dia das bruxas

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Esse negócio de homem do saco nunca pegou comigo. Talvez porque nunca tenha visto nenhum. Não conseguia imaginar um homem feio o suficiente só por carregar consigo um saco. O máximo que imaginava era nosso jardineiro, gentil e português velhinho, que trazia sim, um saco, no qual carregava a alfanje e o tesourão e era incapaz de fazer mal a uma minhoca.

Tinha também a história da Cuca vem pegar. Nunca pegou. E eu nem sabia que cara a Cuca teria. Não existia televisão quando eu era muito pequena.  Sim, não só nasci no século passado como na época em que não existia televisão, nem internet nem celular. Como sobrevivi, um mistério!

Mas voltando, nem a Cuca nem o homem do saco.

Agora bruxa tinha sim. Aquela que quando contrariada rogava alguma praga cabeluda do tipo você vai dormir 100 anos ou você  vai dançar sem parar o resto da vida ou você  vai ter colesterol alto e pressão alta sendo vegetariana e magra…não, essa praga foi minha bruxa particular quem rogou.

Bruxa tanto podia ser aquela velha feia com verruga no nariz – de preferência verruga cabeluda – como uma fada má, daquelas invejosas como a madrasta da branca de neve. Eu sabia a cara delas.

Então tinha medo. Mas só se pensasse nelas depois de anoitecer. Aí tinha sim de olhar atrás de todas as portas, de todos os cantos escuros, embaixo da cama, antes de dormir.

Dava um trabalhão. Acho que dormia de cansada.

E hoje, que existe televisão, embora eu assista pouco, se pintar na telinha um filme do Fred Krueger ou mesmo da noiva cadáver, eu ainda fico ressabiada. Como quem não quer nada, ainda entro no quarto só depois de acender a luz e, se não me abaixo pra olhar embaixo da cama, ainda fico pensando no assunto. Vai que…?

Brujas, se las hay no sé, pero…

Feliz dia das bruxas!

primeiras letras

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Ah, a sensação da primeira palavra lida por inteiro, sem soletrar, sem solavanco, lendo e entendendo tudo ao mesmo tempo! Puxa, é muito, muito melhor do que o primeiro soutien!

Foi cavalo. A primeira palavra. Não um cavalo qualquer, desses escritos em Times new Roman ou  Arial, nos livros do primário. Foi um tremendo cavalo, enorme, num painel ao lado do teatro Maria della Costa. Ou pelo menos nas adjacências. Relevem aí, eu devia ter uns seis anos…

Não sei do que se tratava a propaganda, pois esse painel era o que hoje chamamos de out-door, na língua pátria da Madonna. Aquela da música pop, que a outra nem mais é lembrada por esse nome, a não ser quando algum italiano das antigas dá uma topada numa pedra das modernas.

Depois que, passando de ônibus, sentada na janelinha, é claro, consegui ler “cavalo”, passei a ler tudo. Parecia a boneca Emília, do sítio, depois que tomou a pílula pra falar. Eu lia. De repente, tudo.

Lia, debaixo de um dos viadutos da Nove de Julho, o cartaz com uma mulher chorosa dentro de uma taça. Achava lindo. Não queria nem saber o que era alcoolismo, só achava lindo aquela mulher ali, dentro de uma taça. Eu lia tudo, mas nem sempre entendia. Isso acontece com muita gente por muito tempo, depois dos seis anos. Alguns carregam essa dificuldade até o fim dos dias.

Lia e amava a propaganda, também no Anhangabaú, do garoto da cera Parquetina. Era um neon, bem no alto de um prédio.

Lia e me divertia com a propaganda nos bondes do “ilustre cavalheiro ao seu lado”, aquela do rum creosotado…

Li a cartilha também, mas nunca achei a menor graça nas vovós que ficam vendo uvas. Cartilha é pobre de conteúdo literário. Como os livros do Paulo Coelho.

E ler, depois que se começa, não tem como parar.

Gosto da cidade sem placas, sem cartazes. Gosto da paisagem limpa. Mas vem cá, ficar na fila de ônibus sem nada pra ler é ruim demais, né não?

Já decorei no meu ponto de ônibus todos os “trago seu amor de volta”, todos os viagens baratas, todos os apartamentos prontos pra morar. Nada que preste, do ponto de vista leitura.

Ah, saudade dos anúncios do biotônico Fontoura, dos filmes do Majestic, até mesmo da sorte tirada no periquito da esquina. Não era boa leitura, mas fazia o tempo passar.

E, sobretudo, saudade daquela sensação da primeira palavra. Aquela que me permitiu ler e hoje, escrever!

 

comida de esquina

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As esquinas de antigamente demoravam a chegar. Ou elas eram grandes demais ou minhas pernas pequenas. Eu saía com meus pais e ficava inquieta, sempre esperando a esquina.

O fato é que era sempre numa esquina que tinha algodão doce. Não tinha essa do tiozinho que vende algodão doce passar com um monte deles já prontos e embalados em plástico, presos num pedaço de isopor.

Aquela era a época do “mato a cobra e mostro o pau”. O tiozinho parava numa esquina com sua máquina de fazer algodão e ia adicionando açúcar no meio daquilo até que a mágica se fazia: começavam a aparecer aqueles cúmulos nimbus de algodão. Branco, como todo algodão que se preze.

Havia também o pipoqueiro. Parado numa esquina, lógico. Geralmente perto de escola ou de fila de ponto de ônibus, que fila de ponto de ônibus é coisa mais velha do que eu.

Era pipoca doce ou salgada. Com açúcar ou sal, mas não groselha ou provolone ou o que mais a criatividade de hoje possa acrescentar. Em pacotinhos pequenos, como pequenos eram os tamanhos das pessoas.

Depois, nos idos da minha adolescência, conheci o coquinho da esquina. Uns pedaços de côco caramelados, vendidos em carrinhos onde voejavam inúmeras e inofensivas abelhas. Que perdição!  Até hoje existe o tal coquinho e até hoje eu paro e compro. Não quero saber da higiene, das abelhas, da poluição das esquinas, nada me detém. Vício é assim.

Hoje existe o dogão da esquina, que nem cabe na minha boca. Provavelmente se eu tentasse comer aquilo, além do súbito aumento do colesterol, dos triglicérides e da minha massa corporal, mantida a duras e vegetarianas penas, eu teria um deslocamento de mandíbula. Aquilo é grande pra caramba. E dá-lhe molho, purê de batatas, batata palha, e sei lá que mais!

Até o café com leite das esquinas perto de fábricas e construções, quase madrugada, já provei. E aprovei. Do bolo pesado e grande até o café de garrafa. Tudo, quando está frio e você saiu de casa sem comer nada, tá valendo. E cai bem.

Agora tem uma coisa que não compro mais: amendoim pralinê, aquele coberto de açúcar cor-de rosa. Não gosto? Que nada! Adoro! Mas foi o primeiro doce que aprendi a fazer com minha saudosa tia Elisa. Uma xícara de água, outra de amendoim, outra de açúcar. E mexe. E mexe. E mexe. Não tem erro!

Infelizmente ando evitando amendoim. Doce ou salgado. Evitando gordura. Evitando sal. Evitando pagode e funk carioca. E comida de esquina, bom, com exceção do coquinho, melhor deixar pra lá.

Porque tem aquele homem que manda na minha vida que me impede de cair de boca.

Maridão? Que nada! O médico, snif…

eleições

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Sou do tempo em que partidos políticos eram um simulacro irônico. Arena e MDB. Sou a favor ou sou contra.

Depois, pouco a pouco, começaram a se formar partidos. Participei do primeiro e talvez o único que pudesse receber tal denominação, após esse período. Eu acreditava e acredito ainda que fazer política partidária seja uma das mais ricas experiências. Não a única forma de fazer política, claro que não, mas uma das mais ricas.

Mas não pode ser só da vontade individual, assim como quem acorda de manhã e diz: hoje vou usar a blusa amarela. Não é assim. Um partido significa um conjunto de regras, de idéias, de princípios. Tem que ter ética (que vai muito além do que se chama ética partidária), tem que ter ideologia, tem que ter projeto para o país, a cidade, para o cidadão.

Esses projetos não precisam, não são e nem devem buscar ser gerais. Ninguém agrada todo mundo todo o tempo. Por isso os partidos são chamados de partidos. Representam um conjunto de idéias e não Todas as idéias. Um conjunto que representa outro conjunto: o de parcela da população que acredita nelas.

E se você tem princípios morais e éticos, sabe que tuas idéias não são as únicas. Sabe que o respeito e o debate entre elas é que determinará um caminho para a nação. O governante eleito não pode ser mais o líder partidário. Deve dialogar, de forma a buscar ser o mais representativo. Deve respeitar. Deve interagir.

Gosto de partidos. Acho que devem existir. Não faço mais hoje política partidária, mas sou cidadã consciente.

Não preciso de papeizinhos na rua pra votar neste ou naquele. Sei que em todos os partidos tem gente razoável, com princípios, com idéias boas e gente desonesta, que entende a política como profissão individualista, com objetivo maior de ganhar dinheiro, o seu dinheiro, ou deveria dizer, o nosso dinheiro.

Tem gente assim.

Não voto neles. Não voto em quem promete, porque esse está de antemão renegando a discussão, a interação, o diálogo. Votarei em quem tiver conceitos éticos não só como político, mas como ser humano. Em quem respeitar idéias e não temê-las. Em quem não se arvorar em salvador. Em quem tiver em seu programa e seu projeto a transparência como meta, de forma a ser fiscalizado. Eu voto mas não esqueço meus votos.

Tá difícil, eu sei.

Mas ninguém disse que escolher alguém que nos represente seria fácil.

E só quem não viveu os anos da ditadura não imagina como é gostoso poder votar!!

Uma boa eleição, bem gostosa e participativa pra todo mundo!!