público e privado

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Tem certas coisas que eu acho muito pessoais.

Travesseiro, por exemplo.

É uma coisa íntima, privada. É onde toda noite eu boto meus pensamentos, meus sonhos e pesadelos, minha cabeça, minha insônia.

E existem outras coisas nada pessoais. O cúmulo da impessoalidade, do distanciamento, da frieza.

Poltrona de avião, por exemplo.

Você compra a tua poltrona, mas isso não te dá direito a nada. Ou melhor, a ficar entalado por horas, se a viagem for longa, sendo chacoalhado nas turbulências, obrigado a comer tranqueiras, brigando da forma mais educada possível com o passageiro ao lado pela posse do braço da poltrona pra apoiar o cotovelo. Pra não falar do ódio que imediatamente você vê nascer em teu coraçãozinho ingênuo e meigo quando o fulano da frente resolve descer o banco e te joga a mesinha e tudo que tem nela no colo.

Eu sempre tive vergonha de misturar coisas pessoais com impessoais. Travesseiros com poltrona de avião. Tanto que ganhei um ursinho multifuncional, que objetivava ( o ursinho não objetivava nada, quem deu é que objetivava) me livrar das dores no corpo e na alma, alma de claustrófoba controlada mas não curada.

Mas resolvi dar um basta! As poltronas vão ficando cada vez menores, minha flexibilidade também, e não há urso que dê jeito.

Na próxima viagem, com ou sem constrangimento, vou carregar publicamente meu travesseirão, aquele dos sonhos, dos pesadelos, dos pensamentos e das insônias.

E ai do companheiro ao lado se vier disputar comigo o braço da poltrona…

Eu  e meu travesseiro, juntos, somos muito mais poderosos!!

Taí o ursinho …

faxina total: a saga

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Outro dia filhão disse que está ficando com minha mania de limpeza.

Mas a mania não é minha. Nem é mania. É saga de família.

Minha mãe limpava tudo que encontrava. Ela polia todos os trincos, fechaduras e até dobradiças douradas ou prateadas das portas e janelas. Com um negócio chamado Brasso, usado por quem ( desculpem aí o trocadilho inevitável) tinha mesmo muito braço. Dar brilho com aquilo cansava que só…

O banheiro ( sim, nasci e sobrevivi  numa casa de um só banheiro) era limpo com Creolina ou lisofórmio. Nosso banheiro tinha cheiro de hospital. As louças brancas com sapóleo. Ficavam todas opacas, mas brancas de doer.

As panelas de alumínio, nos anos em que minha avó cozinhava e lavava louça, eram polidas, muitas vezes, com areia. Sabe aquelas frigideiras que ficam muito pretas? Pois é: areia. E postas pra secar na grama do quintal. As panelas com o tempo até furavam, mas podia-se dispensar espelhos em casa: bastava olhar pra uma daquelas panelas!

Depois, quando minha mãe decretou que minha avó na cozinha era um estrago pra nossa saúde e também pra dela, minha mãe passou a cozinhar e limpar a cozinha. Daí ela apelou pra uma “modernidade” : palha de aço. Nós morávamos ao lado da fábrica da Bom-Bril. Nem precisava comprar. Naquela época, de quase nenhuma consciência ecológica, o pessoal descartava esponjas de aço no terreno baldio defronte a nossa casa. Era só ir lá e fazer a catança. Era uma espécie de out-let de esponjas: com pequenos defeitos, mas perfeitamente usáveis.

E o chão da casa? Um dia minha mãe foi visitar uma senhora da relação dela. Uma japonesa, acho. Que tinha dois panos de feltro sobre os quais andava pela casa, “lustrando” o chão enquanto andava.

Pra que?! A partir daí, minha mãe fez pra si os tais panos e passou quase o resto da vida andando sobre eles. Só foi largar o hábito quando se mudou pra uma casa com carpete.

Assim cresci e fui criada. Não tenho essa mania tão acirrada, nem tenho tempo pra tanta limpeza. Mas sou bastante organizada e gosto de limpar as coisas. Quanto mais sujas estiverem, gosto mais.

Mas não suporto tirar pó. Acho que isso já é um avanço na saga familiar.

Meu filho, o da “mania de limpeza”, lava até casaco de couro na máquina e minha filha é capaz de passar horas tirando folhas secas de plantas . Nenhum de nós chega a ser fanático como foram nossos ancestrais, mas percebe-se ainda a “doença” familiar.

E não nego, porque não posso: entupo meu closet de naftalina. Não porque tenha traças, mas porque adoro aquele cheiro dos baús da minha avó.

E só não uso lisofórmio mais porque minha mão ameaça descascar até o osso, mas se eu pudesse…

infânciabook

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Minha vida na ACM

ACM Nestor Pestana. Está lá até hoje.

Eu ia de vez em quando, nunca fui sócia, meus irmãos eram. O mais velho trabalhava lá, dava aulas de ginástica, como se dizia na época.

Na piscina, de água quente e clorada, onde meus olhos ardiam e a garganta raspava, prenunciando minha futura rinite, eu gostava mesmo era de desenhar nos vidros embaçados.

Na escadaria enorme, de mais de dez andares, em círculos, eu apostava corrida com o elevador. Eu tinha uns sete anos e o elevador com certeza muitas vezes mais. Eu ganhava. A bem da verdade, só na descida…

Na enorme sala de ginástica, com um mezanino, eu ficava horas embevecida, ouvindo o pianista alemão, um senhor que martelava o piano como se tivesse raiva dele, mas que me fez conhecer – e gostar – do John Philip Souza, o compositor das marchas militares. Ele, o maestro, como o chamávamos, achava que fazer aquecimento  ao som das marchinhas era tudo de bom.  Ao fim das aulas, para relaxamento, Chopin. Até hoje eu relaciono um com corrida e outro com relaxamento, mesmo as Polonaises.

Na mini-biblioteca que havia, eu ficava um tempão lendo. Não havia muita coisa interessante, mas havia gibis, que em casa eram proibidos. Eu me sentia fazendo uma contravenção. Adorava ler gibis lá. Embora nem gostasse muito de gibis. Só gostava dos de terror, mais raros.

E assim, sem ser sócia e, portanto, sem usar a ACM como clube, eu a usava como parquinho. Inventava meus brinquedos, passava o tempo sozinha, como sozinha passei a maior parte do tempo da minha infância.

E sozinha eu sempre fui muitas.

Um caso clínico talvez.  A rede social imaginária…