da série noites insones

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Tem gente que é obsessiva. Tem gente que é pragmática.

Os obsessivos se fixam em determinados objetos, que também podem ser gente tornada objeto, e não conseguem escapar dessa fixação. Os pragmáticos também se fixam em determinadas coisas, que raramente são gentes, e ficam felizes da vida quando essa determinada coisa pode ser, ou vir a ser transformada em algo útil. Onde o conceito de útil é sempre muito pessoal.

Bom, isso não deve ser visto como conceito científico. De científica eu tenho pouca coisa.

É coisa assim de observação de vida. De vida eu tenho muito tempo.

Eu sou os dois. A saber, uma obsessiva-pragmática ou uma pragmática-obsessiva.

Eu coleciono coisas. Certa vez um amigo me disse que eu colecionava gentes. Talvez. Só não posso botar essas gentes numa estante na sala. E com minha memória se esfarelando com a idade, não adianta nem mesmo botar gentes nas minhas estantes internas. Eu esqueço onde elas são.

Mas coleciono. Bijuterias, tipo colares e brincos, bolas de vidro com neve, bolas de vidro sem neve, bolas de vidro com coisa dentro. Gosto de vidro.

Minha obsessão me faz colecionadora. Meu pragmatismo me faz usar o que coleciono. Só gente que eu não tenho onde estocar, mas o resto guardo em varais de parede, ou estantes, ou caixas.

Tudo isso porque lembrei, em noite de insônia dia destes ( pode ser noite de dia?? Ah, essa língua!) de um dos meus primeiros assaltos. O rapaz ( sempre foram jovens, velho acho que não assalta) pegou a caixa em que eu guardava meus brincos, despejou tudo num saco e levou todos. Anos de coleção. Apesar de eu assegurar a ele que eram todos bijuteria da pior espécie ( e eram).

Doeu. Doeu muito. Doeu muito mais por serem anos de coleção de uma “sem furo na orelha e que quer continuar assim”como eu, que juntei tudo que foi brinco de pressão, de imã, de pressão rosqueada que pude achar em tudo que é brechó por aí.

Retomei a coleção depois disso, claro, não fosse eu a obsessiva que sou, mas tal como filhos perdidos, sempre foram os brincos daquela caixa que me ficaram na lembrança como os mais bonitos.

E, afinal, acabei por colecionar assaltos e assaltantes. Mas todos que vieram depois deixaram de ligar pros meus colares e brincos de semente.

Ficaram mais seletivos.

Dos males o menor.