de vida, de adjetivos e substantivos

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A repetição contínua das coisas pode levar à saturação.

Estou falando de palavras, de expressões. Nunca ouvi ninguém falar palavrão em casa, nem meu pai em dia que o São Paulo jogava mal e perdia. Um dia, quando ele já estava bem velhinho, passados dos 80 anos, chegou em casa todo molhado ( ele nunca teve carro, só andava de ônibus ou a pé) e disse : puta chuva essa, me molhei inteiro! Causou espanto na família inteira…

Eu falo palavrão. Procuro falar em ocasiões que justifiquem o fato. Naquelas ocasiões em que nada mais aliviaria. Mesmo assim, pouco saio dos usuais, quase infantis, tipo “droga” ou “merda”. Evito sempre aqueles que envolvam a mãe de alguém, que se esse alguém for muito sacana, a mãe não tem nada com isso. Mesmo quando meu Corinthians perde por conta de juiz irresponsável, inconsequente, incompetente, enfim, vocês entenderam.

Expressões continuamente repetidas também me causam espanto. Como aquelas que dizem “mudar sua vida”. Poucas coisas mudam a vida da gente. No meu caso, a vinda dos filhos, uma ou outra cidade nova. Veneza mudou. Toledo vista ao longe num fim de tarde também. Mas não mudaram a vida. Apenas acrescentaram paisagens inesquecíveis ao meu repertório, aquele que eu busco em dias sombrios. O repertório de desafogo que a gente tem pra essas ocasiões. Não chega a mudar a vida.

Filhos mudam, sim, pra sempre. Talvez sejam a única coisa que mude. Ou violência extrema, como tortura e morte, como guerra ou terremotos.

Nunca uma comidinha nova, um sorvete, uma roupa, como a gente vê na internet.

Se o discurso de ódio vai longe nas redes sociais e nas ruas, o discurso da felicidade também atinge paroxismos nunca antes alcançados.

Menos, pessoal, bem menos. A vida da gente é muito importante e por mais tediosa que seja, ainda assim rica em eventos, bons e ruins. Só o fato da gente respirar, viver e procriar já é fantástico.

O resto, bom, o resto altera condições, traz novos molhos, traz tristezas ou alegrias, mas mudar a vida já é demais. Tampouco amamos ou odiamos com tamanha intensidade. É raro isso. Os extremos não são tão fáceis de atingir.

Se abusarmos desses conceitos, que nos restará na hora em que realmente alguma coisa mudar nossa vida? Que palavras e expressões usaremos? Quantos “ultra, super, hiper, mega”serão necessários pra dar conta de exprimir o que queremos?

Palavras são maravilhosas. Sem elas só nos restaria desenhar e mesmo assim, só os que detiverem algum talento pra coisa. Já imaginaram que os homens das cavernas talvez não quisessem retratar apenas animais e cenas cotidianas, mas quisessem falar de amores, de tristezas, de esperanças e não tivessem possibilidades estéticas para isso? A linguagem das palavras é sensacional.

Quando usada com moderação. E precisão.

Se não, só nos restará trabalhar com cada vez mais adjetivos e xingar com cada vez mais substantivos. Como aquelas crianças bem pequenas que brigam: “meleca, caca, goiaba, banana, e por aí afora!

13 de agosto

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A mãe dela demorou pra morrer. Uns dois anos. O tempo entre um derrame e outro.

Após o segundo, mais 28 dias. Uma fase da lua. Alguns botijões de oxigênio. Muitas noites sem dormir.

Daí, naquele dia, ela chegou pra gente, no café da manhã, e, sem nenhuma expressão no rosto além de um profundo cansaço, disse: a vó morreu.

Após o enterro, que envolveu vestir o corpo com a roupa previamente escolhida- pela avó, ainda em vida- para isso; após servir a noite toda e boa parte da manhã os parentes e amigos com café e alguma coisa de comer, após voltar do cemitério, toca tingir todas as roupas, aquelas mesmas que usava todos os dias, floridas, de algodão. Tingir de preto.

Proibição de ligar rádio, de tocar piano, por um bom tempo.

E no ano que se seguiu, usar preto todos os dias e noites.

Essa era minha mãe, a que pouco demonstrava no rosto as emoções que sentia, a ponto de muitos acharem que sentia pouco. Aferrada a tradições. A regras. A proibições sociais.

Faria hoje 99 anos.

Quando perguntada por seu aniversário, dizia: agosto, mês de cachorro louco.

Nunca me deixou ter um cachorro.  Também não queria que eu fumasse na frente dela. E, ao saber que eu menstruara pela primeira vez, só fez dizer: tome cuidado, agora você pode ter filho.

Logo eu, que nem sabia como se fazia isso…

Ah, mãe, nunca te entendi. Mas feliz aniversário, se houver algum depois que tudo se acaba.