de portais e de meias

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Não sei o que acontece com minhas meias. Tá bom, também não sei o que acontece com os brasileiros hoje, não sei o que acontece com meu arroz que insiste em queimar apesar da minha dedicação, não sei o que acontece com minhas plantinhas que não suportam sequer um dia de esquecimento meu e secam impiedosamente. Elas não sabem o que é ter mais de sessenta…Nunca chegaram nem mesmo aos 12 meses!

Mas com minhas meias algo de muito raro acontece. Tudo começou na infância. Na época eu não ligava a mínima, já que não era eu quem comprava, quem cerzia nem quem lavava. Quando minha mãe fazia a pergunta que hoje me faço: “mas o que acontece com suas meias?”, eu fazia a egípcia e pronto.

Depois, quando eu tive minha própria casa, passei a comprar e lavar ( cerzir não, aí já é demais) minhas próprias meias, passei pela mesma dúvida. Mas o que…

Elas somem. É isso. E não somem aos pares, como casais recém casados. Somem de uma a uma. Não somem por uma questão de idade, tipo as mais velhas antes, como é da lei da vida. Somem aleatórias. Somem as bonitas e as feias. Somem as finas e as grossas. Somem as brancas e as coloridas.

A princípio cheguei a achar que era uma coisa de pátria, pra citar a palavra de moda hoje. Elas não gostavam de sair de sua pátria e, em viagens, sumiam por aí. De raiva, de desgosto, de saudades.

Eu voltava das viagens e elas vinham desparceiradas. Em algum momento entre uma feitura de mala e outra, em alguma gaveta deste mundo de deus e do diabo, elas se deixavam ficar. Eu sei o que é isso. Eu mesma já quis me deixar ficar várias vezes.

Descobri também que minha máquina de lavar deve ter um portal para outros mundos. Porque muitas entraram mas jamais saíram de lá. Uma quarta dimensão, talvez. As máquinas hoje custam tão caro que não seria de estranhar se viessem com um portal mágico de bônus. Mas no manual nada consta.

Talvez o portal esteja nas minhas gavetas. Porque elas também desaparecem de lá, mesmo eu tendo o cuidado de dobrá-las juntas.

Enfim! Meias devem ser como a gente. Nascem separadas, juntam-se em determinado momento da vida, depois os caminhos se alteram, as discussões começam, uma acusa a outra de formar bolinhas ou lacear o elástico e aí…pimba! Separam-se e vão cada uma pro seu canto. Deve ser isso.

Eu, porém, saudosista que sou, costumo guardar a que sobra. Tenho um monte de meias que sobram. Estou esperando vir a moda de meias desparceiradas pra ostentar.

Já com os brasileiros…sei não. Acho que o caso é bem mais sério do que com minhas meias.

a escrivaninha do meu pai

escrivaninha
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Não, ela não era do meu pai. Era do meu avô. Não sei bem o porquê, mas um dia ela apareceu em casa. Minha mãe se apavorou. Ela era enorme! Botou ela lá nos fundos, numa edícula, onde se botava tudo que não se sabia onde botar.

Passou a ser minha área de pesquisa. Era do tipo de filme americano da lei seca, aquela escrivaninha com tampa de enrolar, onde os mafiosos matavam gangsteres e escondiam dentro da escrivaninha.

Na do meu pai não tinha gangster nenhum. Em compensação, achei coisas incríveis: havia um tinteiro de vidro parecendo um galheteiro de cozinha, onde se colocava a tinta num lado e se molhava o bico da pena que se usaria pra escrever. Eu sabia bem fazer isso: apesar de não ser exatamente centenária, aprendi a escrever, logo no primeiro ano escolar, com pena molhada em tinta. E não podia borrar nada. Era a tortura do século. A tortura da minha mãe foi ficar ajoelhada no milho e apanhar de palmatória. A minha foi aprender a escrever, aos sete anos e pouca coordenação motora, com pena e tinta sem borrar.

Pra evitar borrões, havia lá na escrivaninha, um mata-borrão. Uma espécie de gangorra miniatura com um papel grosso que chupava a tinta em excesso.

Achei lá também um revolver. Não sei de quem era, estava desmontado, com as balas ao lado, na mesma gaveta. O revolver nem dei bola. Nunca me interessaram armas. Mas as balas, ah, as balas! Eram prateadas, pequenas e brilhantes, com a ponta pintada ou esmaltada em vermelho. Quer coisa mais parecida com um baton do que isso? Viraram meus batons prediletos daí pra frente.

Em outra gaveta descobri uma coleção de nus femininos. Não deviam ser do meu pai, pela idade das mulheres. Eram nus do começo do século XX ou fins do século XIX. Eram nus recatados, muitos com colares de pérolas, rosas nos cabelos, cachos, e um olhar pudico. Algumas estavam de calcinhas enormes, de seda. Hoje deveriam valer uma fortuna. Sei lá que fim levaram.

Havia também uma coisa que adorei: uma caixa de papel carbono. Pra quem não sabe, uma folha que se colocava junto de outra e se escrevia, a mão ou a máquina. Essa folha, azul ou preta, reproduzia o que se escrevia na folha de cima. A coisa mais próxima de xerox da época. Amei!

Afora isso havia documentos, jornais velhos, uma lupa. Ela sumiu de casa (a escrivaninha, não a lupa). Não sei bem quando mas provavelmente porque era enorme e havia desagradado minha mãe. E não era saudável nem fácil desagradar minha mãe.

Enquanto esteve por lá, foi meu território. Saudades.