procissão

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Não, eu nunca participei de uma.

Agora, não participaria por questões religiosas. Mas quando era pequena, bem que eu queria.

Não tinha nada a ver com religião, embora minha mãe e avó fossem católicas. Mas eram umas católicas lá do jeito delas, sem militância, digamos assim.

Mas na Lapa havia procissão. Enorme, aos meus olhos de criança.

Lembro ainda do andor com algum santo, acho que Nossa Senhora, do monte de gente ora com velas ( se fosse noturna) ora com ramos nas mãos, se fosse época de Ramos, e logo ali no começo meu objeto de paixão, minha motivação pra ficar horas na janela do sobrado olhando, desejando ser eu ali: os meninos e meninas que ostentavam suas asas de anjo. Ostentavam as asas e incorriam num monte de pecados veniais – será que ainda existe isso?- o orgulho, a soberba. Eu, de minha parte, respondia com outros: a inveja e a ira.

Quanto eu não quis ter aquelas asas de anjo! Todas cheias de peninhas brancas, enormes. Dava a impressão que era só bater um pouquinho que elas voariam longe, bem alto. Não sei por que eles não batiam e ficavam só ali, na procissão, de mãos postas e olhos baixos.

Ah, se fosse eu…

Nunca participei de uma, como disse.

O mais perto que cheguei foi na primeira comunhão, aos sete anos, em que ostentamos – e eu ostentei com o maior orgulho- nossos vestidos brancos longos e minha prendada tia me fez uma cestinha forrada cheia de pétalas de rosa, que a gente jogaria não lembro onde. A cestinha lembro em detalhes, a cor das pétalas também, mas não sei o motivo nem o que fizemos com ela, o que só mostra que eu sou uma degenerada detalhista, sem fé e chegadíssima em objetos esquisitos, eu sei.

E procissão pra mim era isso. Havia também as músicas, mas de péssima qualidade, minha opinião de época que permanece até hoje. A igreja católica no Brasil tem músicas muito ruins. Nada que se compare a alguns pontos de umbanda, ao ritmo dos atabaques do camdomblé, aos maracatus e bumbas do nordeste. A evangélica também não fica atrás no quesito musical, embora na evangélica as letras é que sejam de lascar. Algumas melodias são razoáveis.

Bom, mas eu estava só falando de procissão e derivei.

Falando em derivar, as procissões ainda existem, pelo menos no meu bairro atual. Bem pequenas, quase um bando triste que se arrasta nas noites perto da Páscoa. Nem anjinhos tem mais.

Pena. Dava gosto aquelas asas.

O que eu não faria com uma daquelas…

invenção

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Tive um tio inventor.

Quer coisa melhor para uma criança do que ter na família alguém que, de barba na cara, ainda é um crianção?

Pois é, meu tio inventor era.

Na realidade, ela mais fuçava e reciclava do que inventava propriamente dito.

Também não sei dizer com precisão se inventor é o cara que efetivamente cria algo novo ou o que acrescenta mais alguma coisinha em objetos já existentes e os melhora.

Fica difícil de acreditar que o cara que inventou a roda inventou a roda. Provavelmente ele inventou alguma coisa mais ou menos disforme em cima da qual se punham estrados e pesos a carregar, acho eu. Talvez uma roda meio quadrada, sei lá.

O que importa é o conceito, e a roda deveria ser uma coisa que girasse. Nem sei se o cara que inventou estava pensando em carros e carroças. Talvez estivesse só ali, deitadão na grama, mascando um capinzinho, girando e girando na boca. Girando, entenderam o conceito? Daí à roda foi um pulo. Ou um giro.

Bom, meu tio inventor inventou algumas coisas. Uma cadeira de ferro de armar. Era para quem acampasse e para pescadores, numa época em que os pescadores pescavam assim, sentados à beira do rio. Sem muita coisa além de vara, anzol e linha. E uma cadeirinha pra armar.

Meu tio inventou uma. E deu a mim um protótipo, bem pequenininha.

Era para eu sentar, principalmente quando acompanhasse meu pai nas pescarias.

Mas um dia minha avó se recusou a me levar a um passeio. Ela que não me recusava quase nada.

Eu entristeci num primeiro momento. Depois veio muita raiva. Depois, na sequência, a idéia da vingança. Alguma coisa que deixasse na minha avó a lembrança do dia e da negativa que me dera. Vingança é um prato que se come frio. Para isso precisa esperar ele esfriar.

E eu esperei.

Ali, atrás da porta, por horas, foi o que me pareceu.

E quando ela voltou, eu, de cadeirinha de armar na mão, mirei e acertei-lhe as pernas. Bingo!

Eu havia inventado a arma. Ou a reciclagem das cadeiras de armar.

Apesar do meu tio nem ser tio de sangue, eu herdara dele a capacidade de inventar.

Um tanto conspurcada pela alma em conflito, porém.

lei Antonieta, 132

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Minha mãe tinha certas idéias muito interessantes.

Elas não mudavam com o tempo. Eram repetidas até quase se tornar lei. Lei de Antonieta número 132.

Para o bem ou para o mal, ela tinha idéias e teorias.

Ela teve uma filha antes de mim. Não conheci. Essa irmã nasceu sete anos antes de mim e morreu com dois anos.

Sei lá porque, se por moda ou religiosidade ou por qualquer outro motivo, teve por madrinha de batismo Nossa Senhora. Não sei qual delas, que parece haver Nossas Senhoras para todos os gostos. Mas devia ser a mais óbvia e famosa. A simples. A mãe de Cristo.

Minha mãe tinha muitos parentes e embora poucas amigas, alguma deveria haver que topasse ser a madrinha da criança. Mas ela quis Nossa Senhora.

Não sei nada de liturgias, tampouco porque o padre teria aceito por madrinha uma pessoa que não pode se responsabilizar por uma criança, na falta de algum ou ambos os pais, que essa me parece ser a idéia de padrinhos e madrinhas. Alguém que fará as vezes de mãe ou pai se necessário for.

Bom, foi Nossa Senhora.

Com dois anos minha irmã teve uma meningite que complicou e ela morreu. Não há dor maior para um pai ou uma mãe do que a morte de um filho, eu sei. Sei também que provavelmente nada amansa o grito no coração de um pai que sofre essa perda.

Minha mãe apenas disse e repetiu a vida inteira que “nossa Senhora resolveu levar para si o anjinho que batizou”.  Que ela não devia ter dado sua filha a Nossa Senhora.

Não sei se isso resultou em culpa para ela ou em alívio para seu coração.

Não quero e nem devo julgar.

Não sei nem mesmo porque as pessoas buscam religiões e criam deuses, quando já é complicado o suficiente entender seres visíveis iguais a nós. Se fosse para acalmar o espírito, ainda entenderia. Sou psicóloga e bastante complacente com aquilo que traz paz ao coração dos homens, seja lá o que for.

Mas nunca entendi alguém criar um deus que o fere.

E o fere onde nenhum pai ou mãe deveria ser ferido.

Enfim…essa era a lei Antonieta 132, parágrafo único: se tiver que batizar um filho, nunca dê para madrinha ou padrinho um santo. Corre o risco dele gostar da criança e tirá-la de você.

os caras vivem dizendo coisas

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O cara que disse que o inferno são os outros devia ser um cara bem cheio de problemas.

Por outro lado o cara que disse que nada do que era humano lhe era estranho, sabia bem  do que vou falar.

Eu sou humana. Você é humano e até minhas cachorras, do ponto de vista familiar, são humanas. Moram, comem, necessitam carinhos e cuidados como qualquer outro membro da família. Mas só desse ponto de vista porém, que eu ainda acho que cachorro é cachorro e gente é gente. Por enquanto.

Mas eu, como todo ser humano e como todo LP de antigamente ( aquelas bolachonas de vinil, achatadas, que postas numa coisa chamada vitrola tocavam música) tenho meu lado B.

Aquele lado feio, maléfico até, aquela vontade de sair matando todo mundo que me fecha no trânsito, aquela vontade de dizimar toda a fila do banco na minha frente, enfim, vocês sabem do que estou falando.

E tenho meu lado bom, aquela paciência em certas horas, aquela solidariedade em outras.

Nós, seres humanos somos assim.

O cara que rouba, o cara que mata, o cara que corrompe, ele também é humano. Um humano que em algum momento se deixou levar pelo seu pior lado. Deixou de pensar no outro como igual e passou a ver o outro como fonte de recursos e de prazer. E só.

Para esses, os em que o lado B levou a melhor, a gente não é outro. A gente é coisa. Coisa que se usa, se mata, se descarta, se abusa.

O que segura nossa onda? O que define nosso lado prioritário?

Muitas coisas. A moral, a cultura, a ética. Valores universais, não necessariamente religiosos. Aliás, acho melhor que não sejam, estes valores, atrelados a nenhuma religião. São valores que perduraram por séculos e fizeram perdurar nossa espécie. A misericórdia não precisa ser divina. A caridade não precisa ser cristã. Basta a elas serem humanas.

E aos humanos, basta a eles se entenderem iguais. Nos bons e nos maus momentos. No bem e no mal. E na infinitude de gradações que vão de um a outro lado.

Porque aí, aí eu me apiado. Aí eu entendo, aí eu cuido.

Nada do que é humano me deve ser estranho. Se e enquanto eu continuar sendo humano.

Se não, bom, se não melhor nascer cachorro numa próxima encarnação e torcer pra cair numa família carinhosa.