compartilhar

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Aprendi o que era compartilhar no primário. Não que alguma professora tenha ensinado, mas foi lá que, nas vezes em que não tinha lápis ou caneta, ou quando meu lanche era ruim e alguém sentado do meu lado tinha um melhor, eu compartilhava ou compartilhavam comigo. Um troca-troca generoso.

Quando minhas roupas ficavam velhas, ou já não serviam, minha mãe me ensinava a doar. Um compartilhamento, também. Ela dizia: o que não serve pra você, há de servir para alguém.

Na escola, bem mais tarde, aluna relapsa que fui me tornando na adolescência, eu compartilhava ( pra falar a verdade, compartilhavam comigo) nas provas. Cola, no bom e velho português.

Com filhos pequenos, as roupas e brinquedos dos dois sempre foram compartilhados. Pra desespero da minha filha que, menina, relutava em usar só calças e camisas, muitas vezes herdados do irmão mais velho. Mas eles aprenderam a compartilhar. Como diria Maquiavel: dividir pra governar…a gente não ganhava tão bem que desse pra filhos terem coisas separados! Era necessário dividir pra gerenciar o pouco. Maquiavel não disse nesse sentido, mas eu gosto desta interpretação.

Eu gosto da idéia de compartilhamento. Desde que não sejam livros ou discos. MEUS livros e discos. Até com marido eu sou generosa,compartilhando o marido nas milongas em que mulheres sempre padecem da falta de homens. Para dançar, que fique claro.

Agora esse negócio de compartilhamento do Facebook, em que as pessoas descobrem frases que acham bonitinhas e pespegam um compartilhar nelas, torturando seus amigos, isso não há quem agüente.

Eu não estou a fim de compartilhar fotos de gatos, cachorros ou similares; não gosto de frases piegas e muito menos aquelas de procedência francamente falsa; não gosto de piadas visuais de mau gosto e não mereço poesias pueris.

Gosto de fotos dos meus amigos, gosto de informações sobre novas milongas e/ou eventos culturais, gosto de dicas de livros, filmes e exposições.

Não compartilhem comigo. Compartilhem com os outros.

Porque eu, eu  sou uma egoísta virtual assumida.

Desbancada

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Eu achei por muito tempo que as pessoas mais velhas, que tinham vivido outras épocas, eram uma espécie de memória viva. Lembro que conheci muitas delas, a começar da minha avó, a quem eu enchia de perguntas pra saber como era o mundo antes de mim. Sim, porque o mundo se dividia em antes e depois de mim. E ainda se divide, sem que isso seja pretensão. É que não sei por meu referencial em outro lugar que não seja eu mesma e meus olhos.

Eu posso ler, estudar história e antropologia, mas tenho que querer fazer isso. E essa motivação tem que estar dentro de mim pra funcionar. Então…

Mas voltando, usei muito minha avó, meu pai e algumas tias mais velhas como fonte de pesquisas. Gostava mais do que ler livros de história, porque elas contavam as coisas que também estavam nos livros acrescentadas do aspecto pessoal. Elas humanizavam a história, se é que posso dizer isso. Era assim: “ na época do Getúlio, quando eu tinha a padaria da Lapa, seu avô comprou um carro…” e por aí a coisa andava. O Getúlio governava mas a padaria também funcionava e o carro que acabou matando meu avô tinha acabado de ser lançado.

Gosto de história contada desse jeito.

Hoje, devido à minha idade, vejo que eu mesma vou-me tornando uma pessoa assim: a chamada testemunha ocular da história. Eu sou uma pessoa que andei em bondes, em ônibus, em metrô, em trem-bala, em avião com hélice e jato. Que batia minhas mal traçadas linhas numa Olivetti lettera, depois numa máquina elétrica, depois num TK, depois num XT, depois…

E por aí vai. Sou de quando não pudemos votar pra presidente, sou de quando botamos presidente pra fora, sou do tempo da corrupção, continuo no tempo da corrupção, mas isso é história pra outra vez.

O fato é que hoje, tendo me tornado eu mesma a tal testemunha ocular, descubro alguns fatos lamentáveis: em primeiro lugar, não tenho netos pra virem me perguntar coisas, as coisas que a avó viveu, vejam só!

E em segundo, existe o Google e a Wikipédia.

Fui desbancada, sem nunca ter podido botar banca.

Snif.

vida crônica

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Em casa assinávamos o Estado de São Paulo, o jornal. É claro que eu não tinha nada com essa decisão, eu tinha sete anos. Minha mãe também não apitava muito no quesito jornal. Minha avó sim. Era fissurada em crochê e recortava todas as receitas que vinham. Mas quem decidia e gostava de ler o jornal inteiro era meu pai.

Pra mim sobrava pouco, naquela época. Os quadrinhos, como  o Pafúncio, o Flash Gordon, os sobrinhos do capitão. Eu gostava médio. Mas o que eu descobri, ali na página das palavras cruzadas, bem pequenininhas, eram umas crônicas – na época eu não fazia idéia que eram crônicas- do Luiz Martins.

Eu nunca soube a cara que tinha o Luiz Martins, nem mesmo se ele escrevia alguma coisa que não fossem crônicas.

Como disse, eu não tinha a mínima idéia do que eram crônicas.

Muito depois, conheci o Drumond. E me apaixonei. Não pelas poesias dele, que eu não gosto nada de poesia. Pelas crônicas. Aí eu já tinha uma vaga idéia do que eram crônicas.

E o Lancelotti. Esse que fala, ou escreve, de futebol, de política, de gastronomia. Crônicas, hoje eu sei.

E o Manuel Bandeira. Que é poeta, mas um poeta travestido em cronista. Um dos únicos poetas que gosto. Quando ele poetisa em forma de crônica.

Na escola, gostava de fazer redações sem tema definido. Hoje sei que eram crônicas.

E ontem fui assistir a um documentário sensacional: “vou rifar seu coração”, sobre a música brega. Uma crônica cinematográfica, que é isso que, ao fim e ao cabo, é um documentário.

Uma belíssima crônica do nosso povo, aquele povo que curte nas músicas as “estorinhas” da vida.

Ou seja, crônicas.

Pra onde eu olho, vejo crônicas. Nas telas da Maria Auxiliadora, pintora naif das festas populares, nas telas do Toulouse, pintor impressionista das festas de cabaré. Crônicas em cores.

E cada vez mais, com a idade, vou percebendo que minha vida não daria um romance. Vida simples, de amores e tristezas cotidianos. Como os da maioria das pessoas.

Minha vida quando muito dá uma…crônica, é claro!

Finalmente descubro que Luiz Martins foi importante cronista e jornalista, casado com Tarsila do Amaral e publicou romances também. E vejo a cara dele, neste retrato pintado por Tarsila!