Tô nem aí pra publicidade: quero meu varal…

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Perdi algumas coisas ao me mudar para apartamento.

Ganhei um montão de outras, não reclamo, pelo contrário.

Mas perdi meu varal.

Os varais sempre me acompanharam, desde criança em casas térreas com quintal.

Meus primeiros não eram meus, eram da minha mãe, mas eu, pequena, era encarregada de estender a roupa toda, trabalhinho fácil pra criança.

O varal era alto pra mim, mas isso não era nenhum problema. Escorado e içado por um bambu grande, era só pendurar a roupa e levantar o bambu.

Meus próprios varais, quando tive minha casa, já foram feitos de acordo com minha altura. Eram simétricos, indo da parede até um cano que os escorava. Ocupavam pouco espaço no quintal já bem menor do que o da infância. O espaço começava a se restringir.

Hoje eu escrevo olhando pro meu varal. Não dá nem um metro quadrado. Um varal de teto, de apartamento, daqueles que você ou lava a roupa de cama, ou lava as toalhas. Não dá pra lavar no mesmo dia os dois itens. Não cabe.

Secar ele seca, eu sei e comprovo. E rápido. O vento não falta nestas alturas. Zune em todas as vidraças.

Mas e o cheirinho de sol? O cheirinho de grama?

Aquela sensação de dormir em noites negras em fronhas esperançosas de dias ensolarados? Sim, porque o cheirinho de sol nas roupas é uma garantia. Uma esperança. Um sopro de vida.

Foi-se meu cheiro de sol.

E que não me venham os publicitários com lero-lero de sabão em pó vendendo sol e luz, brancura e maciez.

Quero meu varal antigo.

Sinto falta de todos eles. Daquele primeiro de arame e bambu, dos outros de corda de nylon, dos lençóis da casa inteira tremulando junto das toalhas todas e com espaço para o que mais precisasse, tudo no mesmo varal.

Isso não tem preço. Nem publicitário que dê jeito.

heróis e vilões

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Tá certo que a gente só ouve, de forma interessada, as histórias infantis quando se é criança mesmo.

Pensando bem, acho que hoje nem isso. Mas como eu gosto de histórias, infantis ou não, volta e meia me pego grudada em alguma, escrita, filmada, televisionada, contada, desenhada.

E noto uma mudança. Não nas histórias, em mim. E não a mudança que os anos trazem, desinteressando a gente de coisas fundamentais como bruxas, duendes, casas de doce, magia, enfim, essas coisas que não me parecem menos importantes que a cotação da bolsa, as próximas eleições, a guerra do iraque ou outras histórias adultas que a gente vive, quer queira ou não.

Mas a mudança a que vou me referir diz respeito ao protagonismo das histórias. Aquela clássica divisão entre o bem e o mal, as princesas e as madrastas, aquelas hoje tão politicamente incorretas, de forma que mesmo a palavra – madrasta – é evitada, pra se transformar na segunda (ou terceira, ou quarta, ou qualquer outra) mulher do meu pai.

Quando eu ouvi pela primeira vez a história da chapeuzinho, eu quis ser a chapeuzinho. Até porque para mim, ter a permissão de minha mãe de sair sozinha pela floresta pra levar seja o que for para minha avó já seria um avanço considerável. Eu não tinha permissão nem de visitar amiguinhas no outro quarteirão…

Depois com o passar dos anos, fui vendo que aquela chapeuzinho era muito babaca mesmo. Não  distinguia um lobo da sua avó, nem mesmo chegava a estranhar bichos falantes pela floresta. Fora a violência explícita da historia. Depois de pouco tempo eu morria de pena do lobo e queria ter a arma do caçador pra acabar com todo mundo.

A Branca de neve: muito bonitinha e tal. Quem não quis jamais ter a pele sem manchas, branca como a neve? E sete anõezinhos pra cuidar da gente, com abnegação? Nem precisavam ser anões ( ainda posso falar anões?) nem mesmo sete. Hoje em dia basta um gostando da gente e já está bom. Mesmo que esse um seja um cachorro. Ou gato. Em qualquer sentido das palavras.

Bom, mas continuando, a Branca de neve aquela também era chata. E boba. Já a madrasta estava lutando por seu reino da beleza e de herança. Não, eu nunca quis ser a madrasta, mas hoje entendo perfeitamente o ponto de vista dela, embora não compartilhe. Ela pelo menos era uma pessoa ativa e guerreira. Lutando pelo que queria e não dormindo no ponto por ficar aceitando maçãs na porta. Também acho muito mais moderna a atitude de ir a luta ao invés de depender de beijo de príncipe. Não nos esqueçamos que a madrasta era viúva com filhas pra cuidar, certo? Ou essa é a história da cinderela? Confundo as histórias e as madrastas.

Enfim, o negócio é que madrasta naquela época era tudo igual, sempre as vilãs, e mocinhas também eram todas iguais, sempre dependentes, submissas e babacas. Difícil a identificação com quaisquer delas.

Por isso hoje eu continuo gostando de histórias infantis e me identifico sim, com meus personagens prediletos. Tudo ecologicamente correto.

Meus heróis são o lobo, o coelho da Alice, a tartaruga e o gato de botas.

Só a galinha dos ovos de ouro acho meio sofrida pra eu me identificar.

Eu que já tive dois filhos por parto natural, fico aqui imaginando com meus botões, o que devia ser botar ovos de ouro…