Toca Raul

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Eu nasci há dois mil anos atrás…era o que dizia o Raul. É mais ou menos isso, no meu caso.

Minhas pernas sempre estiveram firmemente plantadas no chão. Debaixo de  mim só a terra. Acima de mim só o céu.

Agora não mais será assim. Debaixo de mim mais dezenas de pessoas. Quantas pessoas não moram nos primeiros 13 andares de um prédio? Sei lá.

Eu vou morar no 14. São quase cinquenta metros acima do chão. Acima de mim não mais o céu. Pelo menos mais 3 famílias no andar de cima. Ainda bem que não tem ninguém dos lados, senão minha paranóia ia bombar.

Sair de uma casa térrea pra um apartamento dói. Praticar o desapego suficiente pra caber na metade do espaço em que você sempre coube também dói.

Deixar as árvores que nós plantamos, enormes, pra trás.

Deixar lembranças de nossas crianças brincando pelo quintal, brigando pelas salas, crescendo pelos quartos, é muito estranho tudo isso.

Ver o mundo de cima, muito acima do chão, como será?

Haverá pernilongos no 14? Haverá formigas? Haverá baratas e aranhas?

Que tipos de bichos sobreviverão tão alto?

Espero que eu sobreviva.

De todo modo, sempre posso alegar que já estou mais pertinho do céu, o que na minha idade é um fato incontestável, quer more ou não em apartamento.

Eu nasci, há dois mil anos atrás…

E viva, viva, a sociedade alternativa…

 

38 graus

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O ser humano é um dos seres mais adaptáveis que existem. Credito a isso e não necessáriamente a uma capacidade de solução de problemas sua supremacia. Embora essa supremacia possa estar com os dias contados, mas isso é outra história.

Mas somos bem adaptáveis. Ao frio, ao calor, à falta de alimentos, a políticos corruptos, a salgadinhos de isopor e doces sintéticos. A adaptação não é um bem ou um mal por si só.

Passamos por uma onda de calor no Brasil inteiro. Somos um patropi mas tudo tem limites.

Poderíamos não sair de casa nas horas mais quentes. Inviável pra quem trabalha de dia. Talvez os DJs, os guardas-noturnos, os lobisomens e aquelas que minha avó chamava de damas da noite . Que por sinal, trabalham período integral.

Os demais mortais precisamos trabalhar de dia. Com sol ou não.

Pode-se ligar ar condicionado.

Pode-se. Se  pudermos financeiramente.

Os outros, que andamos de ônibus (sem ar condicionado) temos que nos contentar em entrar em lojas e bancos que o tenham.  E ficar um pouquinho, pra secar.

Pode-se usar ventiladores.

Pode-se. Em lugares parados, embora existam ventiladores de grudar em vidros de ônibus como vi ainda hoje. O que esses chineses não são capazes de inventar, além do macarrão!!

Pode-se tomar vários banhos ao dia. Mas demanda tempo e água, que tem faltado. Pode-se lamentar não ter nascido bacalhau pra ficar de molho durante dias, mas as vantagens acabam aí.

Pode-se usar leques e chapéu. Eu uso. Além do guarda-chuva, já que sombrinha é coisa do passado e ninguém tem mais. Alivia um pouco.

Eu tenho feito de um tudo pra dormir. Ventilador ligado na direção da cara, ausência de roupa, afastamento do maridão que irradia altas temperaturas, até molhar o corpo e deixar o ventilador secar já fiz.

Não obtenho muito bons resultados porém. Acordo sempre estremunhada desejando ter dormido algumas horas a mais.

Mas quem sou eu pra reclamar? Adapto-me.  Sou um ser humano.

Pior seria acordar barata como o Gregor Samsa e não ter nem um escurinho pra ficar.

O preço da supremacia é esse.