gente organizada

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O duro de ser uma pessoa organizada é que a gente o é o tempo inteiro.

Por exemplo, não dá pra tomar banho de baixo pra cima. A sujeira acumulada no corpo nunca é tão grande assim, mas a lógica e a lei da gravidade dizem que a sujeira vem de cima pra baixo. Até politicamente, veja só!  Então nós, pessoas organizadas, tomamos banho de cima pra baixo. Assim, a sujeira de cima vai caindo pra baixo, onde será limpo em seguida.

Não dá pra ter uma bolsa grande, lisinha por dentro. Com a possibilidade de ficar tudo junto e misturado. Não, bolsa de mulher organizada é elitista. Cada coisa em seu segmento. As coisas mais delicadas nos segmentos mais almofadados, pra não correr o risco de sujar ou amassar. Minhas bolsas padecem de esnobismo, mesmo que por fora sejam simplesmente sacos de ginástica.  Ainda vou pensar no que isso quer dizer, politicamente.

Gente organizada não come comida de adolescente. Aquela coisa de sanduiche de geleia com mortadela. Gente organizada começa pela salada e termina com cafezinho. Se mudar essa ordem dá uma tremenda indigestão, eu sei por experiência.  Minha alimentação é altamente conservadora no que diz respeito à ordem estabelecida. Quase uma monarquia  estomacal.

Gente organizada não se veste com superposição. Nem usa shorts em dias frios com blusa de lã. Gente organizada é pão pão, queijo queijo. Se o dia é frio, roupa de frio. Toda quente. Se é calor, roupa de calor. Toda fria. Gente organizada sente frio ou calor no corpo inteiro. Gente organizada tem coerência térmica.

Eu sou organizada, já falei?

Não vou à manifestações, nem comícios, nem show de rock por conta de uma claustrofobia controlada mas não curada. Mas, em sendo organizada, não consigo clamar por mudanças genéricas, palavras de ordem tão gerais, mas tão gerais, que chegam a ser dispensáveis de tão óbvias.

No entanto, eu, mesmo organizada,  estou achando muito bom que as pessoas se desorganizem. Melhor isso do que marasmo.

Num primeiro momento. Assim como quando a gente vê um carreiro de formiga e passa o dedo bem no meio. Elas se desarvoram, saem por todos os lados e daí a pouco reconstroem outros carreiros. Estamos num momento assim. A maioria é formiga, trabalha um bocado, mas até formiga precisa levar um chacoalhão pra pensar novos caminhos.  Mas os caminhos não surgirão do nada.

Caminhante: não há caminho. O caminho se faz ao caminhar. O poeta tem razão. Mas a gente precisa pelo menos saber aonde quer chegar.

E organizar o como.

Se não, corre o risco de ficar como meu estômago, todo elitista, ou como meu banho, todo conservador, ou até mesmo como minha bolsa, toda separatista.

Gente organizada é fogo.

reclamação escatológica

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O assunto é um tanto escatológico, eu sei, mas é preciso pensar sobre ele. Aliás, sobre escatologia em geral, nos sentidos todos da palavra.

Homens e mulheres, cheios de diferenças. Hoje existe mais um monte de sexos, mas normalmente só do ponto de vista do uso, porque do ponto de vista biológico, continuam sendo dois com um ou outro hermafrodita por aí. E outras raríssimas combinações de X com Y.

Uma das diferenças mais gritantes é o modo de fazer xixi. Mulher sentada, homem em pé.

Até aí, chovo no molhado. Ou mijado, digamos assim.

Mas a criação destes homens e mulheres futuros, pelo menos no Brasil, é diferenciada. Em muitas questões e nessa do xixi mais ainda.

Menina é ensinada desde cedo a não fazer suas necessidades em público. A tomar cuidado com banheiros sujos. A forrar assento de vaso sanitário. A se enxugar. A lavar a mão. Tudo a que tem direito, no quesito xixi.

Garoto? Ora, já cansei de ver mães de todas as classes sociais, tirando roupa de menininhos pra eles fazerem suas necessidades líquidas onde estiverem. Com um sorriso cúmplice no rosto, como a dizerem: é criança, ninguém liga.

Eu ligo. Porque esse garotinho vai crescer. E de adulto, num momento de aperto, vai fazer a mesma coisa, que é o que vemos em todo canto pela cidade. Com a maior cara de pau. Foi-se o tempo em que eles tinham pelo menos vergonha e se escondiam. Hoje a gente tem que fingir que não está olhando.

Por que a diferença entre meninos e meninas? Machismo de um lado ( homem pode, homem  deve ser orgulhar de seu corpo) falta de higiene de outro.

Aí, convenhamos, reclamar da falta de banheiros químicos nas manifestações é pura hipocrisia. Onde fica aquele clichê de toda mãe quando leva os filhos pra passear? “ foi ao banheiro?” Esse clichê vale pra vida toda, gente! Previsão de futuro não é só coisa da bolsa de valores. É coisa da natureza humana. Das necessidades humanas. Já foi? Não?Então vá!!

É um assunto esquisito, eu sei. Mas pensar sobre isso e agir não custa nada. Falo ou, melhor dizendo, escrevo isso, porque cheguei ao cúmulo de ver, aqui pertinho de casa, mãe com cachorro e criança, com saco de lixo pra recolher cocô do cachorro na mão, baixando as calças do filhote pra ele molhar a rua. Com aquele sorriso bobo no rosto.

Ah, dá um tempo!