Breno Rossi e Bruno Blois

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Eram os anos de chumbo. Mesmo assim, com a ditadura e tantas prisões, tortura e morte, a gente casou. A vida seguia. A vida sempre segue.

E a gente curtia bastante, como até hoje curte, música. Não a dos mp3, 4, 5 ou que número for. A de vitrola. Aquela coisa grande, com uma agulha delicada (tão delicada e cara que o pó era capaz de afetá-la. O pó, aquela coisa que dá bastante nas ruas e fica em suspensão no ar e não aquilo que vocês podem estar pensando, embora ESSE pó também deva afetar, se não a agulha da vitrola, pelo menos as mãos que a manuseiem.

Voltando. Anos 70, vitrolas, tesão por vinis.

Vinil era – e é – lindo. Tem a capa, maravilhosa. Tem o encarte, grandão e completo, com as letras, com a biografia e discografia dos autores, com informações relevantes. Tem o ritual de por aquele bolachão no toca-discos. Pegar sempre pelos lados, pra não engordurar nem riscar o disco, acertar bem na faixa que se quer tocar, o que é quase uma cirurgia, envolvendo mãos e olhos.

Aqui em casa tinha que ter título de eleitor pra por a mão nos discos. Os filhos só obtiveram esse direito depois dos 18. Eles tinham lá os discos deles e hoje, pensando bem, não sei se eles não usavam o toca-discos em nossa ausência. Mas se o fizeram, fizeram com cuidado. Mais de 30 anos e o toca-discos aqui, intacto e funcionando. Garrard, sabe como é…Não, acho que vocês não têm idade pra saber, mas acreditem. É bom.

E havia duas lojas, basicamente, pra gente comprar discos. Com cabines, eu disse CABINES, pra ouvir os discos antes de comprá-los! Eu sabia que eram duas, eu sabia onde ficavam as duas, por sinal perto uma da outra, mas eu teimava em confundir as duas.

Breno Rossi e Bruno Blois.

Era ou não pra confundir?

Daí não deu outra. O primeiro filho que tive, bateu aquela dúvida quanto ao nome.

Bruno ou Breno? Eu amo os dois nomes.

Deu Bruno.

Mas podia ter dado Breno.

 

 

achados e perdidos

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Outro dia achei uma caneta que tinha dado por perdida numa bolsa de festa. Tudo bem, todo mundo acha canetas em bolsas.

Mas ontem achamos, no forro da casa, onde estão restos de materiais usados nas reformas, tipo azulejos e pisos, uma mesa de passar embrulhada em plástico bolha. E agora? Diz aí, quantos de vocês já acharam tábuas de passar roupa no teto??

Já achei uma banana passa mais passa do que nunca em momento de pura fome, congestionada no trânsito. Não, a banana não estava congestionada. Quem estava era eu que, morrendo à míngua, resolvi fuçar no porta luvas e achei a tal banana passa. De séculos passados, mas caiu muito bem.

Achei também nestas arrumações pré-mudança, um livro de um amigo. Deve haver outros livros, de amigos e nem tão amigos, perdidos neste emaranhado de livros, revistas e coleções que andamos encaixotando. Livro pra mim é como caneta Bic. Não tem dono. É de quem gosta e/ou precisa. Por isso não gosto de emprestar livros. Sei que relutam em voltar e como pessoa rancorosa que sou, acabo perdendo o amigo.

Mas achei esse, do Tom Wolfe. Lembrei que discuti com meu amigo que já tinha devolvido, que ele não estava mais comigo há anos. E fui honesta. Pelo menos conscientemente. Eu jurava por tudo que tinha de mais sagrado, que tinha devolvido.

Achei o livro aqui nas estantes.

Gosto demais desse amigo pra me fazer de Miguel. Liguei pra ele, pedi desculpas e propus a devolução.

Joga fora, disse ele.

Não sei se esse “joga fora”  quer dizer que agora já é tarde pra pensar em devolução, se esse  “joga fora” é a frase do amigo que quer me facilitar a vida, se esse “joga fora” é uma expressão de animosidade.

Espero que não.

Mas joguei fora (pra doação) o tal livro, efetivamente

Esqueci de devolver, mas não esqueci que detestei o livro.

Fogueira de vaidades, era o nome.

Espero não haver aí nada de simbólico.

E agora vou até ali, encaixotar mais uns CDs e volto. Que ninguém me apareça pedindo devoluções.

CD é que nem livro. Que nem caneta BIC. Que nem c..de bêbado.

Não tem dono.

arma de fogo

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Lendo os jornais do dia, tantas mortes, tantos assaltos. Tanta arma de fogo.

Aqui e em toda parte. Na vida, na ficção.

Eu, que detesto violência, sob qualquer pretexto, mal consigo assistir a algum programa na TV. Tirando os de violência explícita, quer sejam noticiários, filmes, programas e até mesmo desenhos infantis, pouco sobra. Música erudita. Ou a culinária da Palmirinha.

Certa vez meu irmão do meio, na década de 50, conseguiu ser assaltado ao voltar para casa. Digo conseguiu porque naquela época era raríssimo.

Meu pai trouxe para casa, dias depois, uma arma.

Uma arma brilhante, pequena, não sei qual calibre, mas prateada e pequena.

O que foi grande, eu diria enorme, pela lembrança que me ficou, tantos anos passados, foi o auê que minha mãe fez. A chapa esquentou, lá em casa.

Depois de ver a arma e meus irmãos brincando com ela no ato, de “mocinho e bandido”como se dizia na época, minha mãe chegou rapidinho à frase símbolo das brigas de casal: ou ela ou eu. Se essa arma fica, eu saio.

Ela não saiu, é claro.

A arma sim.

Mas não as balas, não sei por qual motivo.

Que, prateadas e com a ponta vermelha, durante um bom par de anos fizeram a festa minha e das amiguinhas nas nossas tardes de “estrela de hollywood”, quando montávamos camarins e nos vestíamos de divas com as roupas da mãe.

Melhor batom que aquelas balas prateadas de bico vermelho e que não faziam mal nenhum à saúde – pelo menos fora do cano de origem – não havia!!

Quem tem uma arma em casa pretende usá-la. Mesmo que diga que só em caso extremo, de legítima defesa , pretende usá-la se necessário.

Não acredito em se defender causando a morte de alguém, a morte é a morte. Mas aceito que isso seja a justificativa de alguns. O que não aceito é  manter em casa a possibilidade sempre latente dessa morte, que significa ela cair em mãos erradas.

Lembro com saudade das minhas brincadeiras com aqueles “batons”de bala. Mas sei que, não fora minha mãe, eu também teria brincado de faroeste com aquela arma. E aí a história poderia ser outra.

quem vai, quem fica

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Interessante a experiência de mudar de casa.

Tenho que me desfazer de 30% de tudo que tenho.

Quais 30% ?

Roupas e objetos de decoração é fácil. Nenhum apego.

Não chego a dizer que roupa é apenas para cobrir o corpo nas intempéries, mas desapego fácil. Adepta de brechós a vida inteira, não me custa quase nada desapegar. Quase nada literalmente falando.

Livros.

Aí o bicho pega. Desde que aprendi a ler não parei mais. Casei com homem que tem a mesma história. Resultado: juntamos nossos livros de solteiros e continuamos a consumir nesses mais de 40 anos de vida em comum. No meio da trajetória, ainda fui livreira, uma das melhores fases da  minha vida. Trabalhar entre coisas que gosto. Melhor que isso só se a livraria fosse no meio da Mata Atlântica!

Vou ter que inventar critérios. Talvez os livros que li e não gostei.

Problemão. Marido e eu temos gostos diferentes. Os que eu não gostei ele gostou. Melhor não.

Os muito grandes. Pode ser. O apartamento será pequeno e a estante menor ainda. Lá se vai a coleção do jornal Movimento encadernada, os livros de arte, o Monteiro Lobato grandão. E um ou outro que foge ao padrão, se é que temos algum padrão na literatura.  Não são tantos. Vai ter que ter mais algum critério.

Nossa! Como me dói tratar a literatura desse jeito: uma questão de espaço…

CDs e vinis. Mais de mil CDs, mais de mil  vinis.

Já discutimos, maridão e eu sobre isso. Melhor levar todos, nem que tenhamos que dormir em cima das caixas de vinil. A coisa chegou quase ao ponto do eles ou eu. Por um triz.

Minhas bolas de vidro de cidades que estivemos, as que eu comprei, as que me deram, amigos e filhos. Tão bonitas! Topo me desfazer das de bichos. Desfazer médio: filhota abrigará na casa dela todas que eu não puder levar.

E por aí vai a carruagem e nesse andar, vejo que não cheguei nem perto dos 30%.

Quem sabe se eu mandar pro espaço o wok do maridão e topar me desfazer de todas as formas de bolo, pão e pizzas??

Ou os vidrinhos de tempero da cozinha?

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