estica e puxa

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Meu marido não se conforma com a mulherada que fica “arrumando a roupa”, a de cima ou a de baixo, o tempo todo. São aquelas mulheres que usam tomara que caia mas não deixam cair e ficam puxando pra cima o tempo inteiro. E sabemos que os vestidos e blusas tomara que caia foram feitos pra cair, né não?

Tem também as que tiram as calcinhas fio dental de dentro da..do…bom, de onde o fio dental da calcinha se mete. E sabemos também que calcinha fio dental é pra entrar nos menores lugares, fazendo jus ao nome, certo?

E as que puxam meias-calças pra cima, as que ajeitam seios dentro do soutien, as que escondem tiras que teimam em aparecer, as que levantam calças baixas pra evitar a popularização do cofrinho, bom, sabemos bem do que estou falando.

Eu tendo a relevar. Até porque acho que não existe nada, mas nada mesmo, mais terrível do que a mania dos homens de coçar o…bom, também sabemos do que falo.

Em todo caso, manias fazem parte do ser humano, ajudadas por roupas inadequadas, sapatos martirizantes, modas malucas. Todos os calos do meu pé devem-se a sapatos de bico fino, numa época da vida em que a opinião dos outros valia mais do que a minha, ou seja, a adolescência. Cansei de usá-los. Literalmente. Hoje só uso tênis e salto só mesmo nas milongas. Dentro das milongas, porque até chegar a elas vou de sapato baixo ou tênis.

Lembram-se das malas de lona usadas por estudantes – eu inclusa- nos anos 60? Eram as primeiras que surgiam, substituindo as de couro com alça que a gente usava no primário. O mal é que eram usadas num ombro só, determinando toda uma geração de ombro caído. Um só.

Fora os males de coluna. Mas para esses as cadeiras escolares sempre foram potentes colaboradoras. Ficar torto pra escrever na mesinha lateral das cadeiras é o melhor remédio pra enrolar a coluna. E como sai caro! Pago horrores pra minha RPGista!

A gente não é perfeito, dizem. Mas podíamos colaborar menos no sentido de nos tornarmos, cada vez mais, seres tortos, calejados, doloridos e cheios de tiques.

E ainda nem estou falando de caráter…

olhando casas

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Gosto de sair por aí, andando, olhando casas.

Quando viajo, seja por onde for, seja tão longe quanto for, eu gosto mesmo é de sair por aí, olhando casas.

Não visito quase museus, não entro em igrejas, só fico olhando pras ruas e casas, imaginando quem mora lá, como mora, como foi feito este ou aquele detalhe.

Já pensei em ser arquiteta, certa época. Quando descobri, em tempo, que não bastava o prazer de olhar casas, para construí-las era necessário um bocado de cálculo. E, afinal, onde entrariam as pessoas, aquelas pessoas que moravam nas casas, com suas alegrias e tristezas? Onde eu botaria isso na minha arquitetura? Eu, que só gosto de olhar casas?

Não falo das casas prêmios de revistas de construção. Das casas de portfólios de arquitetos renomados. Eu gosto das casas mais simples, aquelas dos puxadinhos, dos jardins bem cuidados, das formas assimétricas.

Gostei de Toledo e Assis como gosto do Campo Limpo.

Quando era menor, pra diferençar as casas de que mais gostava, dava a elas nomes. Havia a casa de estrelas da noite, lá na Lapa, que hoje sei se tratar de revestimento de mica. Havia a casa de gavetinhas, na Av. Central, no Brooklin, que se parecia com um gaveteiro de quarto, com seu revestimento em madeira na fachada, cheio de “puxadores”.

Havia as casas de canjica: feitas com bolas de massa, parecendo mesmo um prato de canjica de milho.

Havia as casas de castiçal ou de prato de bolo. Foram moda numa época. Eram as casas feitas sobre pilotis. Um verdadeiro prato de bolo de aniversário.

Não eram denominações pejorativas, ao contrário, era minha forma de admirar e nomear aquelas casas que eu tanto gostava de olhar.

Cheguei a conhecer as casas de lata, as favelas de pedaços de metal e amianto. Depois as de barracos de madeira e hoje as de tijolo baiano, sem revestimento.

Essas não são bonitas. Mas sempre tenho a impressão que daqui a uns trezentos anos, se elas resistirem,  não serão tão diferentes do que as cidades medievais da Europa. Com seus jardins pequenos bem cuidados, sua assimetria, sua arquitetura do uso e da pessoa.

Só não gosto das casas iguais. Dos bairros planejados, quer sejam eles de ricos ou pobres, dos conjuntos tipo Cingapura ou do Benfica em Portugal. Porque as pessoas lá dentro não são iguais. Porque tem de haver um espaço pra personalizar, pra botar um vaso de flor, quem sabe um revestimento de tijolinho ou uma treliça.

Dizem que a gente é o que come. Posso também dizer que a gente é onde mora. E se é bom comer um prato bem colorido, também deve ser bom morar bem diferente uns dos outros. Nem que seja pra se encontrar, numa noite escura.

A minha casa é aquela ali, a de lírio amarelo na lata de leite.

personalização

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Vi por aí um anúncio de moringa personalizada. Tá, primeiro vamos explicar o que é moringa, que nem meus filhos devem saber. Moringa é um recipiente pra colocar água e mantê-la fresca. Pode ser de vidro, de barro, de porcelana. A de barro, pelo menos nas priscas eras, que são também as minhas, costumava deixar um gosto de ..barro, é claro, que dividia opiniões.

Pra quem acha que as fontes de água cheias de barro são uma referência de qualidade, elas eram tudo de bom. Meu pai, por exemplo, me fazia beber água de tudo quanto era manancial e rio que estivesse límpido, que a gente achava nas andanças pesqueiras dele.

Cansei de botar lombrigas brancas pelo buraco competente quando era garota. Deviam ser as tais “fontes de água limpa” terrosas que ele me dizia pra beber.

Voltando, as moringas de barro são assim.

Tem as de vidro, que não passam de garrafas de vidro. Tenho uma na geladeira. E só é de vidro porque eu gosto de saber o nível da água. Nada me deixa mais irritada do que pegar garrafa dágua na geladeira e ela estar vazia.

Tem as de louça também, que você não vê o conteúdo.

Bom, isso é moringa. Já personalizada eu imagino que seja decorada uma a uma, de acordo com o gosto do freguês.

Tem um monte de coisa “personalizada” hoje. Sandálias de borracha “personalizadas”, casas personalizadas, bolsas e camisetas personalizadas. Bem mais caras que as tradicionais, o tal de personalizado não é sinônimo de exclusividade. Ou alguém acha que uma sandália ou camiseta chinesa é “personalizada” hoje?

Bom, mas eu gosto disso de personalizado. Sempre gostei. Então olho no guarda-roupa e vejo o que posso personalizar ou customizar, outro jeito de personalizar.

Daí ponho mãos à obra e transformo roupas. Corto blusas, transformo vestidos.

Depois caio na real, junto tudo e ponho na sacola de roupas a serem doadas.

Posso gostar muito de personalizar mas tenho uma personalidade altamente incompetente pra costura.

Melhor coletivizar então.

 

street view

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Eu não devia ter ido, talvez. A lembrança estava lá, meio amarelada, na minha cabeça. Até aparecer o street view. Ê coisinha doida pra atiçar nossas recordações, quem diria!

A ferramenta é moderna. Diz que você pode viajar por cidades, por lugares, assim, sem sair da frente do teu computador. Um prêmio de consolação pra quem não tem possibilidades de, efetivamente, sair da frente do computador e ir viajar de verdade.

Eu viajei. Nas casas da minha infância, nas casas em que já morei.

E tomei um banho de passado, eu que todo santo dia já lavo as mãos e o rosto em passados, remotos ou não.

Nem morei em tantas casas assim. Foram, antes da qual estou morando agora, só quatro.

A segunda e a terceira foram demolidas, uma pra dar lugar a um prédio, num bairro que se encheu deles e a outra para um comércio, numa rua que se encheu deles.

Mas a primeira, a número um, pra minha surpresa, ainda está lá!

E está lá quase igual à minha memória! Só mudou, pelo menos por fora, o revestimento externo, o piso da varanda e uma porta de ferro, que não existia, numa época em que não existia também a possibilidade de roubo.

Por dentro não sei. A casa continua residencial e eu tive vergonha de bater e pedir pra entrar. Até porque, nesses tempos de insegurança, dificilmente alguém me deixaria entrar com a história de “rever minha primeira casa”. Eu, se alguém me aparecesse na porta com essa ladainha, discava direto pro 190.

Mas ela estava lá. Eu também estou aqui.

O que já não está aqui são minhas testemunhas oculares da história: minha avó, meu pai e minha mãe, meus irmãos.

Só eu estou aqui, eu e minhas memórias.

E agora, com quem vou checar se quem rolou escada abaixo foi efetivamente eu ou meu irmão? Se a goiabeira do vizinho era uma goiabeira ou uma romanzeira? Se no banheiro tinha uma banheira ou só um box?

Se a gente foi ao mesmo tempo, feliz e infeliz, feliz por ser criança, infeliz por ver infelicidade e nada poder fazer?

Ninguém, a não ser minha memória poderá me responder.

Até o dia em que inventarem um street memory.