farejando por aí

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Dizem que o peixe morre pela boca. Nem sempre é verdade, já pesquei muito bagre pela barriga. Mas de maneira geral, peixe morre, sim, pela boca.

Já o guloso come pelos olhos. E pode acabar morrendo pela boca.

Não sou exatamente gulosa, mas certos aspectos e cheiros me fascinam.

Já cai de boca num sabão de coco. Não os sabões de hoje, com cheiro que só com muita boa vontade remete ao coco, mas os da minha infância. O cheiro era tão bom, mas tão bom, que eu resolvi dar uma grande mordida.

Fiz como disse aquele: fumei mas não traguei. Mordi mas não engoli, porque se o cheiro era divino, o gosto não correspondia.

Também já dei minhas lambidas em naftalina. Eu amo o cheiro de naftalina. Só lambi, porque naftalina é pior do que sabão de coco.

Como não amar naftalina, se minha avó botava em todos os baús em que ela guardava aquelas coisas incríveis que eu gostava de brincar? Meu pai também botava nas estantes de livros. E os baús de casa, mais as estantes de livros eram tudo que eu mais amava. A paixão se alastrou pra naftalina também. Eu ponho até hoje em armários. Só não lambo mais.

Já bebi baunilha. Uma droga. Não sei como deixa os bolos e cremes tão gostosos. Mais um caso de cheiro enganoso.

Há outros cheiros enganosos, mas esses não tão letais.

Cheiro de uísque. Gosto mas o gosto é quase tão ruim quanto o de baunilha.

Cheiro de churrasco. Bom. De longe. Bem de longe.

Cheiro de pipoca. Acaba com a qualidade de qualquer filme. Deviam baixar uma lei qualquer que impedisse a pipoca amanteigada no cinema. Qualquer filme de arte vira filme B, daqueles nauseantes. E a trilha sonora que acompanha faz jus.

Mas há os cheiros bons. Cheiro de pizza eu percebo ao longe. Já achei pizzaria assim, pelo cheiro. Pena que pra mim é de consumo restrito.

Cheiro de pão quente. Por pior que seja a padaria, na hora do pão fresco o cheiro é delicioso.

Cheiro de caramelo. Cheiro de torta de maçã.

Todos bem proibidos.

Ainda bem que meu carrasco particular, o Dr. Fred, não me proibiu cheirar.

Estou falando de alimentos. Mas tem certas ervas que adoro o cheiro.

Ainda falando de alimentos. Pensaram o quê?

 

 

o guarda-roupa

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O quarto parecia com o de um hospital ou albergue. Três camas de solteiro, dispostas lado a lado com um criado-mudo entre elas. Na frente um guarda-roupa.

O guarda-roupa era de uma madeira que formava desenhos, com puxadores nacarados. Quantas não foram as vezes em que eu dormia olhando para os desenhos e imaginava rostos, monstros (aí eu não dormia), roupas e paisagens.

As camas eram diferentes umas das outras, o que dava aquele ar de pensão. Ou de quarto dos três porquinhos, já que a minha era pequena, a da minha avó média e a do meu irmão bem grande.

Dentro do guarda-roupa, de um tudo. Roupa de cama, roupa dos meus pais, roupa nossa.

Mais fotografias e “coisas”.

Havia as jóias da minha mãe. Arrematadas nos leilões da Caixa Econômica, já que meu pai era leiloeiro na época. Não sei se ele achava investimento ou se gostava de jóias. Minha mãe mesmo usava pouco. Só para casamentos, essas coisas. Já eu, na frente do espelho, porta trancada, me divertia!

Na adolescência dei pra usar algumas. Perdi várias. Daí eu mesma parei de fazer uso delas, embora minha mãe nem tenha percebido. Como eu disse, ela usava pouco.

Dentre as “coisas” havia um pauzinho envernizado, cheio de fitinhas coloridas. Alguma coisa como uma varinha de fada só que de madeira. Minha avó , a dona da “coisa” me contou que ganhou aquilo ao vir para o Brasil, numa festa quando da passagem pela linha do equador. Não sei, nem ela me explicou, para o que servia. Pra mim era uma varinha de condão.

Havia umas luvas de renda e uns leques que eram lindos. Infelizmente as luvas não esquentavam nada, então nunca pude usá-las. Minha mãe um dia me ensinou que era para serem usadas uma delas na mão e a outra segurando. Não sei bem o porquê. Acho que era etiqueta da época. Se não serviam para esquentar nem mesmo se podia usar as duas ao mesmo tempo, pra que serviam então? Mistério. Agora as luvas sumiram e minha mãe morreu. Mistério eterno.

Havia um coisa vermelha que eu achei no bolso do casaco de pele da minha mãe e, ao surgir na sala com a coisa na mão, perguntando para o que servia, quase mato minha mãe e minha avó de susto. Nem lembro o que me responderam na época, mas muito tempo depois descobri tratar-se de uma camisinha. Em todo caso, não me deixaram brincar com a coisa. E eu já estava achando um jeito de transformar em bexiga…Pena.

E havia a “coisa”maior. A “carta anônima”.

Aquilo mudou a vida da minha mãe, e as consequências vieram até nós, os filhos. Muito, muito tempo depois ela me contou a história toda. Cabeluda.

Não, não vale a pena falar disso. Anônima era e anônima ficou. Nunca entendi se o fato de guardá-la significava uma tendência masoquista de minha mãe ou um fundo de rancor na personalidade.Minha mãe, como disse, já se foi, a carta desapareceu no passado, as pessoas envolvidas também não mais existem.

Só ficou esta lembrança do armário das “coisas”.

E uma vontade muito grande de saber onde foram parar aquelas luvas tão lindas.

Hoje eu sei que nem tudo precisa esquentar. Algumas coisas nessa vida são assim, não servem pra mais nada a não ser embelezar.

 

 

 

anonimato

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dedos apontando

 

Pode ser que pareça lenda, pode ser que pareça coisa inventada, mas houve um tempo em que carta anônima era um acontecimento.

A pessoa se esconder atrás do anonimato numa carta era o máximo da canalhice. Sempre era pra contar alguma coisa que não deveria ser contada. Algum segredo escabroso, alguma fofoca maldosa.

O lado B das pessoas aflorando longe do nome. O nome ainda era algo guardado pra ser honrado. Jurava-se pelo nome de coisas e/ou pessoas queridas. Jurava-se por deus, pelas mães, até pela vida, querendo cair morto se o que se dissesse não fosse verdade. Jurava-se muitas vezes em vão, é verdade. Jurava-se muitas vezes em mentiras, mas a culpa daí decorrente era grande.

Normalmente respeitava-se a jura. Quem ouvia e quem dizia.

Alguma coisa no meio do caminho se quebrou. Alguma coisa mudou.

Principalmente nas redes sociais e aplicativos, onde o nome pode ser qualquer um, a coisa mudou.

Ninguém mais jura. Ou, quando o faz, ninguém mais leva em consideração.

Juras, sejam elas de amor, de honra, em nome disso ou daquilo não merecem mais crédito.

No entanto, fotos, selfies, palavras escritas (no caso, digitadas) recebem crédito.

Dizia-se antigamente que o papel aceita tudo. No sentido de poder aceitar mentiras, ilusões, sonhos, enfim, tudo que signifique  compromisso com a verdade ou não.

Hoje acho que o mundo virtual aceita mais ainda.

E aceita mais e melhor quando for pra xingar alguém, pra odiar alguém, pra mentir a respeito de alguém ou alguma coisa.

Não precisa por nome em comentário algum. Mas, se quiser, pode por.

O nome já foi tão vilipendiado, tão trocado, tão esquecido, que o que fica, o que importa mesmo, é a ofensa.

“Não sei quem disse, não verifiquei a veracidade, mas lembro todos os detalhes sórdidos.”

Acho que preferia a carta anônima.

Pelo menos dava trabalho. O trabalho de ir até o correio, selar e enviar. Um certo tempo dispendido que possibilitava pensar bem no que se iria fazer.

Tempos sombrios estes. Já não há por quem jurar. Nem nome a guardar.

 

Uspianas

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Voltei pra USP. Todo ano que posso, volto.

Desta vez, porém, volto nos meus termos. Fazendo aquilo que gosto, sem preocupações se terei emprego depois de formada, se vou me manter, essas coisas todas que arruínam nossas escolhas, porque envolvem valores que não têm todos a mesma importância. Posso buscar uma carreira super valorizada, mas que o dia a dia me leve à loucura, à infelicidade. Ou buscar algo que eu ame de paixão mas para o qual não tenha o menor talento. Conheço alguns: médicos que não podem ver sangue, cabeleireiros com problemas de visão, psicólogos desatentos e desinteressados do ser humano.

Agora volto para cursos que eu escolho por prazer. Hedonismo puro. Aliás, é o princípio que norteia minha vida, com a idade. Não deu prazer? Raspa fora! Levando em conta, é claro, que prazer é algo bastante relativo. Pessoal. E intransferível.

No curso, vejo com prazer a meninada da graduação. Todos têm idade pra serem meus filhos. Isso poderia dar um distanciamento, mas por experiência, sei que com mais algumas aulas o distanciamento termina. Eu aprendo com eles e eles aprendem comigo. Estou numa idade em que o Stanislaw chamaria – com acerto – de testemunha ocular da história. Pelo menos das histórias que a gente anda aprendendo por lá.

Mas por enquanto, o bom mesmo, são os intervalos.

Desde a ida a lanchonete, que o prédio ultra moderno em que temos aula não possui, até os papos entreouvidos.

Na lanchonete, a mais perto, uma aventura gastronômica arriscada, peço café com leite e o tiozinho me pergunta se o “café com leite é puro ou com leite”. Tudo bem, a vida não tá fácil pra ninguém…

Depois entreouço uma apresentação entre colegas:

“Fulano, você precisa conhecer Beltrano, vocês dois fazem teatro, vão se dar bem.

Você é de qual companhia?

Do Coletivo negro.

Ah, aquela que ocupou aquele espaço…?

Não, você está confundindo com o Melanina Acentuada.”

Eu engasguei com o café com leite com leite.