banho

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Banho não é importante. Não, não estou dizendo que não deva ser tomado todo santo dia, mas exatamente por ser tomado todo santo dia deixa de ser uma coisa interessante. É só rotina.

Nem sempre, porém.

Os primeiros que me lembro foram grupais. Eu e minha avó, e minha mãe dando banho em nós duas. Em série, que “eu não tenho tempo a perder”como ela dizia. Minha avó tinha problemas de locomoção e eu tinha problemas de limpar certas partes. Cotovelos, por exemplo. Ou pescoço. Daí ela vinha com tudo, de bucha e sabão na mão. Eu e minha avó temíamos minha mãe nessa hora…

Eu até gostaria mais de tomar banho nessa idade se me deixassem tomar banho na banheira. Mas não deixavam. No box, que era mais rápido e gastava menos água (de novo minha mãe com mania de limpeza). Vou contar uma coisa, agora que ela já se foi há tanto tempo: certa vez, em represália, eu fiz cocô na banheira!

Havia muita falta de luz na época. Eram comuns banhos de balde, com água esquentada no fogão.

Já na praia, onde comecei a namorar o maridão, no começo o banho era de poço. Tinha que subir o balde com água de poço e depois jogar em cima, em pleno quintal, ao ar livre, é claro. Pensam que é fácil fazer isso no inverno, numa casa à beira do mar, com ventos cortantes e água congelante? Só porque ficava feio ficar sujinha em começo de namoro…

Já tomei banho de rio e de represa e não recomendo nenhum dos dois. No rio a água corre e o sabão vai embora logo e na represa as algas atrapalham. Mas isso foram épocas de mais aventuras do que as de hoje.

Já tomei banhos de quase uma hora, quase dormindo na água quente. Já tomei banho de farra com as crianças, todo mundo junto em jacuzzi de hotel chic. Já tomei banho no escuro, em hotel de quinta categoria, sem sabão e com baratas, em viagem para o sul. Já tomei banho com toalha molhada. Já fui dormir ensaboada em banho abortado por falta de água no meio.

E hoje me vejo sendo pragmática como minha mãe, tomando banho com as cachorras pra “adiantar o serviço” que eu também não tenho tempo, ou tomando banho em 3 minutos por conta da falta de água, rodeada de baldes pra catar as gotas todas e economizar.

Banho é bom. Mas não deixa de ser complicado, de vez em quando, né não?

 

 

 

mais uma historinha…

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Vou começar contando uma historinha pessoal. Como eu sempre faço, aliás. Não por excesso de vaidade, diga-se, mas por falta de criatividade. Não consigo contar coisas que não vivi, que não vi, que não senti.

Pois bem, meu pai foi leiloeiro. Interessante esse emprego, ou carreira, sei lá. Exige exclusividade. Dá até para entender, quando você imagina que um leiloeiro comprometido com alguma firma possa puxar a sardinha para o lado dela.

Mais ou menos como parlamentares. Fica esquisito o cara ser executivo de alguma empresa e ao mesmo tempo parlamentar. Ou seja, legislar. Legislar em causa própria é muito fácil. Difícil mesmo é legislar em prol do coletivo.

Voltando, novamente. Meu pai deveria ter exclusividade. Não resistiu porém aos apelos de um cunhado e acabou se associando a uma firma. Que, por sinal, faliu.

Tenho certeza que ele nada teve com isso. Nem sabia onde era a firma. Apenas entrou com o nome. Na época, nome limpo.

Resultado do imbróglio: perdeu a carta de leiloeiro, documento que lhe permitia exercer a profissão.

Se o nome continuou limpo, após provar que nada tinha com a falência da firma, a profissão de tantos anos foi para o espaço.

Por que conto tudo isso? Porque foi nessa ocasião, lendo o processo movido e os argumentos do advogado do meu pai é que assimilei um conceito que me acompanhou pela vida afora.

Os advogados argumentaram que o caso em questão não era único. Que fulano e beltrano, leiloeiros famosos, já haviam feito a mesma coisa. E nada lhes acontecera.

Tá certo. Ou melhor, mesmo sendo eu pequena, logo percebi que tinha alguma coisa errada.

Percebi que o que estava errado era a comparação com os erros dos outros.

Muito, muito mais tarde, cheguei a rir com a frase famosa: “ou nos locupletemos todos, ou restaure-se a moralidade”.

Porque é assim que a coisa parece funcionar por aqui, por esta nossa terra.

Só que eu não acho hoje, como não achei de criança, que devamos nos locupletar todos, se isso for à custa da ilegalidade. Quero muito que a moralidade venha a se restaurar. Porque acho que é a forma mais democrática de se viver. A mais justa.

Meu pai pagou o preço. Aliás, nós todos.

Nosso país ainda terá que pagar. Porque essa história de “locupletarmo-nos todos” não é verdadeira. Só têm se locupletado os mesmos de sempre. A moralidade só parece servir aos bobos.

E os erros dos outros não justificam os nossos.

Eu continuo porém, esperançosa. E acreditando em alternativas políticas democráticas e de esquerda. Poderemos um dia locupletarmo-nos todos, sim. E ver a moralidade restaurada. Por que não?