quando a ficha cai, dói.

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Fazer supermercado do mês sempre foi uma atividade prazerosa pra mim.

Deve ser uma coisa de família.

Em casa, de menina, havia duas coisas que enchiam meu pai de orgulho: a despensa e as estantes de livros. Ambas cheias.  Ele nunca leu nenhum livro, só jornais e revistas, mas dava o maior valor pra eles. Mesmo em épocas de muita necessidade, sempre assinou o clube do livro e todo mês recebíamos dois livros novos.

A despensa, essa sempre estava cheia, o que variava eram os produtos. Em épocas de vacas magras, biscoitos soltos, quebrados, comprados a granel, mortadela ruim, queijo só o pra ralar e nunca foi lá essas coisas. Eu sei por que eu roubava queijo de ralar pra comer e levava a maior bronca no dia da macarronada, quando davam pela falta. Eu comia até a casca, aquela coisa suja e cheia de parafina ou sei lá o quê… Devo ter sido rato na última encarnação.

Mas meu pai gostava de supermercados e eu honro a tradição. Durante anos e anos fiz as compras do mês sozinha. Não dá pra levar criança pequena em supermercado. Com o passar dos anos, meus filhos, ou melhor, minha filha ia comigo. Ela também segue a tradição e curte um supermercado.

Depois que os filhos casaram e foram embora, só me restou voltar a fazer compras sozinha. Vez ou outra o maridão resolve vir junto. Só mesmo se não houver outro jeito.

Hoje ele veio. Sem prática, mais pra empurrar carrinho. A cada coisa gostosa que eu comentava e/ou mostrava a ele, recebia uma negativa peremptória de volta.” Isso não pode! Isso nem pensar! Isso engorda! Aquilo tem colesterol” e outras coisas do mesmo calibre.

Ele tem razão, eu sei.

E eu, mais do que ele, tenho que controlar pressão, colesterol, triglicérides e o escambau.

Mas em certo ponto, ele mesmo percebeu a situação e comentou, entre decepcionado e penalizado:

“amor, dia vai chegar em que a gente só vai poder comer coisas repulsivas. Daí a gente senta na mesa, come rápido e fim de papo. Acaba a gula. “

Por que a constatação da realidade me causa tanta tristeza?

filosofia no terminal

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Eu podia perguntar de onde venho, pra onde vou, como e por quê. Podia. Mas parece que isso tudo, apesar de fundamental, não me move nem comove.

Não sei de onde venho – não, não estou falando de parentes próximos, isso eu sei bem- tampouco sei bem para onde quero ir, sei melhor pra onde não quero ir; não sei bem meus porquês, mas o que eu não me canso de perguntar, de tentar entender, são os porquês dos seres humanos. Aqueles porquês mais genéricos, aquele tipo de coisa que a gente faz sem nem saber como nem quando, mas acaba fazendo tudo igual. Uns igual aos outros.

É isso que me motiva. Acho que o aspecto formiga de todos nós. Aquilo em que somos iguais, mais do que aquilo que nos faz diferentes.

A velhinha vem no ônibus no qual estou. Chega esbaforida. Xingando o “lazarento” que não dá lugar pra velhinhos. A partir daí, prensada entre o motorista e um passageiro, colada ao vidro da frente do ônibus, começa a resmungar alto.

Aparentemente, pelo menos no começo, está falando com o passageiro ao lado e o motorista. Aperentemente, porque nenhum dos dois lhe perguntou algo. Nem precisava.

Ela começa o discurso. Dez minutos depois, eu e todos os dez ou onze ali espremidos, naquele fim de tarde ensolarado e modorrento, ficamos sabendo toda a biografia – pelo menos em seus pontos principais- da senhorinha. Sabemos que ela tem duas aposentadorias, que tem casa alugada a uns 20 km dali, que o inquilino só dá problemas, que ela odeia aquela linha de ônibus, que ela espera nunca mais ter de tomar aquele, que a mãe dela era cuidadora de idosos e que ela aprendeu com a mãe dela a não rezar. A mãe dela rezava pra caramba e morreu antes da idosa que cuidava. Moral da história: rezar não adianta.

Interessante o ponto de vista pragmático, que tem minha simpatia no aspecto ateu da coisa, mas minha antipatia no aspecto toma lá, dá cá, religioso.  Eu devo ser mais religiosa que a velhinha, debaixo do meu ateísmo. Não negocio com santos.

E a velhinha continua. Cabelinhos pretos por fora e brancos rente ao couro cabeludo, baixinha, enfezada. Resmunga a viagem toda.

E a pergunta que não quer calar e não consigo responder: por que as pessoas só falam alto resmungando? Nunca ouvi alguém falar sozinho das boas coisas da vida, do por de sol lindo, das filhos e netos queridos, do bom que é voltar pra casa, do bom que é ter um trabalho, ter saúde, olhar um bicho ou uma árvore florida. Alguém falar: “puxa vida, que dia legal hoje!”

Acho que as coisas boas não são pra serem compartilhadas com o coletivo. Com desconhecidos, a gente reclama.

Uma vitimização, pra ganhar solidariedade? Ou será que a vida é mesmo uma droga e eu é que sou babaca?

Não sei.

Pra falar a verdade, tenho medo da resposta.

 

medidas

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O post de um amigo me inspira. As fotos dele sempre me inspiram, porque, despretensiosas, retratam o cotidiano com poesia.

O assunto da foto é “medidas”. Estão no http://pedemeias.blogspot.com

De pequena, eu me media. Em centímetros, que aumentavam a olhos vistos. Em marcas feitas a faca num batente de porta. Eu achava que tinha o mérito todo. Que dependia da minha vontade o crescer. Ilusão que terminou aos treze anos, quando a minha vontade de crescer continuou, mas as medidas não. Minha última medida ficou lá, sem ter chegado nem aos 1,70m.

A partir dali, em plena adolescência, começou a preocupar-me a medida de outros contornos. Busto, quadril e cintura. Na época, o interesse das misses dizia respeito mais à cintura e quadril do que às bundas e peitos de hoje.

Em breve desanimei. Aos dezoito já tinha percebido que não ia chegar à cinturinha fina nem a quadril largo. Peitos, então…

Daí começaram a se fazer importantes outras medidas: vestibular, notas, provas, concursos…precursores de minha gastrite, esses valores sempre me torturaram. Não necessariamente por serem baixos, mas por serem testes. Medidas. Comparações.

E pela vida afora, as medidas continuaram a se suceder: quem tem mais dinheiro, quem tem mais diplomas, quem tem mais figurinhas carimbadas, quem tem mais amigos no facebook, quem tem mais seguidores no twiter, quem tem mais títulos no futebol, mais, mais, mais.

Ninguém parece nunca ter o suficiente. Há que se ter mais. Pra que? Não me pergunte.

Já não meço muita coisa que antes media. Ainda meço as palavras. Muito, que procuro ser cuidadosa com elas, sempre.

Meço dinheiro. Não pra ter mais, que o que tenho me basta, mas para não correr o risco de ter menos. A velhice assusta. Sem dinheiro assusta muito mais.

Meço calorias. E colesterol. E açúcar. As medidas da saúde. De novo, o medo da velhice e da morte.

Meço os dias que faltam pra viajar. Qualquer viagem .

Outro dia me mediram, no check-up anual.

Eu diminuí, vejam só!

Talvez eu volte a fazer riscos no batente da porta, constatando a diminuição…

festa

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Não sou pessoa festeira, mas já cansei de organizar festas na vida.

É claro que elas- as festas organizadas por mim – também nunca foram essa maravilha, mas como organizar bailes se eu mesma não dançava, na época? Seria como uma virgem organizar um bom bacanal, guardadas as devidas proporções, oops!

Mas eu gostava de organizar. Porque gostava de esperar por elas. Imaginar o salão, as pessoas dançando, as roupas que eu e todo mundo estaríamos usando, a noite, o céu, o luar…minha imaginação ia longe. E sempre, sempre idealizou festas muito melhores do que na realidade se mostraram.

Não chego a dizer que a imaginação é melhor do que a vida real. Não é. Hoje, que melhorei bastante minha vida real e minha capacidade festeira, sei que não é. É uma questão de empenho, de dedicação, de conhecimento de causa.

É claro que existem fatores que não dependem desses acima mencionados. Não posso, nem ninguém pode, providenciar uma noite de estrelas e luar, até mesmo quando consultamos antecipadamente a meteorologia.

Também não podemos garantir beijos apaixonados, amores realizados, nem mesmo pares de dança concatenados. Infelizmente, que eu gostaria de poder. Ser deus tem seus atrativos.

Vim aqui pra falar de festas?

Não exatamente. Que eu tampouco sou mulher de contar com ovos no fiofó da galinha. Já passei do tempo pra isso.

Então, não vou falar da festa que imagino hoje à noite, com o timão campeão pela primeira vez da Libertadores.  Até vai ter lua linda e estrelas, que eu já consultei a meteorologia e meus calos. E se os climatólogos falham, meus calos falham menos.

Somos 30 milhões de loucos pelo timão e espero que angariemos mais outro tanto de brasileiros que vão se armar em brios contra os argentinos, torçam ou não pelo timão. Não vamos torcer contra, pessoal, que isso faz mal à saúde, adverte o ministério.

Mas esta festa, se de há muito esperada, não pode ser antecipada. Vamos abrilhantar o salão, decorar, usar nossas melhores roupas, providenciar a melhor música.

E esperar. A gente é bom nisso.

E torcer pra que a festa se realize.

Porque tenho certeza  que, se ela acontecer, será a melhor que meus sonhos jamais imaginaram!!