instrumentos, crianças e brincos

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Acabo de ler uma reclamação dolorida do Abujamra de que roubaram instrumentos musicais dele. Espero que alguém ache, mas entendo perfeitamente o que ele sentiu.

Já passei por muitos e variados tipos de assalto e roubo. Aliás, esse foi um dos motivos pra ter vindo morar no “ar”, eu que nasci e sempre morei bem pertinho da terra, onde eu pudesse plantar e pisar.

Mas divago.

Contava de assaltos. Houve um deles em que levaram os bichos de pelúcia e bonecas da minha filha, criança. Foi muito duro, tal como os instrumentos do Abu, tinham sido ganhas e escolhidas com carinho. Não eram raras, que boneca e bicho de pelúcia não tem como ser rara, comprada por família de classe média. Mas foram escolhidas numa certa época. Depois não dá pra repor igual.

Doeu muito nela e muito em nós, vendo a dor dela. Mas de certa forma me acalmei, ao pensar que o ladrão talvez tivesse filhos crianças também, e que, afinal, alguma outra criança ia ser feliz com aqueles brinquedos.

Já eu colecionava – ainda coleciono – brincos.

Por que colecionar brincos, coisa tão trivial? Porque pra mim brincos são difíceis de achar.

Não tenho furo na orelha. Nem pretendo ter. Minha orelha intacta é motivo de orgulho e de estima da minha parte. Chegou até, segundo me contaram, a dar briga entre minha mãe e meu pai, uma querendo furar logo ao nascer, outro ameaçando briga se isso fosse feito. Meu pai ganhou e minha orelha está lá, ou melhor, aqui, inteirinha e bonitinha, sem furo.

Mas isso me traz alguns problemas na hora de escolher brinco. Os de pressão doem depois de algum tempo. Você se percebe de mau humor, com vontade de morder as pessoas ao redor e só aí percebe que é a dor provocada na orelha, constante qual tortura.

Existem os imantados. Funciona como imã de geladeira, só que uma vez que minha orelha é fria mas não é geladeira, tem que ter um imã de um lado e outro do lóbulo. Deliciosos, desde que você não encoste o rosto em ninguém nem penteie os cabelos. Não servem.

E existem os antigos, bem antigos, que eram feitos com uma espécie de tarracha, de enrosque. São ótimos e são os que mais tenho e uso. No Brasil só encontro mesmo em feirinhas de antiguidades, uma vez que, apesar do mecanismo existir a venda, ninguém se interessa por ele porque só uma minoria não tem furo. Na orelha.

São mais caros, são bem raros. Eu costumava tê-los todos numa caixinha de metal. Nenhum de ouro, é preciso que se diga. Não uso ouro. Só bijoux.

E não é que um ladrão desalmado invade minha casa e leva todos eles? Anos de coleção, de garimpo, de busca desenfreada.

Doeu.

Eu te entendo, Abu. E olhe que os brincos nunca tiveram nada a ver com minha profissão, que é de manter a orelha atenta, não necessariamente com brinco.

Espero que você ache teus instrumentos. Meus brincos nunca mais achei.

strega nonna

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Talvez meu mal-estar em relação a médicos venha da falta de contato com eles. Eram caros. Na minha infância, absolutamente raros.

Não que não fossem necessários. Hoje, pensando na coisa, penso que minha avó, meu pai e minha mãe talvez tivessem vivido mais e melhor se tivessem ido mais ao médico.

Mas como?

Na falta de grana, os conhecimentos médicos, quer tenham sido eles meras superstições, quer tenham   sido aquele tipo de conhecimento passado via oral pelos mais velhos e que depois se mostraram verdadeiros, era tudo que tínhamos.

Minha avó, por exemplo, era a médica, a psicóloga, a curandeira e a pesquisadora de casa.

Ela mesma tinha a saúde bastante precária, mas, estranhamente, sobreviveu a uma cirurgia de câncer intestinal e só foi morrer muito, muito tempo depois, de derrame.

Mas ela tinha outras coisas: artrite deformante, o que lhe rendeu mãos eternamente fechadas e dedos tortos, que, porém, jamais a impediram de nos fazer carinhos, massagens, e crochê diariamente. E calcanhares rachados, às vezes, até sangrar.

Os calcanhares ela fazia o seguinte: usava sempre meias de lã, mesmo com chinelos, e à noite, para dormir, quando eles ameaçavam sangrar de tantas rachaduras, amassava alguns tomates bem maduros e passava essa pasta neles, deixando lá e dormindo de meias. No dia seguinte tinham melhorado muito. Ainda outro dia li que isso, efetivamente, faz bem. Um hidratante cheio de vitaminas cicatrizantes, quem diria!

Minhas dores de cabeça. Era assim: toda vez que eu saía de ônibus, voltava com muita dor de cabeça. Ela diagnosticava como “mau-olhado” e me dava algum chá, de cidreira, camomila, hortelã ou alguma outra coisa. Passava. Só muitos anos mais tarde, já adulta, é que descobri minha alergia a cheiro de diesel. Houve um tempo em que não podia entrar no ônibus que já me vinham ânsias. Não podia nem mesmo passar em frente das antigas indústrias Matarazzo, onde hoje é o Memorial, que aquele cheiro de óleo me nauseava e me fazia descer imediatamente do ônibus. Às vezes nem dava tempo de descer.

De fato, a ingestão de algum líquido e me aquietar, longe do agente causador do mal-estar, até hoje resolve.

Mas a explicação da avó, de que uma menina, assim tão “bonitinha, levava a muita inveja e mau-olhado” era sem dúvida, mais interessante.

Já não posso dizer o mesmo dos conhecimentos odontológicos. Ter passado álcool em meus dentes, para aplacar a dor, fez-me perder alguns em tempo recorde. Para minha sorte, existem os implantes hoje, mas bem que eu podia ter ficado sem isso. Ou sem eles. Enfim…De qualquer forma, só o conhecimento foi capaz de mostrar que sim, muita coisa que os antigos diziam tinha fundamento e outras não. Algumas, como no caso dos dentes, paguei o preço da ignorância e da falta de dinheiro. Já outras, como a massagem que minha avó fazia em minha lombar, quem paga o preço hoje sou eu: e bem caro, pros massagistas, fisioterapeutas e errepegistas, pra me fazer, afinal, o que ela me fazia com tanto carinho e com mãos tortas.

Ah, essas avós bruxas, quem não as teve?

de tênis no mar

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Dizem que a melhor forma de educar uma criança é o exemplo. Não, não acho que seja assim tão simples.

Eu tive muitos maus exemplos de algumas coisas e não criei hábitos nem repeti bobagens. Outras, das quais tive as melhores referências, não me serviram para muito.

Provavelmente porque a gama de sentimentos, racionalidades, afetividades envolvidas em cada uma das nossas opiniões e preferências seja muito mais complexa do que a simples dissecção dos exemplos.

Em todo caso, tem coisas que eu considero absolutamente idiotas e que mantive e mantenho e provavelmente, devido ao adiantado da coisa, manterei até o fim dos meus tempos.

Medo do que pode haver no chão do mar.

Tá bom, eu nunca fiz pesca submarina nem mesmo utilizei um simples óculos de natação pra enxergar melhor o tal fundo do mar. Isso atrapalha bastante o discernimento, assim como meus óculos de míope sempre atrapalharam o uso desses outros.

Mas eu tive exemplos em casa.

Meu irmão do meio, o atleta, o cara grandão, o boa praça , morria de medo do que tinha no chão do mar.

Eu adorava meu irmão. E aprendi com ele a entrar no mar de tênis! Era o que ele fazia em praias desconhecidas. Ele me jurava que bicho nenhum se atreveria a me morder se eu estivesse de tênis.

Bom, bicho nenhum nunca me mordeu no chão do mar. Mesmo quando eu já crescida aprendi a ter vergonha e não entrava mais no mar de tênis.

O que aconteceu é que eu me estrumbiquei no chão da piscina, pisando em uma ponta da escadinha e quase arrancando meu dedão.

Não, não passei a entrar na piscina de tênis.

Mas devia.

Assim como devia nunca ter aprendido a fumar e feito mais esporte. Tal como meu irmão.

Ele não existe mais. Morreu muito cedo. Sem nunca ter fumado, nunca ter bebido e sempre ter entrado no mar de tênis.

São exemplos. Que educam ou deseducam. E dos quais a gente imita sem nem saber porquê.

A gente quer fazer a coisa certa, tenho certeza. E quer viver para sempre. Mas os bons – e também – maus exemplos não colaboram tanto assim.

Queria ter meu irmão aqui. Com tênis e tudo.