óculos e modernidade

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oculos-roxoDizem que a filosofia ensina a pensar.

Dizem que a religião ensina a pensar no imaterial.

Dizem que o estudo organiza o pensamento.

Dizem que a vida ensina a tolerar.

Bom, dizem, dizem, dizem isto e aquilo, mas também, sempre se desdizem. Por isso é que o cara que disse que a única coisa que sabia, de certeza mesmo, é que nada sabia, tinha muita chance de estar certo.

A que vem essa digressão de boteco?

Fui mandar fazer óculos. Já que tenho de usá-los, uma vez que lente de contato, desde que me deu uma deformação de córnea, nunca mais quis usar, tenho que trocar óculos a cada tanto.

Tá bom, troco mais do que devia, porque ninguém é de ferro e eu gosto de variar.

Fui trocar óculos. Trouxe um modelito da França que tem tudo pra me agradar: ou seja, é roxo. E não é de plástico.

Bom, chegando lá a moça me diz que eu sou bastante tradicional. Que me mantenho fiel a marca e coisa e tal.

E ela me diz isso portando o mesmo modelo que meu pai usava nos anos 50. Grande, de aros escuros, quadradão.

Minha filha, tradicional é você, usando a mesma coisa que meus pais usavam quando eu nasci.

Eu sou mais é moderna. Óculos de metal com pintura eletrostática, artesanal, quase um fogão na minha cara. Dos de seis bocas.

A moda muda a cada tanto. A indústria faz com que mude, senão ninguém trocava nada, Afinal, óculos e fogão duram bastante. Mas a gente tenta seguir a moda.

No meu caso, tento seguir a moda do roxo, que eu devo ter uma tara qualquer por semana santa, embora atéia. Adoro as coisas todas cobertas de roxo.

Então tá, moça dos óculos dos meus pais, sou tradicional e conservadora em relação a cores, então vamos combinar assim, você me cobra o preço de antigamente e eu não comento nada sobre teus óculos de priscas eras, tá combinado?

Não colou. Essas moças são muito inflexíveis. Ou meu papo pra pedir desconto é muito antigo.

França

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Conhecer um novo país demanda algumas disposições e predisposições.

Você tem que ter disposição de tentar, de se abrir, de ter trabalho e dificuldades.

E você tem que estar predisposto a, sobretudo, aceitar o que vem pela frente sem julgar.

Afinal, você está lá pra conhecer e isso significa estranhar, a princípio, depois tentar entender e só muito depois, julgar e/ou comparar com coisas já vistas e conhecidas.

Posto isso, tão democrático e bonito, vamos às coisas que eu vi e conheci na França e estranhei, tentei entender, fiz bastante esforço e depois…voilá! vamos fazer aquela listinha simplificada das dez coisas mais esquisitas que comi, fiz ou vi, tá legal?

1.Espaços: não é só um problema da França. A Europa, principalmente em se tratando dos seus centros históricos, é pequena. E vamos combinar que tendo nascido no Brasil, a gente tem mania de grandeza. Aqui é tudo grande demais, longe demais, espaçoso demais. Lá tudo é reduzido. Dá pra bater Paris a pé, em boa parte dos trajetos turísticos e o resto fazer em metrô, porque, sim, eles têm metrô há muuuito tempo, funciona legal, cobre a cidade toda e ainda um pouco mais. Inveja.Mas Paris, além de pequena, é baixinha. Cinco andares, em média. Sem elevador, em média. Vocë acostuma, depois de algum tempo, a subir escadas. Mas ficar num apartamento no quinto andar e ter mais de sessenta te faz refletir bastante toda vez que está lá em cima e esqueceu de comprar comida, por exemplo, se não vale a pena fazer seu dia de faquir e economizar descidas e subidas…

  1. Se tudo é pequeno, não há motivo nenhum para o box do banheiro ser grande. Melhor não deixar o sabonete cair, mas, se ele cair, aprenda a usar os músculos das coxas e desça e suba na vertical. E quanto a lavar o cabelo ( coisa que percebi que não fazem lá com tanta frequência), aprenda a fazê-lo com os cotovelos em ângulo de 45 graus. Na diagonal do quadrado do box, porque de outra forma a coisa não anda.
  2. Paris tem muitos mistérios. No resto da França menos. As pessoas de Paris são magras. Muito magras. Pelos nossos padrões atuais, eu diria quase anoréxicas. Eu ficava olhando o que e quanto elas comiam e nunca atinei com a solução desse mistério. Porque elas comem bastante, tudo tem muito molho, o melhor dos molhos, por sinal, tudo tem muita e deliciosa gordura e os doces são os melhores que já comi na vida. Como não engordam? Só se for o arroz. Não vi ninguém comendo arroz. É isso, só pode ser. Ou o vinho, que ainda ganha estourado da cerveja no consumo.
  3. Os franceses não são grosseiros, preconceito disseminado por aqui. São gentis e atenciosos. É claro que facilita você pelo menos tentar falar em francês, mas se não, vá de inglês. Eles estão perfeitamente acostumados com turistas e não paparicam mas também não perturbam, de jeito nenhum. Agora, vi muitas mães aos berros com seus próprios filhos. E bote berros nisso! Talvez as crianças francesas sejam sapecas mais do que o normal ou suas mamães magrelas mais estressadas do que o normal. Mistério…
  4. A França está – e tem razões para isso – bastante tensa com os últimos ataques. O que tem de milico nas ruas não foi fácil. E de metralhadora nas mãos. Fui revistada mais de uma vez, em lugares até vazios, e ficava bem nervosa com as metralhadoras nas mãos deles. Mas felizmente não são como os nossos. Espero.
  5. Paris adora comer nas calçadas. Um pouco Vila Madalena, sabe? As pombas também. E fica aquele congraçamento todo entre pessoas e pombas, pombas e pessoas. Me desculpem, mas eu sou daquelas que não aguenta isso. Daí você descobre que entrar pra comer nos restaurantes te faz demorar mais pra ser atendido e morrer de calor. Minha desforra foi presenciar pombas cagando em mesas ocupadas. Confesso que sou rancorosa, fazer o quê?
  6. Em Paris e em todas as outras cidades que fui, descobri contrafeita que ser velha não te dá nenhuma colher de chá. Ninguém cede lugar no metrô (mesmo aqueles destinados à terceira idade), não tem colher de chá nas filas nem em qualquer outro lugar. Mesmo em apartamentos que alugávamos, que ficavam sempre do terceiro andar em diante, sem elevador, é claro, ninguém nunca se ofereceu pra segurar minha mala. Doeu. No coração e na lombar.
  7. Se é mentira que francês é grosso, é verdade que em metrô cheio o ar fica pesado. Mas hoje, pensando melhor nas dificuldades pra se tomar banho em mini boxes, chego a ficar mais solidária. E também, ninguém aguenta subir e descer tantas escadas sem suar a camisa, né não? Daí também entendi esses desodorantes que prometem 24, 48 e já vi até de 72 hs!! E também vi umas toalhinhas que não entendia pra que serviam e depois me explicaram que era para o banho. Como assim?
  8. Paris é cara. Pra nós estupidamente cara. Eu que sou adepta de brechós – que lá chamam-se friperies- nem mesmo neles achava preços atraentes. Consegui voltar de Paris tendo comprado 3 brincos. Minimalismo puro. E euro lá em cima.
  9. E finalmente, Paris e a França em geral é linda. Um pouco Joãozinho trinta, cheia de barroco, de dourados, de rococós, mas é linda, sem dúvida. Preferi as cidades medievais, como sempre prefiro, mas Paris é linda e gostosa. Cheia de charme, de caras e bocas, mas acolhedora.

E Avignon, de todas que conhecemos, meu xodó. Picasso tinha razão. As demoiselles de Avignon são tudo!!

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