quem acha vive se perdendo

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Antigamente meu manual de sobrevivência na selva era tudo que eu fui capaz de aprender com a leitura de Robinson Crusoé, meu livro de cabeceira até hoje ( modo de falar, na minha cabeceira tem mais uns seis ou sete, mas entenda-se cabeceira como coração).

Depois o tempo passou. O tempo insiste em passar. Eu argumento, pondero que com pressa não dá pra fazer nada direito, mas o tempo não quer nem saber. Passa. Cada vez mais rápido.

Daí surgiu a TV. Eu parei por aí. Internet pra mim só é fonte de conhecimento de conhecimento que se compraz em ter esse meio como fonte. Se é que me entendem.

Pois foi na TV que descobri outros manuais incríveis de sobrevivência. Começou com Lassie, passando pelo McGyver, chegando hoje aos seriados Vida no Alasca, o Sobrevivente, Sobrevivendo com Bear Gills e outros no gênero.

Sei tudo sobre como fazer fogo, mesmo em dias chuvosos, sei tudo sobre culinária selvagem, tipo comer cobras e lagartos, literalmente, e tudo sobre a construção de abrigos, quer sejam de folhas, de troncos ou de cipós.

Sei como achar água e como ferver água. Sei o que comer e o que não comer. Sei que se deve afastar de costas devagar de cobras, de jacarés e de hipopótamos.

Agora só falta eu me perder na selva.

Mas como? Em dias de GPS, celular, satélites?

Vou ter que voltar a fazer o que fazia em criança: botar uma toalha em cima da mesa da sala, levar para lá galhos e folhas secas e botar fogo.

E depois sair correndo, não da minha mãe, que nem está mais aqui pra isso, mas do meu zelador.

Difícil botar em prática conhecimentos tão úteis como esses que tenho aprendido nesses programas.

Vou ter que continuar a me perder dentro de mim mesma.

Salvai-me Clarice Lispector!

 

dançando no trânsito

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Aprender a guiar é mil vezes mais fácil do que aprender a dançar.

Pra mim é. Não que eu seja uma expert em nenhuma das duas coisas, mas nunca bati carro nem caí sentada no meio do salão de baile. Mas já ralei lateral de carro, já dei cotovelada no salão de baile, já encostei para-choque, já dei bundada em outras mulheres, também conduzidas por seus parceiros rumo ao abismo.

Quando aprendi a guiar, eu seguia o que me diziam. No caso, meu namorado, hoje marido. Houve situações em que ele disse: “olha a árvore”. Eu olhei. Se ele tivesse dito “freie na árvore”eu freava. No fundo, tudo é uma questão de interpretação de texto.

Ele também já me disse: “olha, o escapamento está meio solto. Não se assuste se ele cair na rua”. Eu não me assustei. Nem recolhi, já que não foi isso que ele me disse. Olhei pelo retrovisor, vi o escapamento inteiro caindo e continuei, lépida e fagueira. Ora…

Dançar é um pouco isso. O homem comanda ou sugere os passos. A gente segue. Pelo menos no tango, dança que não é espelhada como a maioria das outras. A gente cola e vai. Se alguém mais estiver colada e de olhos fechados, vindo em nossa direção, cabe ao homem providenciar para que a colisão não aconteça. Acontece que tem homens que também gostam de dançar de olhos fechados.

Em todo caso, aprendi a guiar em menos de um ano, não mais que isso. Já dançar tango, já é mais de uma década e ainda não está aquela coisa toda. Digamos que fazer baliza no tango é mais difícil do que fazer pivô no trânsito, ou o contrário, sei lá!

No trânsito existe a buzina. Existe também o guardinha de trânsito e o semáforo. E aquele monte de leis que a gente só decora no primeiro exame de habilitação. No salão de baile a coisa não é tão sinalizada. E além do mais, tem a música alta.  Um guardinha, no entanto, faria bem nas milongas pra orientar a ronda. Assim como eu sempre tive dificuldade em dar ré em curva guiando, assim também tem um monte de gente que não consegue entender o sentido do salão.

Apesar disso eu digo: guiar é mais fácil do que dançar.

Por outro lado, guiando eu viajo algumas centenas de quilômetros com um montão de combustível e dançando eu vou rumo às nuvens, dependendo do parceiro e da música, geralmente com só uma taça de vinho.

Dancemos pois. A relação está vantajosa.