fantasmas de natais

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O fantasma dos natais passados me assombra sempre. Trazendo o medo daquele papai noel sem palavras. A cara não importava, a roupa nem ligava, a barba verdadeiramente falsa não fazia espécie, mas a falta de palavras assustava. Tanto que eu reagia da mesma forma: nunca fui capaz de pedir nada verbalmente àquele papai noel que não me dizia nada. Medo. Muito medo.

Hoje sei que meu pai, fantasiado com aquela roupa barata da 25 de março não queria se trair falando. Traiu-me muito mais calando.

O fantasma dos natais futuros não me assombra. O que assombra é imaginar que não haja natais futuros. Não que eu me importe tanto assim com natal. Importo-me é com futuro.

Ou a falta dele.

E o fantasma do natal presente vem mansamente. Este ano só nós sete: três humanos e quatro caninos. O filhão lá longe, mais a norinha e os dois gatos. Um dia a gente consegue juntar o zoológico todo.

Um natal bem tranquilo como o meu é o que desejo para os amigos e principalmente para os inimigos, que, quem sabe, assim se acalmam e me deixam em paz.

Pensando bem, um natal felicíssimo para todos os inimigos. Os chatos. Os resmungões, os conservadores e os reacionários. Que a felicidade lhes abrande a alma e traga reflexão e bom senso.

Eu e os amigos agradeceremos.

Porque o que a gente quer mesmo é paz.

Pra todo mundo.

só sei que pouco sei. E mesmo assim estou em dúvida.

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Entrando no prédio junto com uma senhora. Subimos juntas no elevador também. Faxineira do oitavo.

Dos dois elevadores, só um em uso, por modernização do sistema.

Moro ali há quase dois anos. É a primeira vez que algum elevador para. Pra modernização. Discutida e aprovada em reunião de condomínio.

E não é que a mulher me sai com essa: “esse elevador vive quebrado!”.

Vejamos. Ela não mora ali. Vem quando muito uma vez por semana. Eu moro. Frequento elevador pelo menos seis vezes ao dia, subindo e descendo. Em dois anos ele nunca quebrou. Nem agora, pois, como os cartazes anunciam pra quem quiser ler, dentro e fora da cabine, ele está em reforma, o que durará só mais uma semana.

Não entendo essa coisa de “sempre”, de “vive assim”, de “toda vez é isso”, enfim, essas assertivas tão certas.

Por coincidência, hoje mesmo leio num site de um serviço de pesquisas, dados sobre pesquisa feita com vários países, onde são discutidas afirmações sobre o próprio país. Tipo: qual a porcentagem de imigrantes no seu país, ou então, qual a taxa de obesos em seu país. E um monte de perguntas desse tipo. Do tipo que nós todos estamos “carecas” de saber a resposta.

Mas não sabemos. Erramos feio. Aliás, segundo esse instituto de pesquisa, o brasileiro é um dos povos que menos sabe de si.

Descontos a parte, uma vez que nem em pesquisa dá pra ter tantas certezas, mas eu mesma me faço as perguntas e vejo que erro feio também. Por ignorância, por preconceito, por puro achismo em ação, por repetir sem pensar coisas que dou como certas.

A gente não gosta de não saber as coisas. Vide comentaristas de futebol. Vide comentaristas políticos. Vide comentaristas da vida alheia. As pessoas precisam saber. Ter certezas. Ter confianças.

Um jeito de tentar eliminar a angústia da incerteza? Pode ser.

Um jeito de mostrar-se informado e, consequentemente, descolado em seu ambiente de trabalho, junto a seus amigos? Pode ser.

Um jeito de evitar pensar? Pode ser também, afinal pensar dá trabalho.

Fico aqui no meu canto desejando ardentemente que as pessoas saibam menos. E pensem mais.

Dói, dá trabalho, causa dores variadas, de cabeça, de estômago, até intestinais, sei por experiência. Mas evita posar de babaca.

Prefiro ser babaca em dúvida do que babaca certa das coisas.

E isso eu tenho certeza.

Tenho?