o seu bem é o meu mal?

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Sou uma mulher de princípios.

Não muitos, é verdade.

Um dos princípios é: não votar nulo nem torcer contra.

Não consigo. Apesar dos políticos que temos por aqui – e que nem são tão diferentes assim dos do resto do mundo – não me arrependo nunca de ter votado. Porque passei anos e anos de minha vida sem ter esse direito. Porque tivemos que engolir anos e anos de militares no poder, barbarizando em todos os sentidos, sem poder escolher nossos governantes.

Tal como nos casamentos de hoje, que duram pouco, é verdade, ainda assim são mil vezes preferíveis aos dos tempos em que os pais ou familiares escolhiam os noivos para as filhas.

Melhor errar do que não poder opinar.

E também não torço contra. Nada nem ninguém. Em primeiro lugar porque torcer não muda nada. Talvez num campo de futebol, mas fora dele a torcida por si só não é capaz de mudar resultados.

Mas irrita o entorno, ah, isso irrita.

Se não gosta do meu time, não precisa assistir o jogo. Não precisa nem ligar pra ele. Não precisa se desgastar nem se estressar.

Se não gosta do meu time, tudo bem.

Mas torcer contra pra que? Pra mostrar o quanto não gosta? Pra ficar por aí, se remoendo, aumentando o nível do ácido estomacal, candidatando-se a uma gastrite só porque não gosta do meu time? Ora, não vale a pena.

Viva e deixe viver.

Torça pro seu e deixa  eu torcer pro meu.

Não precisa soltar rojões cada vez que meu time sofre um gol ou faz uma má jogada.

Creia, eu já sofro o suficiente sem a sua torcida.

Torcer contra. Diz pouco pra mim, mas diz muito de você.

da constatação da burrice

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Só sei é que nada sei, me parece uma frase meio arrogante. Não, não é paradoxo. É que mesmo na humildade, o cara pode ser arrogante.

Mas eu constato com muita freqüência que sei pouco das coisas ou que sei das coisas só a superfície.

Isso me bota num dilema: se eu que fiz universidade, leio com certa compulsão, ainda assim sei pouco e frequentemente me sinto ignorante, o que isso significa?

Pode significar que as universidades são ruins ( e olha que eu fiz a melhor de Sampa) ou que eu sou burra .

Bom, eu passei no vestibular, eu passei no exame de motorista, eu passei pela vida profissional e pela aposentadoria. Muito, muito burra acho que não sou.

Mas sou burra o suficiente em certas coisas.

Eu não sei usar tecnologia moderna. Levo um tempão pra aprender a usar celular cheio de mequetrefes, definitivamente não sei ligar o DVD ( ia escrever vídeo, mas lembrei que vídeo já era),  não consigo decorar o que todos aqueles botões do painel do carro querem dizer e tenho medo de mexer neles e desregular alguma coisa. Enfim, é duro.

Na academia, cada vez que o professor muda o treino eu levo de uma a duas semanas pra decorar os aparelhos e os pesos correspondentes.

Meu número de celular? Não sei. Está escrito nele mesmo, mas também não sei onde procurar. Como eu nunca liguei pra mim mesma ( só nesse sentido, porém) eu continuo sem saber.

Eu faço comida sem receita e crochê e tricô também. Mas isso não vale como mérito, uma vez que é muito comum eu salgar demais ou de menos e minhas roupas em crochê e tricô ao invés de servirem pra pessoa que eu fiz, acabam servindo pra alguém menor ou maior. Bom, pelo menos servem pra alguém, ressalva meu eterno espírito pollyana.

Mas o que eu verifico não saber mesmo, principalmente frente aos úiltimos acontecimentos, é política.

Passei metade de minha vida ajudando a construir um partido, porque achava importante a noção de partido. Pra ver hoje que isso é uma grande piada. Ultimamente tenho votado em quem  acredito ou conheço pessoalmente. Caio do cavalo com freqüência.

Não sei mais em quem acreditar, ou no que acreditar.

Família, que é o núcleo mais próximo e que a gente pensa conhecer, também é complicado. Temos surpresas. Eu tenho.

Lastimo não ter nunca acreditado em papai Noel ou ter tido alguma religião. Pelo menos eu teria me divertido, não ficando  hoje com esta sensação de “desconhecimento” ou burrice. E agora já não vale mais.

Papai Noel não vai querer me por no colo nem tenho paciência nenhuma pra qualquer religião.

Com exceção, talvez, do meu Corinthians…

croniquinha hortifruti

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Eu amo caqui. É paixão antiga.

Mas o caqui já não é o mesmo do começo da minha paixão.

Caqui, aquela fruta pequena e laranja forte, era macio e tinha sementes. E a coisa que eu mais gostava de fazer era separar, dentro da boca, a pele que envolvia as sementes. Era a melhor parte do caqui, na minha opinião.

Continuo gostando de caqui. Muito.

Mas cadê as sementes?

O figo, em compensação, que eu comia todinho segurando pelo cabo, já não posso mais comer dessa forma. Tem que ser de colherinha, tomando cuidado pra não comer a casca, branca de venenos agrícolas. A melhor e mais doce parte do figo: a casca.

A goiaba eu como inteira. Eu também comia, quando era garota e tinha no quintal uma grande goiabeira. Eu comia inteira, tentando não olhar pros vermes brancos dentro dela. Eu acreditava no meu pai que dizia que bicho de goiaba é também goiaba. Uma teoria interessante, prima daquele clichê que diz que você é o que você come. Eu comia e adorava.

Hoje não preciso me preocupar com os bichos de goiaba. Ela não tem mais bichos. Nem gosto.

Banana gêmea nunca mais vi. Nós, as crianças, quando encontrávamos uma assim, dizíamos que quem comesse teria gêmeos. Eu já nasci pragmática, então sempre achei que ter gêmeos na vida era tudo de bom. Dois coelhos numa só cajadada, se é que me entendem…Eu comia todas que encontrava. Nunca tive gêmeos e quando meu irmão teve, e eu vi o casal se esfalfando com dois bebês chorando ao mesmo tempo de fome, tendo que dar banho e amamentar, pra não falar do custo dobrado dos estudos, vi o quanto estava errada. Por sorte, acho que não comi a quantidade necessária de bananas gêmeas. Ou pelo menos, meu irmão comeu mais do que eu. Ele teve dois pares de gêmeos.

Laranja Bahia, ou baía, sei lá de onde vem esse “Bahia” ou baia. Eu curtia comer só o que eu chamava de “laranjinha”, ou umbigo da laranja. Era meio amarga, mas era bonitinha. Hoje não curto mais. Nem a laranjinha, nem a laranja.

E morangos, então? Que estão chegando ao tamanho de maçãs?? Enormes, vermelhos e sem gosto nenhum. Como as maçãs, por sinal.

As coisas ficaram muito grandes.

Minha saudade também.

dia dos namorados

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Você não é a minha paixão.

Você não é a metade da minha laranja (até porque, apesar de vegetariana, não me sinto nem nunca me senti uma laranja).

Você não é tudo pra mim.

Você não é meu mundo, minha vida, minha casca de ferida (como a gente falava, quando era criança).

Você não é o melhor homem do mundo, nem o mais bonito, nem o mais inteligente.

Você não me faz perder a cabeça, nem me faz ver estrelas de dia, nem me faz andar nas nuvens.

Por você eu não dançaria um tango no teto, nem me acabaria de amor, nem me rasgaria toda.

Você é só o homem que eu amo. Desde que te conheci, há 45 anos.

E sei que sou amada.

E isso é tudo.

TUDO.

os bolsos do meu pai

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Dizem que se conhece um homem pelos amigos que tem. Outros falam que pelas ações. Tem gente até que diz que se conhece um homem pela mulher.

Bobagem.

Acho que se conhece um homem – e uma mulher – por aquilo que carrega nos bolsos. No caso da mulher, na bolsa.

Os bolsos do meu pai sempre me disseram muito dele. Toda vez que ele voltava do trabalho, trabalho esse realizado numa das principais ruas de comércio popular de Sampa- eu revirava os bolsos dele. Sempre encontrava uma bala turca, daquelas de goma, ou um brinquedinho de camelô, ou um lápis, ou coisas pra casa, tipo um cinzeiro, mas que eu ficava feliz de encontrar.

Ele punha lá, nos bolsos do paletó, exatamente pra isso mesmo: pra eu encontrar.

Minha mãe também gostava de revirar o bolso dele. Ficava enlouquecida, porém, com as coisas que ela encontrava. Bilhetinhos, fotografias, cartas…essas meu pai não punha lá para serem encontradas por ela, mas minha mãe era boa pesquisadora. Ou talvez fossem para ela mesma, para serem encontradas. Até hoje não sei. Nem saberei, uma vez que os dois foram embora com seus segredos.

No bolso de cima do paletó, aquele pequenininho, que fica por fora, ele carregava um lenço dobrado de forma “artística”, formando cinco pontas. Eu aprendi a dobrar pra ele. Também aprendi a fazer nó de gravata, mas maridão nunca usou gravata de forma que eu pudesse exercer essa especialidade.

No bolso de trás da calça, o dinheiro dobrado, preso por um clip grandão. Ele cansou de ser assaltado mas nunca mudou o dinheiro de lugar. Ficava ali, fazendo volume, chamando atenção, aquele monte de “manolitas”, como dizia minha avó, chamando ladrão.

Mas meu pai tinha carteira. Punha no bolso interno. Lá, na carteira, não havia dinheiro. Havia uns santos católicos e espíritas, acho, e os tais bilhetinhos e fotos que minha mãe costumava encontrar.

No outro bolso de trás da calça ficava um lenço. Esse pras necessidades nasais. Ele tinha e me deixou de herança, uma rinite alérgica eterna.

Eram assim os bolsos do meu pai. Era assim meu pai. Atencioso com os filhos, atencioso com as mulheres alheias, atencioso para com os ladrões, facilitando-lhes o trabalho.

Meu pai era isso: um homem atencioso.

E cheio de bolsos.