granizo, neve e outras coisas brancas e pretas

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Sei lá porquê, mas eu imaginava que neve era fofa como algodão, seca como algodão, branca como algodão.

Não, descobri tarde na minha vida que neve NÃO é algodão.

Neve só é branca quando cai. Depois fica rapidamente da cor do substrato. Se o substrato é rua suja, ela fica suja. A que cai por cima se mantém branca até derreter a debaixo, aí fica suja também.

Neve não é fofa. Pesa. Principalmente quando se amontoa na beirada do telhado e resolve cair quando você está passando embaixo.

E, principalmente, neve molha. Não tão rápido como água, mas se você fica brincando na neve mais do que cinco minutos, molha sim.

Dá pra perceber que não gostei de neve, da primeira vez em que vi. Ainda não houve uma segunda pra confirmar ou não a impressão, mas, se depender de mim, não haverá.

Já granizo é diferente. A gente sabe o que esperar. Ele dói pra caramba, derruba galhos, queima plantas, arranha pinturas de carros e casas, quebra telhas, mas..é lindo!

Existem os redondinhos e os em forma de pedra mesmo. Os pequenos como uma bola de gude e os grandes como um seixo de rio. Dá pra brincar com eles, pois não derretem tão rápido. São transparentes, lindos como vidro.

Adoro granizo. Ele lá e eu cá. Bem coberta e protegida. Mas é lindo, sem dúvida.

Ontem choveu granizo. Não onde eu moro, porém.

Pena. O espetáculo de vidro caindo do céu, visto aqui de cima do apartamento deve ser lindo.

Eu sei. Granizo destrói.

Meu time também, aquele desnaturado, que consegue perder em plena inauguração, matando a gente de vergonha.

Mas eu amo os dois.

Neve? Deixa pro papai noel.

linchamento

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O conflito mete medo. Eu sei por experiência própria. É terreno de areia movediça; se você for suficientemente paciente, pode simplesmente boiar e sair da enrascada. Sabiam que nesse lance de areia movediça, dá pra boiar? Pois é. O duro é ter paciência pra lembrar disso e tentar.

Esquisito o começo, eu sei. É o diabo do conflito. Não sei se começo falando do que efetivamente quero falar ou se faço uns rodeios, pra amansar o caminho.

A gente não é deus. E escrevo assim, com minúscula, porque nem mesmo acredito que haja algum. Que dirá agir como um. Mas eu mesma tenho um lado ditador de plantão, que gosta de resolver – ou achar que resolve – as coisas do meu modo. Sem palpites, sem tergiversações, sem conflito. O mal e o bem e eu lá no meio, decidindo a meu bel prazer.

Agora o risco de fazer isso é a areia te engolir, rapidinho. Estou falando isso pra tentar entender a notícia de recente linchamento de um ser humano, como eu ou você, assim, do nada, de um boato não pesquisado nem comprovado. Estou cansada dos linchamentos morais das redes sociais, mas não imaginava que poderia acontecer na vida da mesma forma.

O anonimato como causa? Acho difícil. Mais razoável é imaginar que as pessoas querem ser deus, agir rapidamente, matar no nascedouro qualquer dúvida, qualquer conflito, qualquer pausa para pensar, esse ato que dói tanto, muitas vezes.

Mas isso – o pensar – é que faz de nós, humanos, seres que dominam o planeta, que descobrem, que inventam, que se renovam, que buscam saídas. Nós não estamos ainda em extinção.

Mas estamos caminhando pra isso. Através de guerras idiotas, de falta de planejamento, de falta de solidariedade, de falta de, pura e simplesmente, pensar. Naquilo que o ato tem de mais grandioso: analisar possibilidades, discutir com outros melhores saídas, pesquisar, pensar mais na espécie e menos individualmente, pensar na nossa mediocridade. Nas nossas limitações.

Não creio em soluções punitivas. Não creio no medo como controle. Não creio em religiões que pregam a verdade.

A verdade é que a gente é fraco. E o bichinho do pensamento pode nos fortalecer.

Houve alguém que disse: penso, logo existo.

Pensar mais coletivamente e mais a fundo acho que torna a vida mais digna. A existência passa a ter algum sentido.

Dá pra boiar em areia movediça.