dedo médio

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Estou perdendo o movimento do dedo médio da mão direita. Ele vai, mas não volta. Fecha mas não abre. Dobra mas não estica.

E pensar que ele nunca trabalhou muito em toda vida dele, que, não por coincidência, é também a minha!

Nunca prestei muita atenção a ele. Não uso anel nele, que é muito mais gordo que os outros, não sou de mandar ninguém praquele lugar, usando-o como ilustração do ato, não coço a orelha nem tiro meleca do nariz com ele. Enfim, ele está lá, mas acho que é mais pra equilibrar esteticamente os outros do que qualquer outra coisa. Como aquelas pérgolas que não servem pra nada nos edifícios, nem pra amparar uma esquálida trepadeira mas ficam ali, dividindo o sol em tiras e fazendo meias-sombras.

Meu dedo do meio é mais ou menos isso.

Mas agora que ele deu pra travar passou a se fazer notado. Nunca serviu pra muito quando estava bom, mas agora sinto-lhe a falta.

Provavelmente isso aconteceu devido a mouses e crochês, essas coisas que me ocupam um bocado de tempo. A mania de deixá-lo esticadão, como uma dondoca ao sol é que o fez desandar. Uma cirurgia rápida e de rotina, me garantiu o ortopedista. Então tá.

Enquanto isso não acontece fico olhando pra ele: sempre esticadinho, relutante em fechar, desobediente.

Podia ser pior, sussurra a Pollyanna dentro de mim. Podia ser o dedão, ou seu  vizinho, que me permitem pinçar tudo que quero. Podia ser o anular, meu preferido pra anéis, podia até mesmo ser o mindinho, meu mais bonito dedo ( e o que coça a orelha, em ataques de alergia).

E quem sabe, depois da cirurgia, eu comece a fazer uso dele pra efetivamente mandar certas pessoas praquele lugar.

Treino de flexibilidade.

Meu médico mandou.

máquinas-caixote

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Durante muito tempo achei que, em viagens, melhor não tirar fotos. Achava que, se a gente esquece, é que não significou muito.

Ledo engano. Mas precisei passar dos sessenta pra descobrir.

A gente esquece praticamente tudo. De bom e de ruim. Então, melhor tirar fotografias, pelo menos das coisas boas.

Sempre tive máquinas fotográficas. E quase nunca fotografei.

Contrassenso? Não, madrinha fotógrafa.

Minha madrinha tinha um estúdio fotográfico. Daqueles de antigamente, cheio de cenários, de roupas até, pra produção de fotos de casamentos, batizados, formaturas. Me divertia  horrores lá, cada vez que íamos, eu e meus pais, às suas festas.

E a cada dois ou três anos ela me dava de presente uma máquina fotográfica. Acho que ela esquecia que já tinha dado e dava outra.

Bom, a família inteira ficava com as máquinas.

Por que? Porque eu usava óculos.

Quem já teve máquina fotográfica de caixote e usou óculos sabe bem do que falo. Os óculos batem  no visor,  a máquina treme, o nariz machuca.

Pode-se tirar os  óculos pra fotografar, é verdade. Daí a foto desfoca pra maioria dos mortais, menos pra nós, míopes.

Bom, é um problema que eu nunca tinha resolvido. Ou melhor, eu dava meu jeitinho. Viajava com maridão e dava uma de diretor de arte: dizia a ele o que fotografar, em qual ângulo, com qual luz. Pra mim. Mas como ghost fotógrafo, ele continua sendo um ótimo maridão. As fotos nunca saiam exatamente como eu queria…

Até a descoberta do I-phone. Paixão à primeira vista. Nem precisa encostar na cara, nem precisa se preocupar com foco, nem precisa achar o ângulo ideal. É só ir tirando. Ficou ruim? Joga fora depois.

Descartável.  Como minha memória. O que fica? Fica a saudade. Das madrinhas, das máquinas-caixote, dos tempos em que eu era capaz de lembrar de memória das coisas, sem precisar de fotos.  Lembrar do que, afinal, ficou: o gosto pelas viagens e a importância de madrinhas divertidas na vida da gente.

Pois não é?

Pai e mãe, fotografados, retocados e pintados a mão. Meados do século passado.

do tempo em que eu ia ao aeroporto olhar avião do lado de fora

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Recomecei a andar- que língua a nossa!-  em avião há oito anos. Depois de ter controlada minha claustrofobia. Depois do filhão ter se mudado pra longe de mim milhares de quilômetros. Mãe é mãe, claustrofóbica ou não.

Mas minha relação com avião vem de muito longe.

Eu nem sabia direito o que era avião até uns cinco anos. Conhecia de figurinhas, digamos assim, nos jornais, nas revistas e muito distante, muito distante mesmo no céu da Lapa, se é que existe bairro com céu particular.

Daí me mudei para o Brooklin. Fez toda a diferença, no quesito conhecimento aéreo. Minha casa era rota de avião subindo ou descendo de Congonhas. Um pouco antes dos aviões subirem naquele quadriculado da ponta da pista ( ou baixarem? Ou dos dois?) eles passavam por cima de casa.

Vários tipos de avião. Eu gostava mesmo era dos helicópteros, raros, barulhentos e mais visíveis devido a pouca altura em que voavam.

Para ver os grandões, da Panair ou internacionais, a gente ia a Congonhas.

Muita gente ia. Depois do almoço, quando minha mãe ia lavar a louça, naquele mundo de machistas e preguiçosos de então, ela acabava mandando a gente ir ao aeroporto. Tenho a impressão que ela gostaria de mandar pra outro lugar, mas jamais ouvi minha mãe falar qualquer palavrão. Ela queria se ver livre daquela turba pra poder limpar melhor a bagunça do almoço.

A gente ia. Uma caravana, se não me falha a memória. Desde minha avó, reumática e artritosa, andando a zero por hora, até eu, a mais novinha, insistindo pras pessoas andarem mais rápido, pra eu ver os aviões. Mais pai, tios, irmãos.

Só não ia cachorro porque nunca pude ter cachorro em criança e o bicho que me deixaram ter andava mais devagar que minha avó: uma tartaruga maldita, chamada Raquel.

Lá chegando a gente subia ao primeiro andar. Onde havia também um restaurante e um incrível salão de baile, palco de infinitas festas de formatura. Das janelas envidraçadas a gente passava a tarde olhando avião subir e descer. Eu olhava com  inveja aqueles seres especiais que desciam do avião. Sim, porque naquela época, a descida era feita com escadinha saindo da porta do avião. E a mulherada desfilava roupa e chapéu, homens sempre de terno e gravata.

Depois , aos doze, fui enfim conhecer avião por dentro. Eu me tornei um daqueles seres especiais, sem chapéu nem salto alto, mas ansiosa que só.

Rumo a Montevidéo, aquela cidade onde às vezes sonho em fazer a última e definitiva viagem.

Mas isso é outra história. E outra lembrança.

onde foi parar?

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Existe a falta de memória. Aquela que faz com que eu encontre a melhor amiga do ginásio e não consiga lembrar o nome dela de jeito nenhum.

Existe o esquecimento momentâneo ( pelo menos eu acho): aquele em que eu, ao tirar a panela do fogão esqueça de desligar o fogo e, é claro, como Murphy existe e é meu pastor, passe a mão e o braço bem em cima do fogo ligado  segundos após.

Existe o esquecimento da dor da alma depois de um tempão. Aquela dor que a gente acha que nunca vai passar, que o luto será para sempre e um belo dia nem lembra mais do que não iria esquecer nunca.

Existem essas modalidades todas. Mas existe o oposto. A lembrança renitente de alguma coisa que a gente não sabe onde está nem onde foi parar. Mas insiste em ficar lembrando.

Tipo: onde foi parar aquele cachecol que eu ganhei e amei e agora que está um frio de lascar não consigo achar?

Onde foi parar aquela barriga saradinha, quase negativa que eu tinha e me fazia por sempre a mão acima do bikini ao deitar pra evitar o nu frontal visto de esguelha?

Onde foi parar aquele livro que me custou um montão achar e que ninguém mais tem, agora que eu quero reler com calma?

Onde foi parar Salomé Parísio?

Onde foi parar aquele ânimo pra enfrentar dupla jornada e ainda reuniões políticas três vezes por semana, mais panfletagens e discussões pra “conscientizar” a massa manipulada ( por outros que não nós)?

Onde foi parar aquele cabelo macio que eu tinha e que minha mãe tanto elogiava os cachinhos, agora que eu quero os tais cachinhos e minha mãe nem está mais aqui pra elogiar?

Onde foi parar Rose Rondelli?

Onde foi parar meu saco pra burocracia, pra vozes estridentes e trânsito parado? Eu tinha, tenho certeza.

A lista é infindável.  Podia passar laudas por aqui listando. Se eu lembrasse de todas, claro.

E, finalmente, onde foi parar Agostinho dos Santos?