já ouvi esse papo…

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Não sei o que aconteceu com as roupas.

Quando eu era pequena, minha mãe costumava virar ao contrário as golas das camisas do meu pai e os punhos, quando ficavam puídos.

Duvido que muita gente saiba hoje o que quer dizer “puído”. Hoje não dá tempo de nada ficar puído.

Ando pelas ruas aqui do centro e vejo, jogados pelas calçadas, cobertores, jaquetas, sapatos, roupas. São de sem teto que deixam por aí ou perdem. Roupa é coisa fácil de achar para doação por aqui. Eu mesma costumo deixar numa igreja aqui perto uma sacola todo mês.

Ou a gente era muito pobre – acho que éramos- ou os hábitos mudaram. Mas aquela coisa de reaproveitar e usar uma roupa até puir hoje parece não existir mais, quer a pessoa seja pobre ou não.

Sapatos. Eu, pessoalmente, ganhava um par por ano. Geralmente marrom, que era a cor dos sapatos da escola. Mas eu herdava de cunhada, de primas. Até meu pé ficar tão grande que eu só seria capaz de herdar do meu pai, mas aí quem não queria era eu. Gosto de androginia, mas na época não.

Então, quando o sapato furava, era um tal de recortar papelão e botar na sola por dentro, costurar alguma sola com linha comum mesmo e meu irmão, jogador de vôlei, costumava usar esparadrapo pra evitar o efeito “boca aberta “nos tênis. A gente se virava. E tem também uma coisa que nunca mais vi, que era cortar a parte de trás dos sapatos para ainda usá-los mais uns anos para lavar quintal. Transformar em chinelo o que nasceu sapato.

Hoje não vejo mais isso. Sapateiro mesmo é profissão em extinção. Ninguém conserta, joga fora.

Panelas e louças duravam a vida inteira. Não disse que duravam intactas. Disse que duravam uma vida, fosse do jeito que fosse. As panelas lá de casa tinham cabos improvisados de madeira, eram desentortadas com martelo e tampa era qualquer coisa que tampasse. Louças duravam. Se eu quebrasse – e como eu quebrava- qualquer copo que fosse, o mundo vinha abaixo. Pra vocês terem uma ideia, minhas taças de champanhe, as seis de uma dúzia, foram do casamento da minha mãe. Década de 30 do século passado.

Tenho a impressão que as outras seis que completariam a dúzia eu mesma devo ter quebrado nesse meu jeito rápido, porém não eficiente de lavar louça.

O mundo muda. Melhor dizendo, dá voltas. E não falo da rotação da terra.

Hoje está em voga o politicamente correto, o ecologicamente certo, a vida saudável, o reaproveitamento. Os recursos são escassos, é o que se diz.

São. Minha mãe quando remendava roupas já sabia.

Os nossos, então, eram escassíssimos. Menos na fartura da biblioteca e dos esforços para estudar, o que seria, segundo meu pai, a única coisa capaz de nos tirar da lama.

De fato, foi. E agora tenho que ler em toda parte que a gente deve remendar, reutilizar, reaproveitar.

Está bom. Eu faço sem problemas.

No meu caso, vem do berço.

 

 

olímpiada e sorte

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Eu entendo mais ou menos como devia ser a vida de nossos ancestrais. Aqueles bem ancestrais mesmo, de caçar com pedras e comer cru, na falta do conhecimento do fogo.

Devia ser bem duro. Sobreviviam os melhores. Os mais fortes. Os mais rápidos. Os mais sortudos em acharem boas pedras e sábios pra saberem o que fazer com elas na hora do aperto.

Enfim, os primeiros lugares.

O mundo mudou. Em algumas coisas bem pouco. Mas de maneira geral, mudou.

Hoje, eu que só sei fazer fogo virando o botão do fogão, que corro muito pouco e mesmo assim só na esteira, que não como cru carne nenhuma e não me venham com o papo de que sushi, sashimi e o escambau são deliciosos, enfim, euzinha que não sou primeiro lugar em nada, sobrevivo bem e, ouso dizer, sou bastante feliz.

Eu não preciso saber essas coisas, entendem? Não preciso ser a melhor em nada. Basta  ser. Ser da melhor forma – aí sim – que eu conseguir ser. E, na  minha concepção, ser de uma forma que não atrapalhe a vida de ninguém. Só isso já basta pra me fazer bastante feliz.

Então pra mim fica bastante complicado entender olímpiada. Apesar de adorar assistir.

Fico confrangida com as pessoas que se machucam, que saem chorando, que fazem cara de dor. Fico estarrecida com a plateia que vaia gente fazendo coisas que ninguém ali da plateia consegue fazer nem em sonhos. Como assim?

Por que cargas d’água ser o primeiro?

Será mesmo que o homem precisa estar sempre competindo pra se sentir estimulado? Será isso uma característica atávica, como fazer a corte de um certo jeito, como comer carne assada no fogo (aquele churrasco no qual eu não vejo a menor graça),  e outras coisas que a gente se percebe fazendo desde tempos imemoriais?

Sei não. Já é tão, mas tão bonito as coisas que a gente vê esses atletas fazendo, que a medalha não vem ao caso. A gente esquece no mês seguinte. Mas o espetáculo fica, qual um filme que a gente nunca esquece.

Sei não, ainda bem que eu não preciso competir com nada nem ninguém pra me sentir estimulada.

Embora eu tenha metas. De ser boa em algumas coisas.

Acho que é isso. Ser boa. Não ser a melhor.

Mais ou menos como achar uma pedrinha enquanto bate os pés num regato e atirar em seguida, pra ver pipocar na água e acertar num peixe legal. Daí, enquanto toma sol, o sol bater na lente do óculos ( uma vantagem dos míopes) e atear fogo num mato seco perto do peixe e virar um bom peixe assado. E por sorte isso tudo estar ao lado de umas frutinhas que podem perfeitamente servir de sobremesa…

Bom, é isso. Não quero ser a melhor.

Quero mais é ser sortuda.

Boa sorte pra todos!