aula de desenho

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O professor Rios me ensinou uma coisa bem interessante. Que eu nunca mais esqueci, já lá vão cinquenta e poucos anos.

Ensinou-me que se você misturar vários guaches em água, vai chegar um momento em que nada mais acontecerá. A cor será algo assim meio flicts, meio marrom-cocô-mole.

Pra que isso serve, dirá você? Sim, porque a gente teima em achar morais da história em histórias sem moral alguma.

Bom, eu desisti de encontrar uma cor diferente, dessas que o mundo jamais tinha visto. Porque marrom cocô todo mundo já viu. Eu misturava amarelo com azul, obtinha verde, acrescentava branco pra clarear, preto pra escurecer, um pouco de roxo pra ver no que ia dar e dava…marrom cocô. Depois da quarta ou quinta mistura de qualquer coisa, o resultado sempre era o mesmo.

Descobri sozinha que com cheiros a coisa é semelhante, pelo menos para mim. Eu começo, em loja de perfumes, com Chanel. Eu sempre começo com Chanel. Depois um pouco disso, um pouco daquilo, e ao fim de uns cinco minutos, não consigo nem mais distinguir um extrato de uma lavanda infantil. Vira marrom-cocô.

Com cheiro de comida. Mesma coisa. Em época de festas, tipo Natal, em que a gente mesmo não podendo comer, quer ter a sensação de fartura e orgia gastronômica, depois do peru e do chester, mais os purês de maçã e de batatas, mais os champignons e shimejis, mais um monte de coisas, o nariz fica…marrom cocô! A gente só sabe o que é sobremesa porque é o que vem por último. Com bebidas igual.

Bom, isso foi o que comecei aprendendo com meu professor de desenho e terminei o aprendizado com os anos de janela. Muitos. A coisa toda, quando misturada, acaba sempre por dar em marrom-cocô.

Mas e a moral, perguntarão?

Calma, nem vocês nem eu vivemos sem moral. O que acabei por constatar, neste ambiente político em que ora vivemos, em que a questão do marrom-cocô deixa de ser retórica pra se tornar terrivelmente alegórica, é que, ao se misturar vários desempenhos, várias delações, várias falcatruas, várias acusações e várias defesas, a coisa virou, ora, virou aquilo que todos intuímos.

E tem jeito?

O Rios me ensinou e nunca esqueci: tem jeito. A gente pegava aquele copo com águas e tintas variadas, jogava fora e começava tudo de novo. Desta vez, porém, tendo o cuidado de escrever num papel as cores misturadas, a proporção e buscando não a quantidade, mas a essencialidade. O básico. Poucas, porém boas.

Por que falei de política? Sei lá. Acho que é a insistência no marrom-cocô que me deu a idéia.

E o que eu quero, afinal, é só conseguir fazer um arco-iris bonito porque variado. Com cores definidas e límpidas.