só sei que nada sei

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Você passa a vida com a sensação de que sabe muito pouco de tudo. Faz anos e anos de escola, escolas nem tão ruins, algumas até boas. Você não é lá essas coisas como aluno, a vida extra-curricular sempre parece mais interessante que a vida interdisciplinar.

Mas você vai levando. Faz a melhor faculdade disponível na época e continua levando.

Mas sempre, sempre, aquela sensação de que só sabe das coisas a casca externa. Sabe o que é navegação e até já entrou em navio, mas se te deixarem à deriva em qualquer caiaque xumbrega você afunda. Mergulha. Se ferra.

Sabe o que é nutrição e até deu pra cozinhar bem nos últimos tempos. Chegou à conclusão que aquela história da água tanto bater na pedra até furar tem algum sentido. Você tem cozinhado todo santo dia nos últimos 30 anos.

Mas também sabe que se precisar cozinhar pra mais do que dez pessoas que tenham um nível de exigência pouca coisa maior do que o normal, você afunda. Soçobra. Se ferra.

Sabe um pouco de química e física. O suficiente pra não botar fogo na casa nem usar ácido na cara. Tornou-se amiga pessoal do professor de química do ginásio e até casou com o professor de física do cursinho. Mas sabe que se depender de você juntar ácidos com bases as mais simples ou calcular paredes e planos inclinados os mais singelos você se estrepa. Soçobra. Se ferra.

Aprendeu trabalhos manuais e os faz com afinco. Mais pra ocupar as mãos e o tempo enquanto fica em frente a TV. Não dá pra ficar em frente à TV sem seqüelas. Melhor não dedicar a ela atenção especial. Então você aprendeu tudo aquilo que um dia sua mãe disse que você jamais aprenderia, “criança arteira e desastrada”. Mas qualquer curva diferente ou ponto mais enroscado, quem se enrosca é você. E a busca pela tranqüilidade apregoada pelos trabalhos manuais, transforma-se em choro e ranger de dentes. Até a televisão traria menos seqüelas que um ponto impossível de aprender. Você se ferra.

E com o tempo e os anos se acumulando de maneira inevitável – ainda bem – você chega à conclusão que só sabe que nada sabe. Como dizia o filósofo aquele que você esqueceu. Porque com o passar dos anos – ainda bem – o pouco que você sabe , você …esquece.

E aí, bom, aí você mais uma vez soçobra. Se ferra.

O filósofo eu não lembro, mas uma certeza eu tenho.

Nesta vida, os anos passam, mas você fica.

Ferrado.

 

 

de casamentos

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Como casar? Sei lá por que, mas eu tinha essa dúvida na cabeça quando era criança.

Perguntava ao conselho das sábias de casa, minha mãe e minha avó materna, que sempre morou conosco.

Bom, dizia minha avó Marianina, sempre existe a tia Maria.

A tia Maria, irmã dela, era a casamenteira da família e acho que do bairro. Mas ela morava bem longe da gente. Quando eu a via nos casamentos – arranjados por ela ou não – eu tinha muito medo. Era uma mulher séria, bigoduda, de birote e uma montanha de cravos no nariz. Eu levava broncas da minha mãe porque não conseguia parar de olhar aquilo tudo.

Ela se encarregava, segundo dizia minha avó, de mandar cartas pra Itália pra saber de rapazes que viriam pra cá, e, ao mesmo tempo, garantia que eles, ao virem, já tivessem uma esposa em vista. Em vista dela, não deles.

Aqui a mulherada que topava tal arranjo, geralmente era “encalhada”, como se dizia na época. Gente que, aos 25 anos em diante, já era considerada “tia”. Hoje “tia” é qualquer professora de pequenos, mas naquela época era palavrão.

E os casamentos saíam. Um que eu conheci dava pena. Tinham dois filhos, mas acho que os fizeram bem rapidinho, entre uma briga e outra. Não paravam de se alfinetar.

Fora a tia Maria, havia os “amigos dos irmãos” e as “amigas das irmãs”. Era muito comum os namoros surgirem assim.

Isso pouco ou nada me adiantava. Com irmãos mais velhos do que eu cerca de 15 anos, os amigos deles pra mim eram quase idosos.

Como eu não via possibilidades concretas de arranjar namorado, deixei de pensar nisso. Mais ou menos aos seis anos de idade, época de tais e tantas indagações.

Conformei-me em ser “tia”, coisa que efetivamente fui, aos doze anos.

Mas eu tinha esquecido dos “irmãos” das amigas.

E foi com um deles, irmão da melhor amiga, que eu acabei namorando e casando.

Aos 21.

Ufa! Por pouco escapei de “encalhar”…

gritos, buzinas e romances

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Quando aprendi a guiar, diziam-me que, com o tempo, o carro seria uma extensão dos meus pés, só que muito mais rápido.

De fato, isso aconteceu. Aquilo que de início me parecia quase impossível, tipo dar ré em curva olhando pelo espelho retrovisor, acabou se tornando tão fácil quanto pular corda chupando bala.

Tá bom, tá bom, de vez em quando eu engolia a bala num pulo mais altinho, assim como de vez em quando a marcha fazia um barulhão pra entrar, reclamando do mau jeito, mas isso faz parte…

Aprendi também que a buzina do carro funciona como quando a gente tem que avisar alguém e é necessário dar um grito, pra pessoa se tocar e não fazer o que iria fazer.

Dar um grito= buzinar.

Posto isso, devo dizer que minha mãe cansou de falar que não se deve sair por aí gritando. Que é feio e sinal de má educação.

Meu pai tampouco gritava. Com ninguém e nunca na vida.

Eu não grito, nem conseguiria, se quisesse. Voz fraca, desafina totalmente se elevo o tom.

Mas buzino. Quando cachorro passa na frente do carro, criança, velhinho que não presta atenção. E se não houver outro jeito de avisar.

Também buzino pra entrar em casa. Vítimas de assaltos das mais variadas formas, o jeito foi esquematizar a entrada na garagem, buzinando antes pra alguém vir abrir. Alguém que vai olhar dos dois lados e abrir e fechar rápido. Funciona mais que portão eletrônico, sei por experiência.

Fora isso, não grito nunca. Nem buzino.

Mas tenho a impressão que sou só eu que mantenho essas regras do século passado, eu mesma uma pessoa do século passado.

Tão logo o semáforo abre, eis que uma sinfonia de gritos-buzina pipoca nas minhas orelhas.

Alguém precisa avisar pra esse povo gritão que eu enxergo muito bem, apesar dos óculos. E também vejo o sinal abrir. Semáforos são sinais visuais, não sonoros.

As pessoas se acostumam com isso. Buzinam nos carros, falam alto nos celulares, gritam umas com as outras. Utilizam os rádios de seus carros como se fossem trios elétricos.

O mal desse século será a surdez precoce, assim como no romantismo foi a tuberculose.

E nem ao menos teremos o consolo de bons romances, snif…

caderno novo

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É bom começar o ano.

Na realidade, é bom começar qualquer coisa. Nada me deixava mais feliz nos primeiros anos de escola do que começar cadernos novos. Aquelas folhas branquinhas, sem um borrão, cheirando a papel novo, não havia coisa melhor. Talvez abrir o estojo de lápis coloridos e testar um por um. Eu sabia que rapidamente o caderno iria estar todo amassado, tal a força com que eu escrevia com aqueles lápis duros de antigamente. Sabia também que depois de poucos meses, o estojo de lápis coloridos estaria pela metade, a maior parte deles, menos o branco, é claro. Sabe-se lá por que cargas dágua fazem lápis branco pra crianças de sete anos. Pra falar a verdade, até hoje eu não sei o que fazer com os lápis brancos, e já passei um bocadinho dos sete anos.

Mas é bom o começo de ano. Pelo mesmo motivo dos cadernos: está todo liso, sem nenhum amarfanhado, sem nenhum arranhão. Um ano inteirinho pra gente viver e fazer dele a melhor coisa que for possível. Eu não faço planos nem resoluções de ano novo. No quesito “grandes esperanças” estou mais pra Zeca Pagodinho do que pra Kant. Deixo a vida me levar, e já tá bom demais. Mas de qualquer forma, pretendo continuar fazendo as coisas que gosto. Dançar, escrever, ler, caminhar. E, se possível, tentar melhorar a qualidade dessas coisas todas.

Não dizem que a prática leva à perfeição? Eu, que nem almejo a perfeição, só espero que com o aumento da prática, aumente também a qualidade do prazer.

Não estabeleço resoluções mas formulo esperanças: boa saúde, o suficiente pra me permitir continuar cuidando das coisas que cuido e viajar pra ver o mundo e os filhotes, perdidos nele.

E que as pessoas melhorem seu humor. Detesto me rodear de gente mal humorada. Então, até pelo meu próprio bem, que todo mundo tenha um ótimo ano, daqueles de deixar um sorriso besta no meio da cara e uma vontade de quero mais.

Porque eu quero mais.

Eu sempre quero mais.

Feliz 2013, 14, 15, 16, …..