coincidências

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Eu acredito em coincidências.

Exatamente por não acreditar em qualquer ideia de destino, premonições, outras vidas, karma, ou seja lá o que for, acredito em coincidências.

E isso torna a vida interessantíssima. Porque a imprevisibilidade pode ser um problema, principalmente pra gente como eu que gosta de controlar quase tudo na vida, mas se não fosse a imprevisibilidade e as coincidências, exatamente pra gente como eu, será que a vida não seria infinitamente chata? Paradoxos.

Ainda bem que nem eu consigo controlar tudo, nem a vida se adivinha nas mãos, nas cartas, nos compêndios religiosos.

Tenho vizinhos que vejo pouco. Uma vez por mês, quando muito. Moramos, eu e eles, a três metros uns dos outros. Moram no apartamento em frente.

Encontrei-os em Londres, no aeroporto. Mesmo voo, mesma fileira de poltronas. Foi tão inusitado que ficamos nos olhando um tempo quase constrangedor, pensando a mesma coisa: “mas será que são eles mesmo?”

Ontem, voltando a pé por uma rua do bairro, lembrei de uma amiga que não via há algum tempo. Sabia que ela morava na rua mas não lembrava onde. Olho para cima e eis que ela me acena da janela. Tá, eu sabia que ela morava naquela rua, mas quais as chances de ela estar na janela justo quando eu ia passando, e eu olhar para cima, eu que vivo olhando para o chão, preocupada com os infinitos buracos nas calçadas?

E tem a história da minha vida: passando férias com amigas, combinamos de eu namorar o irmão de uma delas. Tudo preparado, elas me deixando sozinha com ele na maior parte do tempo, a praia, o céu, as estrelas, aquela coisa toda e nós quebramos o maior pau.

Alguns dias depois chega o outro irmão: o chato, o mais velho, o cri-cri que ninguém cogitava namorar, ele que só sabia falar de política e física.

Estamos casados há 44 anos.

Coincidência. E muito amor.