rodando

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O mundo não acabou.

Tá certo. Acho que quando acabar mesmo, ninguém vai anunciar. Eu, se fosse o mundo, não anunciava. Pra pegar todo mundo assim, de surpresa. Tipo prova oral de química, nos meus idos. Todo mundo assim, sem se preparar, sem ter estudado, ser ter preparado colas, sem pensar.

Eu, se fosse o mundo, acabava de sopetão, porém  devagarinho. Primeiro a escuridão, depois muita água, meio assim o dilúvio. Água é bom pra acabar e pra recomeçar. Não é a toa que batizam na água. E no fim, enchem a gente de líquidos, por sondas e por onde mais couber. Parece que líquido funciona legal no começo e no fim.

Eu, se fosse o mundo, acabava com um pouco de tortura. Psicológica. Uma das piores. Espalhar  todo mundo, sem um saber do outro. Misturar gentes e continentes. Línguas. Uma Babel geográfica e idiomática.

Eu, se fosse o mundo, acabava.

E depois, se eu fosse o mundo, recomeçava.

Com tudo misturado tendo que se ajeitar. Homem, mulher, bi e sapa, criança e velho, inglês e escocês, negro e esquimó, baixos e altos, loiros e ruivos.

Sabe quando a gente enche o pote de biscoito e não cabe tudo? Aí a gente chacoalha pra tudo assentar e caber.

Eu se fosse o mundo, acabava e recomeçava assim.

Com um chacoalhão.

Eu, se fosse o mundo, não acabava com anúncio de calendário.

Eu, se fosse o mundo, não recomeçava com reza brava.

Eu, se fosse o mundo, ia rodar e rodar e rodar até todo mundo cair.

 

discussão de gênero

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Tenho o maior orgulho de ser mulher. Melhor dizendo, fico muito feliz em ser mulher. Porque orgulho eu tenho das coisas que eu me esforço para obter, daquelas que me exigem dedicação. Eu nasci mulher e não me lembro de ter feito esforço nenhum nesse sentido.

Bom, mas o ponto é que, embora feliz com meu gênero, tem coisas que dependo de outras pessoas. No caso, do homem que me estiver mais ao alcance. No caso, atualmente, geralmente o maridão, já que o filho homem está muito longe.

A saber: abrir vidro de azeitona. Eu gosto de azeitona e já testei diferentes marcas. Não é a marca, é o vidro. O diabo daquela coisa de fechado a vácuo ou o que seja, que me impossibilita de girar a tampa, por mais academia que eu faça. E eu faço!

Às vezes eu apelo. Faço um furo na tampa e ela abre na hora. Mas deixa de vedar tão bem e azeitona é uma coisa que eu gosto mas meu carrasco particular, o Dr. Fred, mandou moderar.Então ela dura um bocado de tempo e não quero que estrague.

Pregar quadro na parede. É outra coisa constrangedora. Eu meço, olho, me afasto pra medir melhor. Mas sou míope e astigmática. E talvez, com o andar da carruagem e o passar dos anos, meio tortinha. O fato é que nunca fica bom. Daí, se eu consigo acertar o ponto, na hora de pregar aquela preguinho tão inofensivo e pequenininho, ele entorta. Ou seja, se não sou eu que entorto, é o prego que entorta. Aí tem que buscar outro. E fazer novo buraco.

Bom, depois de um tempo, a parede está muito feia e aí eu tenho que botar um quadro bem grande pra esconder o estrago.

Melhor chamar um homem. É triste mas é a realidade.

Consertar carro que quebra. Tirando trocar pneu, que eu aprendi, não entendo nada. Mas uma vez, pelo menos uma vez na minha vida, a coisa funcionou.

Foi no túnel da 9 de julho, horário de almoço, eu indo pro trabalho. Meu chevetinho velho parou. Não morreu, simplesmente parou.

Eu sou envergonhada, já falei. E não suporto ninguém gritando ou buzinando comigo.

Saí do carro, levantei o capô, girei tudo que tinha possibilidade de ser girado que estava a mão, tirei vela, botei vela, olhei gasolina, olhei óleo, olhei desconsolada pro carro, entrei, liguei e…funcionou!

Até hoje não sei o que funcionou.

Mas não precisei de homem nenhum. Ali, naquela hora, me senti total e completamente mulher. Independente e poderosa.

Então vamos combinar. Sou feminista, sou realizada como mulher, sou sensata.

Mas abrir vidro de azeitona, pregar prego e consertar carro não são possibilidades reais pra mim. Melhor chamar um homem. Quanto ao resto, sou pela igualdade.

E estamos conversados.

historinha do brasil

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Aprendi naqueles livros infames nos quais se ensinava história do Brasil no meu primário, que índio gostava de contas coloridas, espelhos e pentes.

Não vou discutir aqui o que índio gostava ou não. Mas duvido um pouco que fosse isso.

Em todo caso, EU gosto. De contas coloridas, espelhos e pentes.

Quer coisa mais legal?! Tenho uma estante do armário cheia de vidros e latas com contas coloridas. Fui comprando aos poucos, lá na 25. Queria fazer algum enfeitezinho, alguma pulseirinha, comprava contas. E nunca se pode comprar uma meia dúzia só. Tem que ser um pacotinho que vem um montão. E eu fui acumulando porque sempre penso: vai que venha alguma criança por aqui, vai que surja alguma oportunidade e nesse vai que, elas vão enchendo vidros e latas.

Pentes não tenho não. Não mais do que um ou dois. Mas tenho também um pote cheio de fivelinhas de cabelo. Nas pouquíssimas vezes em que deixei o cabelo crescer uns dois cm, fui logo comprando fivelinhas coloridas. Tão bonitas!

Corto o cabelo sempre, desde que me conheço. Nunca passou da orelha. Da parte média da orelha e olhe que as minhas nem são grandes…mas as fivelinhas estão guardadas. Vai que.

E espelhos. Tenho um em cada armário. Na parte interna, dos grandes. No closet. Nos banheiros, é claro. Na bolsa. No carro. E esta semana comprei um daqueles que aumentam. Sonho de consumo de anos e anos de miopia e olho borrado.

Se os índios gostavam, na época do “descobrimento” de contas, espelhos e pentes não sei. Mas eu gosto.

Gosto tanto que se um português me abordar,com um baú cheio de contas, espelhos e pentes,  vindo de uma nau qualquer, sou bem capaz de baixar a guarda e deixá-lo entrar.  E só depois cozinhá-lo com bastante  ervas num molho agridoce.

Além de contas, espelhos e pentes, sou também chegada em culinária chinesa.

 

 

casamento e vestibular

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A gente é meio envergonhado, os dois. Acho que sempre foi assim e acho até que esse foi um dos motivos que nos aproximou. Corporativismo na vergonha.

Se tem um monte de gente olhando então, aí mesmo é que a coisa piora.

Tinha um monte de gente no estádio do Morumbi lá pelos idos de 71, bem no começo. Não era show de Madonna nenhum, que ela nem existia como cantora na época, o que não sei  se é um bem ou um mal.

Era vestibular pra PUC. Todo mundo ali no estádio, rezando pra não chover.

Não choveu. Lembro que era prova de conhecimentos gerais e eu acabei rapidinho. Rapidinho demais pro monitor da minha fileira de cadeiras, que ainda insistiu: menina, pensa melhor, releia tudo antes de entregar…Eu já tinha pensado. Em tudo que tinha que fazer no resto do dia. Chegar em casa de ônibus, tomar banho, avisar uns e outros, ver se a mesa de comes e bebes estava em ordem e ir até o cartório.

Vou casar, disse para o monitor, tenho pressa.

Não sei se ele levou a sério, mas eu ia mesmo casar e casei. Na correria de um dia de vestibular.

Alguns dias depois, na igreja. Ao som de Iron Butterfly na entrada e Liszt na saída. A gente era eclético.

E na volta pra casa, alugada mas não mobiliada em que iríamos morar, tendo que por gasolina no fusquinha do agora maridão, ele dá ré e bate na bomba. Ninguém teve coragem de reclamar com a gente, dois noivos envergonhados, eu ainda de vestido e o fusquinha todo cheio de massa de pizza, brinde dos amigos que acharam graciosa a idéia de empastelar os espelhos, o  escapamento e onde mais puderam, com massa crua de pizza.

E foi assim. Lembro cada detalhe. E acho que foi bem a nossa cara.

Não entrei na PUC esse ano. Entrei na USP no ano seguinte. Meu maridão nunca mais bateu o carro em coisa alguma. Eu nunca mais usei vestido longo. A Madonna está lá no Morumbi, hoje, e eu continuo sem saber se é um bem ou um mal.

Continuo casada, continuo envergonhada, continuo fazendo coisas ao mesmo tempo.

Mas vestibular e casamento nunca mais.

É preciso foco pra coisa funcionar.

Pelo menos no vestibular.