domingão no minhocão

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Um céu sem nuvens. De outono. Começou o inverno hoje, mas não importa. Outono que se preze fica até o último estertor. Ou a última folha caindo.

Resolvo andar no Minhocão. Aquele lugar horroroso, sem calçada para andar, que se debruça sem vergonha sobre os apartamentos e sacadas da avenida. Uma espécie de beliche do terror, por sobre a São João. Só derrubando mesmo.

Mas voltando, céu sem nuvens e sol da tarde, caminhar pelo minhocão, que hoje pode.

E hoje pode tudo. Montes de garotos e seus skates. Montes de cachorros levando seus donos para passear. Montes de crianças puxando pais pela mão, pelo pé, pela barra da calça ou da saia. Criança puxa. E também é puxada. Acho que faz parte da infância essa puxação toda.

No meio do Minhocão, ela, toda de preto, toca uma harpa. Uma HARPA!! A harpa nem é tão grande, também ela preta.  Esperava tudo de uma garota de preto, de coturnos, de taxas na cintura. Menos uma harpa. Mas deve haver anjos punk num céu roqueiro.

Mais adiante, uma mãe skatista anda com seu filhote, ele sentado, ela em pé no skate. Formam uma bela dupla. Fico rezando pra ela conseguir brecar quando for necessário, afinal, o filhote está sentadinho bem na frente. Mas deve haver anjos skatistas que tomem conta de mães criançonas.

Gente dormindo ao sol. Talvez uma sesta, talvez uma ressaca da braba, ainda do sábado. Dormem ao sol, sobre o asfalto.

Hoje pode. Hoje pode tudo.

Ali na Roosevelt chego ao paraíso dos guris do skate. Paro muito pouco. O barulho incomoda

O sol vai abaixando, é hora de voltar. Passando pela viradinha cultural logo ali. Criança e pai, criança e mãe, criança e avós e crianças sozinhas, correndo. Não sei quem é mais barulhento, se o povo do skate, se a criançada da viradinha. Continuo debaixo das árvores de Higienópolis. Silêncio afinal.

Hora de voltar. Valeu o domingão. De passeio no minhocão. Por que não?!

 

 

 

 

desabafos curtos

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Um pouco cansada dessa história que a vida começa aos 40, ou que começa aos 60. Que papo é esse? Tenho mais de 60 e a minha vida começou há exatos 65 anos e alguns meses. E de lá pra cá nunca parou, nem deu pit stop pra trocar pneu e recomeçar. Ela flui. Bem ou mal, ela flui sempre. E espero que continue fluindo por um tempão mais.

 

Tampouco gosto desse papo machão ou feministão (existirá o termo? Sim, porque o conceito existe sim) que diz que sempre é bom trocar uma (ou um) de 40 por duas (ou dois) de vinte.

Como assim? Desde quando gente é camiseta que a gente troca quando rasga, sua,ou está fora de moda?

Gente é introcável. (também não sei se existe o termo, mas tenho certeza que vocês entenderam).

Mais uma vez, não se trata de idade. Se a coisa não vai bem com uma (ou um) de quarenta, existe uma chance muito grande de não melhorar com dois (ou duas)de vinte. A questão não é quantidade, também. Se assim fosse, o povo que se entope de chocolate teria mais prazer do que os que comem, bem devarinho, só um, de boa qualidade. Se é que me entendem.

 

A gente gosta de frases curtas. Não à toa os messengers, os aplicativos de celulares e de computadores indicam um número de caracteres pequeno.

Pra não “dar trabalho”de ler nem de escrever.E,provavelmente, nem de pensar.

Sempre lembrarei do meu amigo N. em assembleias. Tínhamos 3 minutos para falar. Tudo bem, havia as questões de ordem que eram habilmente manejadas pra nos dar mais alguns minutos de voz. Mas era a porra dos 3 minutos pra defender, pra explicar, pra argumentar.

N.se recusava. Ele era maior do que 3 minutos. E tinha razão.

Eu tenho dificuldade de pensar e escrever em 180 caracteres.

Mas posso tentar.

Gente foi feita pra pensar. O resto é drone. E tenho dito.