o que você quer ser quando crescer?

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Não sei se faz parte da carga genética do ser humano querer trabalhar em alguma coisa ou se de tanto gente grande ficar azucrinando criança com aquela história do que você quer ser quando crescer é que a gente começa a pensar no assunto.

O fato é que a primeira coisa que eu quis ser foi cabeleireira. Por conta dos cabelos da minha avó. Ela nunca os cortava. Ou os cortava de década em década. O fato é que eles passavam da cintura, o que devia dar menos de um metro, que ela era bem baixinha. Desciam lisos, amarelados, finos, quase uma seda. E no dia em que ela os lavava, me deixava brincar com eles enquanto secavam ao sol. Durava uma meia hora, depois já eram enrolados num coque de trança, com o qual ela dormia e acordava sem desmanchar.

Depois eu quis ser freira enfermeira, que era o que me disseram ser aquelas freiras com um capuz incrível, todo engomado. Lembrem-se que eu sou do tempo em que a noviça rebelde nem sonhava em ser noviça, muito menos rebelde. Mas era aquele capuz. Lindo. Daí eu quis ser freira. Que vocação religiosa, que nada! Isso nunca existiu. Mas fixação em cabeça, sim. Até hoje. Eita capuz mais lindo!!

Depois quis ser professora. Mas aí, já na flor dos meus oito anos, nascia em mim aquela figura impaciente que não combina com professora. Desisti rapidinho, embora tenha sido efetivamente professora por uns dois anos, recém- formada e necessitada de uma grana.

Depois quis ser escritora. Ainda quero, pensando bem. Mas a coisa sempre foi assim, na base do amadorismo.

Depois arquiteta. Com dezesseis anos tínhamos que decidir se queríamos científico desenho ou científico medicina. Quis desenho. Aprendi desenho geométrico, física, química, essas coisas que odiei desde sempre e não aprendi biologia nem sociologia, essas coisas que amei assim que conheci.

Faculdade. Psicologia. Muito interessante, mas aquele ser impaciente que continuou morando em mim não aguentava na época e ainda não aguenta ainda hoje gente com problemas. Bastam os meus. Não sou boa em resolver os dos outros. E jamais conseguiria cobrar pra fazer uma coisa em que, definitivamente, nunca fui boa.

Resultado: nova troca de objetivos. Anos de política, anos de livreira, anos de pesquisa. Até a aposentadoria, afinal.

Hoje, liberada de escolhas, penso de vez em quando se não gostaria mesmo de ter um bric-a-brac. Cheio de recordações do passado, cheio de coisas com história.

Até a próxima carreira.

Porque enquanto houver vida, haverá inquietação.

E impaciência.

E você? O que quer ser quando crescer?