sonhar, vamos sonhar alto, dirão alguns. E, na dúvida – se é que as há – botam calcinhas amarelas. Ou brancas. Ou sei lá a cor adequada para enriquecer….

Por que aqueles religiosos que passam  o resto do ano desfazendo das religiões africanas saem correndo no réveillon pra jogar flores, velas, ou o que for pra Iemanjá?

Meu pai mesmo, um católico não praticante, carregava na carteira o maior resumão sincrético que já vi, para um modesto senhor de classe média: um incenso, um pé de coelho, uma imagem de nossa senhora e um santinho de S. Cipriano. Ficou rico? Evitou problemas? Foi saudável? É claro que não. Eu diria até, muito pelo contrário.

A gente acredita naquilo que quer acreditar e quem sou eu pra contestar as crenças de cada um! Mas que causam espanto, causam. E vão se acumulando com o passar dos anos.

Acho que a desesperança vem acompanhada de perto pelo misticismo. Onde não posso modificar a realidade com minhas ações, tento através da magia.

Mesmo que não resulte em nada. Acho que o fato de tentar já aplaca a necessidade de mudar.

Só não sei como as pessoas administram tantas coisas ao mesmo tempo: cor de calcinhas, cor de roupas, romãs e lentilhas em tudo que é lugar, jogar toda sorte de agentes poluentes no mar em nome de Iemanjá, pular um sem número de ondinhas e ondões, soltar rojões que fazem o terror dos animais e dos meus ouvidos também, que eu sou um animal sensível, e por aí afora.

Eu acredito em desejos. Não que eles se realizem só pela força da minha crença neles, mas em como eu me sinto bem em desejá-los.

Assim, mesmo sabendo que não depende de mim, desejo um bom ano a todo mundo. Desejo meu Corinthians campeão (mais uma vez), meu país menos desigual, minha família feliz e a dos outros também.

Mas a minha calcinha será da cor que sair da gaveta, não ponho os pés no mar em réveillon nem morta, romã e lentilhas só na minha barriga e detesto vestido branco.

 

plvs e ps

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Eu fui ensinada a não falar enquanto os mais velhos estivessem falando. Parece que eles tinham prioridade, não sei bem, ou então a algaravia de vozes tornava difícil a conversa.

O caso é que eu falava demais. Num tempo em que havia boletim nas escolas e notas de aproveitamento e de comportamento, eu sempre tirava as piores notas de comportamento. Não que fizesse alguma besteira naquela época – só fui fazê-las um bocado depois – mas falava demais. Minha mãe foi chamada na escola, a professora reclamou. Minha mãe confirmou que eu falava demais também em casa. Não lembro, evidentemente, mas deve ter rolado um suspiro resignado das duas. Muitas vezes eu ouvi esse suspiro da minha mãe.

Daí começaram a me cercear. Só podia falar se alguém falasse comigo, não podia me intrometer em conversa de adultos, não devia distrair as coleguinhas de classe, essas coisas.

Deve ter funcionado essa repressão toda. Passei a falar pouco. Até fazer terapia e soltar a franga, mas isso é outra história.

Se falar demais era tido como falta de educação, escrever bobagens, então, era pior ainda. O papel aceita tudo, é certo, mas a palavra escrita tem força. E alcance.

Por conta de palavras escritas e não assinadas, o clima lá em casa piorou muito entre meu pai e minha mãe. Por conta de palavras escritas e essas sim, assinadas, meu pai perdeu o emprego. Por conta de palavras escritas, rimadas e apaixonadas, eu me apaixonei também. Mas não só por isso, é claro, que só isso não daria conta das décadas e décadas que estamos juntos.

A palavra tem poder. Eu acredito nisso.

Por isso me espanto muito com o que tem de bobagem nas redes sociais da vida. Porque se ao falar a gente é rápido e às vezes nem pensa direito antes (no meu tempo de tagarela nem dava tempo de pensar antes) já escrevendo dá tempo de pensar. De rever e reler.

A naum ser q a gt escreva dp jto que hj se escrv.

Aí não precisa nem pensar.

Nem assinar.

De repente me vejo suspirando com aquele suspiro da minha mãe…

 

PS: apesar de não ser religiosa, gosto de natal. No que ele tem de congraçamento, de tentativas sempre renovadas de sermos pessoas melhores, no que ele tem de união entre pessoas. Então é isso: um felicíssimo natal pra quem é de natal. Que ninguém se sinta só.

 

 

caminhantes, não há caminhos

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Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar.      

Antonio Machado

Fala-se em divisão. Em discursos de ódio nas redes sociais. Em linchamentos virtuais e até reais.

Fala-se em lutar pelo fim da corrupção.

Quem não quer o fim da corrupção? Não conheço ninguém que a defenda ou mesmo que a releve. Hoje todos parecem ser contra a corrupção desde criancinhas.

Não acho que a divisão por si só seja um mal. Afinal, corintiana que sou e isso sim, desde criancinha, nunca me incomodei com outros times e sua existência. Atéia que sou desde muito tempo, nunca me incomodei nem quis abolir a religião de ninguém, mesmo quando professava – e é essa a palavra mesmo – o marxismo leninismo. O Estado tem que ser laico, não as pessoas, embora acho que seria melhor que elas fossem. Mas é pessoal a escolha.

Agora ver esses discursos de “quem é brasileiro vai em tal ou qual protesto”, ou “quem é contra a corrupção tem que fazer isto ou aquilo”é de doer.

Política é, acima de tudo, um modo de agir frente aos acontecimentos da vida. É fazer escolhas, o que implica em diversidade de opiniões e de caminhos. Se soubéssemos de antemão o correto, nada mais haveria a fazer. Só seguir em frente, rotineiramente. Mas existem as nuances. Existem os fins e os meios. Existem as companhias. Existem as formas de se chegar a isto ou aquilo.

Eu quero chegar naquilo que acredito com as mãos limpas. Dormindo em paz. Respondendo pelos meus atos. Aceitando meus erros.

Se as pessoas seguem estes ou aqueles caminhos, quero estar com estas ou aquelas pessoas. E buscar sempre.

Batam panelas, se assim o desejarem. Batam palmas para quem for de palmas e apupos para quem for de apupos. Sabendo que quem é apupado hoje pode ser aplaudido amanhã. Uma certeza, dentre as poucas que se tem, é que os rios correm. E a água que passa aqui hoje não é a mesma que passou aqui ontem e bla,bla,bla, mas é fato.

Não acho que todo mundo deva se unir em todas as lutas da mesma forma. Se assim fosse não haveria partidos políticos, nem times, nem religiões, nem tango nem samba.

Existe tudo isso. E gente que gosta e apóia tudo isso junto, alguma coisa em particular ou mesmo nada. Livre arbítrio é bom e eu adoro.

Menos manada. Menos pensamentos únicos. Mais leitura e humildade.

Será que é desejar muito ou será talvez pedir pouco?