artes e artimanhas

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mascaras

Nunca tive uma máscara que prestasse, dessas de carnaval.

Mas tive um montão de outras, dessas que a vida oferece e a gente agarra, imaginando se esconder.

Cigarro foi um deles. A cada situação nova que gerasse ansiedade, eu me acabava em fumaça.

Comer lateral de dedo. Meu dedo. Cada um dos 10 dedos da mão, com preferência descarada pelo dedo anular. Se você usar produtos de limpeza como eu e fizer serviços domésticos, eles – os dedos – se tornam um pitéu. E alivia ansiedade.

Assobiar enquanto trabalha. O tempo passa mais rápido e tanto mais rápido se não se lembrar muito bem das músicas. O esforço em lembrar faz esquecer o chato que é limpar, lavar, passar.

Comprar calcinha e soutien quando a ansiedade for grande, mas muito grande mesmo. Não precisa ser chic nem caro. Calcinhas dessas de baciada a cinco “real” fazem mais pela minha tranquilidade que sessão de terapia.

Fazer café. Pra maioria das pessoas o café estimula e não acalma. Mas se você tiver, como eu, de moer o grão, juntar canela em pó, medir e fazer em máquina de expresso, e ficar ali do lado só sentindo o cheirinho invadir o ambiente, acalma. Como acalma! Se quiser nem precisa tomar o café, é só fazer.

Andar a pé. Conversar com cachorro. Olhar criança pequena quando ela não percebe que você está olhando.

Tudo isso só como máscara ou válvula de escape pra ansiedade.

E aí fica bem divertido quando as pessoas te encontram e dizem o quão calma você é.

Não sou.

Mas aprendi a ser boa pra caramba na arte de buscar máscaras e artimanhas.

Afinal, o que é a vida senão uma longa corrida de obstáculos?

Cheia de quenianos por todos os lados??

Heim, heim?? E vocês, fazem o que?

 

 

guia de cego

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Eu sabia o que era guia de cego desde pequena.

É que onde eu morava, todo mês, batia no portão um garoto acompanhado de um ou mais cegos pra vender vassouras de pelo. E espanadores. Pra quem não está relacionando o nome à pessoa, vassoura de pelo tem pelo embaixo pra limpar o chão e espanador tem pelo em cima, pra limpar móveis e paredes.

Seguindo: o garoto era guia de cego. Isso antigamente, que hoje acho que seria promotor de facilidades pra deficiente visual. Que dias vivemos…

Mais tarde eu conheci os cachorros-guia. Geralmente pastores ou labradores.

Bom, o que eu não sabia naquela época é que eu mesma me tornaria uma guia de cego. Ou de cega.

Tenho duas cachorras vira-latas, ambas velhas. Uma vetusta, dezessete anos completados.

Olhando pra disposição dela, eu às vezes acho que ela é quem nos enterrará!

Ela vazou um dos olhos, não sabemos como. O outro a catarata tirou totalmente a visão e a idade dela nos impede de tentar uma cirurgia.

Resultado: hoje eu aprendi a ser guia de cega. Não mudamos móveis de lugar pra não introduzir tensões em seu mundo, não andamos mais com ela em lugares estranhos ou com desníveis grandes, temos que por-lhe a comida embaixo do nariz, porque além de cega também está surda e com olfato piorado.

Enfim, no bico do corvo, como dizemos.

Mas esse corvo ainda vai ter que esperar.

Porque é ela, com sua disposição, bom humor, adaptação às dificuldades que nos ensina.

A mim ensinou-me a ser guia de cega.

E a esperar pela velhice sabendo que, com determinação, dá pra superar a maioria das dificuldades, buscando saídas, sem entregar os pontos.

Minha querida Pestinha, tenho o maior orgulho em ser sua guia.

Mas não tenho certeza ainda se é você quem eu guio ou é você quem me guia.