páscoa, judas e chocolate

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Não lembro de quando comecei a ganhar ovos de chocolate. Não era muito pequena, não. Já devia ter bem uns 14, 15 anos. Não sei se não era moda dar ovos de chocolate ou se não era moda haver dinheiro em casa sobrando pra essas modas. Sou mais a segunda hipótese.

Mas em certa época comecei a ganhar. Do meu pai. Um ovo mediano. Que continuei a ganhar enquanto ele foi vivo, independente de eu já estar casada e com filhos. Acho que sempre fui a menina do pai, que nunca chegou a me considerar velha o bastante pra deixar de ganhar ovos de chocolate.

Eu tinha por volta de cinquenta anos quando ele morreu. Deixei de ganhar ovos na páscoa. Deixei também de comer chocolates, na páscoa ou em qualquer outra época. É claro que de vez em quando escapa um bombom aqui, outro acolá, que eu não fundamentalista em coisa nenhuma, exceto o timão. Mas de maneira geral hoje me sinto como o coelho de páscoa: dou ovos, mas só como cenoura.

O chocolate aumenta meu colesterol, a gordura acaba comigo. Melhor evitar. Estou naquela idade do “evitar”. Um porre.

Gostava também de ver malhar o Judas. Na esquina de casa, na Lapa, os garotos faziam e malhavam um Judas bem grande. Nós, as crianças e as meninas  em geral, só podíamos assistir e torcer.  Havia disputa de ruas. Havia disputa de Judas. Geralmente políticos, muito raramente algum personagem do bairro.

Hoje é feio malhar o Judas ou qualquer outro. Não é politicamente correto. Tá certo, também acho que a conotação histórica que deu origem à malhação não é das melhores nem justificáveis, mas que era gostoso, era. Bom, outra coisa a ser evitada. Não disse que esta é a época do “evita” ?

Sou de uma família católica, não daquelas de ir à missa aos domingos, mas daquela em que se tinha de rezar antes de dormir e respeitar a semana santa, leia-se, não comer carne a semana inteira. Bacalhau só no domingo de páscoa.

Nunca gostei muito de carne, nem de religião.

Assim, hoje, que ando na idade do “evita”, fico sem comer carne quase o ano inteiro e, vez ou outra, um bacalhau.

Religião? Nem pensar.

Melhor evitar.

tempo

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Tempo não é assunto. Tempo é álibi.

Na calçada, no elevador, na fila do banco, aquele momento de puro constrangimento em que se encontra um conhecido e não se tem idéia do que falar?

Antigamente dava pra falar da família. Pelo menos perguntar. Depois que  as famílias mudaram sua configuração, na forma e no conteúdo, fica difícil perguntar de esposa, filhos, essas coisas. Vai que a pessoa responda…

O tempo, e não Jesus, salva. Salva de surpresas, embora o tempo em Sampa seja sempre cheio de surpresas; salva de intimidades pois que o tempo é de todos e por todos se deixa analisar; salva de si mesmo, uma vez que essas conversinhas com tempo reduzido só podem ter como tema ele mesmo.

É difícil que o tema tempo gere controvérsias e debates, mas embora raro não é de todo impossível. Basta um dos elementos da conversa jurar conhecer forma de nuvens e/ou simpatias pra alterar o tempo, que a coisa pode esquentar. A coisa, não o tempo.

Porque por incrível que pareça, tem gente jurando que sabe fazer chover. E a sério! O ser humano não mudou com o tempo. Continua crédulo.

A conversinha sobre o tempo tem uma certa diferença dependendo do gênero. Mulher geralmente relaciona tempo com roupas. Tipo: saí com a roupa errada, não esperava este frio ou este calor. Homem reclama do trânsito, do congestionamento causado pela chuva, eventualmente de dores nas juntas, se  o homem em questão estiver neste mundo há um bom tempo.

Tempo funciona pra começar e terminar conversas. Tô sem tempo, a gente se vê…

O tempo é só uma condição. Mas que condição! Vira gente, ganha personalidade, se enche de qualidades e defeitos. Tempo de espera demora a passar. Tempo de idade passa rápido demais. Tempo pode torturar. Tempo pode aliviar.

Dizem que há um tempo de sorrir e um tempo de chorar. Bobagem. O tempo é só convenção, maneira de contar e organizar esta vida. Quem chora ou sorri é gente. E gente só passa com o tempo se não houver mais memória em nada nem ninguém.

O tempo é só um álibi, não um criminoso nem uma vítima. Esses somos nós.

inocente útil

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No meio da briga de pai e mãe, ele era o personagem central. Não por importância, porém, que naquela guerra da separação feia e suja, nenhum dos dois ligava muito pra ele.

Mas ele era útil. Pros dois lados. Pela pensão, no caso da mãe,pela revanche, no caso do pai.

Até que descobriu, no fundo de umas gavetas da mãe, umas cartas estranhas. Leu e mais estranho ainda achou o conteúdo. Ele já tinha doze  anos, sabia o que era uma pulada de cerca. Era inocente, não idiota.

Não mostrou nem ao pai nem à mãe. Medo de levar bronca por mexer onde não devia, sensação de que aquelas cartas podiam significar alguma mudança na guerra estabelecida.

Deu pra vigiar o pai. E um dia conseguiu ouvir um telefonema também estranho. Percebeu outra pulada de cerca, desta vez do pai. Ele estava ficando cada vez menos inocente, sem dúvida.

Numa jogada bem montada, falou com um e com outro. Mas não de um para o outro. O inocente perdia sua inocência.

Estabeleceu regras para si. Elegeu com quem ficar. Ameaçou com ar de inocência.

Venceu.

O inocente útil conseguiu, numa cajadada certeira, matar seus dois coelhos. Foi morar com a avó preferida.

E deixou, definitivamente, de ser inocente útil pra se sentir, o resto da vida, um culpado inútil.

A vida é ridícula, por vezes. As guerras também.