faltam avós e sobram gurus

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Incomoda-me demais o excesso de gurus nas redes sociais.

Aqueles que possuem um nome pretensamente ou realmente orientais ( sabe-se lá porque, oriental tem mais credibilidade no quesito guru) e que teriam – ou não – dito alguma frase ou pensamento que se ajusta a quase tudo.

Isso antigamente a gente chamava de provérbio. Ou axioma. Ou pílulas de sabedoria. Ou, simplesmente, palpite de avó.

Sim, porque nos meus idos (mas não lamentados) anos, quem ficava ditando esse tipo de frase que se adaptava a cada coisa que a gente fazia errado ( já notaram que não existem frases para aquilo que a gente faz certo?) era geralmente nossa avó e de vez em quando nossa mãe.

Avó é que vinha com a história de “em boca calada não entram moscas” a cada vez que a gente dizia alguma bobagem. Se a avó era católica como a minha, a cada estripulia vinha “cuidado, deus castiga e está vendo tudo”, o que me fazia ter mais pavor de deus do que do diabo que, afinal, não ficava olhando tudo que eu fazia. Embora, ao me ver contando carneirinhos em céu nublado, sempre ouvisse que “procurasse o que fazer, pois cabeça vazia é oficina do demo”…

Mas minha avó limitava sua influência à família e um que outro parente mais próximo. E, coitada, nunca foi citada em nenhuma rede social. Nem ganhou qualquer coisa com seus ensinamentos.

Hoje me parece que faltam avós presentes pra cumprir esse papel. Ou as avós também resolveram terceirizar e deixaram a cargo dos gurus passar adiante as tais pílulas de sabedoria.

Pena. Porque avó era coisa que existia em nossa vida com tal influência só até a puberdade e olhe lá. Com a adolescência a gente superava as tais pílulas e achava que superava também toda as gerações anteriores, reinventando o mundo a nossa moda.

Hoje, ao contrário, vejo que é da adolescência em diante que tais gurus encontram seu espaço. E o homem, menino grande, pensa, tal como os adolescentes de antigamente, superar suas dores e problemas com tais pílulas… Em redes sociais pululam frases de autoajuda, de gurus com nomes impronunciáveis ( o que aumenta pra caramba a credibilidade) frases que parecem se adaptar a tudo e a todos, em todas as horas e lugares.

Sei não. Guru não tem colo nem sorriso de paz. Guru não me chama por nomes carinhosos nem me põe pra dormir.

Prefiro as avós. A minha avó. Minha gurua crocheteira e cheia de provérbios que me dá tanta saudade!