corrupçãozinha

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Uma tosse que não parava. Nem podia ir pra aula, que ficava chateada de chamar a atenção dos outros e de fazer barulho. Tosse é fogo.

Solução: farmacêutico vir em casa e dar injeção não sei do quê. Eu só sabia mesmo que era injeção.

Eu sabia que era ele. Eu conhecia o farmacêutico do bairro. Eu sabia o que ele vinha fazer. Eu morava em casa térrea que não tinha campainha e era eu quem gostava de atender quem batia palmas no portão baixinho.

Me tranquei no quarto. Fechada a chave eu sabia que não tinha como entrar, só arrombando e minha mãe era muito ciosa da casa dela pra permitir isso.

A princípio só o farmacêutico e minha mãe do lado de fora. Batendo na porta. Depois juntaram-se a eles meu irmão do meio e minha avó. A coisa estava virando multidão, ali no corredor.

Até que o farmacêutico, conhecedor das manhas infantis e, pelo que hoje sei, das manhas infantis femininas em especial, me prometeu vários vidrinhos daqueles de injeção, pequenininhos, bons pra brincar, e a própria ampola de injeção, que na época não era descartável.

Todo homem tem seu preço, não é o que dizem os mais cínicos?

Toda menininha também.

mudando de canal

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Li num comentário nas redes sociais que o buliyng é filho do ócio, dando a entender que ele existe hoje por falta do que fazer nas escolas. Era um comentário argentino, mas já vi a mesma opinião por aqui. Faz parte do pacote “antigamente não tinha nada disso”.

Em primeiro lugar, nossas memórias são seletivas. Até por proteção a gente costuma apagar dela coisas que nos são penosas. Outras vezes, esquecemos ou fingimos esquecer por comodismo.

Ainda outras, com o decorrer do tempo e a idade aumentando, a gente esquece sem segundas intenções, conscientes ou inconscientes. Simplesmente esquece e isso faz parte.

O que quero dizer com isso é que não se pode confiar inteiramente em nossas memórias como verdades. Não são nem mesmo as nossas verdades.

Eu esqueço um monte de coisas. E finjo que esqueci outras tantas quando me interessa. De repente, posso esquecer como cozinhar num dia de almoço para muitos, ou esquecer de devolver um livro que tenha gostado demais para quem me emprestou…Fora as coisas que esqueço mesmo e essas nem chego a lembrar que esqueci. São apagadas como em filme de ficção.

Mas lembro de bulliyng sim. Comecei a usar óculos com 10 anos de idade, já lá vai mais de meio século. E fui chamada de quatro olhos sim, inclusive por membros da família. Tanto incomodou que durante muito tempo me envergonhei de usá-los e só o fazia em último caso. Já tomei muito ônibus errado, já copiei da lousa muitas equações absurdas, embora minhas dificuldades com matemática não se devam a isso, tenho que admitir.

Era magra demais. Então fui varapau, esqueleto, graveto, e outros termos que esqueci. Viram? Foi melhor ter esquecido…

Antigamente não era melhor do que hoje. Mas olhando pra trás a gente acha que sim. Porque a gente parecia saber lidar melhor com certas situações que hoje, bem mais velhos, nos assustam. O número de carros, o jeito de atravessar as ruas, as atividades do dia a dia, a tecnologia. Mas acredito ser só impressão. É claro que quem nasceu na era do computador e celular, acha isso muito natural e eu não. Em compensação, gestei e pari dois filhos, cozinho minha comida, passo minha roupa, tudo com bastante facilidade. E bordo, e tricoto e chocheteio. Aprendi tudo isso numa época em que as meninas aprendiam tudo isso.

Minha avó ficava olhando pra televisão impressionadíssima. Eu também, hoje, mas por motivos diversos. Ela se encantava com a tecnologia, mas nunca mudou um canal. Muito difícil, segundo dizia.

Mas nunca a ouvi falando dos seus tempos como melhores. Tinha duas guerras como bagagem e mesmo que quisesse, não conseguia esquecê-las.

Eu também tenho más lembranças que ficam atazanando, impossíveis de serem esquecidas. Mas fazem parte. Testemunhos do passado que afinal construiu o presente.

Tinha buliyng sim. E muita violência. E muita doença que hoje nem faz cócegas, era fatal na época.

Eu já nem sei muito bem “mudar de canal”. É difícil, como dizia minha avó.

Mas também me entusiasmo com as possibilidades.

o que tem debaixo da cama?

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Bicho papão não tem. Não porque eu não fosse aterrorizada pelos adultos com esta nefasta figura, mas como nunca ninguém me mostrou uma fotografia, um desenho, um indício que fosse da presença dele, nunca acreditei. Sabe aquela história do “não entendeu, quer que eu desenhe? “pois é, sou eu. Eu sempre quero que alguém desenhe.

Os desenhos do Doré da Divina Comédia chegaram bem perto. Tinha lá em casa e eu folheava por conta dos desenhos. Ah, quantos pesadelos não renderam!!

Mas não eram chamados de bicho-papão.

Debaixo da cama, pelo menos de uma tia que morava no interior – meu deus, naquela época a gente achava Franco da Rocha interior! – havia um penico. Esse era sim, um bicho papão. Nunca acertei fazer qualquer coisa naquele lugar fedido e mal equilibrado. E o medo de cair sentada? Eu quase preferia ir ao banheiro lá fora na casa. O problema é que o banheiro lá fora era um buraco cimentado numa casinha escura. O que vale é que a tia era um encanto de pessoa. Mas a infra deixava muito a desejar.

Em compensação se debaixo da minha cama não tinha nada, nem mesmo poeira, não fosse D. Antonieta a maníaca por limpeza que era,  havia outros medos. Nada de escuro, que nunca liguei, nem os avisos xenofóbicos da família contra as ciganas que vinham vender correntinhas de ouro no portão e, segundo a família, se eu não tivesse cuidado, me levariam para vender junto.

Eu não devia ser artigo com saída, nunca ligaram pra mim.

O que pegava mesmo, era o colégio interno.

A ameaça era de ser mandada pra lá ( nunca entendi onde seria o “lá”) e só voltar aos dezoito anos.

E “lá”, seja lá onde isso fosse, ser tratada aos trancos e barrancos, esfregar chão, paredes e o que mais houvesse. Isso eu entendia. Tinha lido Dickens. E Raul Pompéia. E vários Dumas pai.

Por isso, por gostar de ler, os medos foram muitos. E a família contribuía gostosamente pra aumentar minha tortura. A cada travessura, ameaças.

Nem por isso acho que ler é prejudicial. Aumenta o universo dos medos – que o diga Freud – das atribulações – Nelson Rodrigues sabia das coisas – das possibilidades aterrorizantes de apocalipse total, mas se não fosse isso, como seria a vida?

Ter que se contentar com bicho-papão?

Hoje porém, acredito ter encontrado um bicho-papão. Dois, pra falar a verdade.

Efeito T. Temer e Trump.

Prefiro colégio interno, seja lá onde for.

 

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